25 dezembro 2008

Que venha 2009






Queridinhos, então 2008 está acabando. Eu até acho que foi um bom ano, longe de ser um dos melhores, ao menos "tirou o bode da sala". Mas ainda falta muito pra coisa melhorar mesmo. As coisas ruins que aconteceram foram didáticas pra mim ( vou poupar vocês das descrições dessas coisas, basta que saibam que houve coisas ruins e que aprendi com elas, ponto), foram cruciais para que eu valorize efetivamente as muitas coisas e pessoas maravilhosas que tenho.
Enfim. Aprendi, ok, vamos pra próxima, certo? ;0)
Espero que 2009 me traga mais do que coisas boas, me traga a realização de sonhos que elaborei com cuidado, carinho e lucidez nesse ano. É isso que espero pra mim, é isso que espero pra vocês.
Particularmente, gosto muito do reveillon, gosto muito da idéia cíclica de encerrar um período e, oficialmente, abrir um outro.
Já fiz minha lista de metas e desejos, estou trabalhando para conquistar tudo que listei. Quanto isso acontecer, conto pra vocês.
Um grande beijo, cheio de afeto e desejo de renovação.
Feliz 2009 pra todos, a gente se encontra por lá.

22 dezembro 2008

Feliz natal em 2008, queridos

Queridos amigos e leitores, amanhã Daniel faz 16 anos e depois de amanhã é natal. São duas datas deliciosas, queridas e importantes.
Então quando as palavras escritas se tornam pouco pra expressar o que rola dentro da mente e do coração de alguém, só nos resta correr pra música, que sempre tem esse poder.
Então, pra vocês, o Rei.
Beijos e feliz Natal.






18 dezembro 2008

Há 16 anos






Em todo aniversário na minha família, minha mãe começa " há XXX anos, eu estava no hospital e ..." e conta nosso nascimento, a mágica de ser mãe, essas coisas todas. A gente sempre tirou o maior sarro, brincando com ela, que ria também.
Eu já disse aqui várias vezes e vou repetir: só entendi o que ela dizia, só entendi o que significava esse amor, quando eu mesma me tornei mãe.
E venho de uma linhagem de mães por exelência, quem conheceu minha avó, dona Gogóia, sabe do que falo, sabe da relação extremada com os filhos.
Dia 23 de 1992, um pouco antes das oito da noite e depois de mais de 24h de um trabalho de parto muito difícil, nasceu Daniel e nasceu uma mãe de 24 anos.
Complicadíssimo descrever o que é olhar pela primeira vez uma carinha toda amarrotada que estava vivendo dentro do seu próprio corpo, indescritível dizer o que significa amamentar: construir o próprio alimento, ser tão suficiente assim. É algo que me lembrava uma super-mulher.
Amamentei muito pouco, apenas três meses, por conta do lúpus e da medicação que deveria voltar a tomar. Essa parte eu não gosto de lembrar.
Mas gosto de lembrar de tudo, de cada idade.
Agora, com um filho que vai fazer 16 anos, descobri que ser mãe de adolescente é muito bacana. E sempre impliquei com adolescentes, mesmo quando eu era uma deles, e achava que seria um período muito chato.
Ah, tem suas chatices, como tem. Mas é tão divertido. É tão divertido poder discutir tantos temas diferentes com ele, ver o interesse dele por política, por arte, ver a sagacidade, o humor.
Daniel foi o melhor presente de natal que já ganhei, foi o meu primeiro natal como mãe, foi o primeiro de todos os outros.


*********


Quem não conhece e quiser conhecer, tem post novo no meu outro blog, que a Lu do Epa criou e me chamou pra participar. A gente está meio relapsa nele - e nas dietas..- mas 2009 é ano novo, blogs novos e ...peso novo!
Passem por lá.

14 dezembro 2008

Tempo Rei


A primeira coisa que me chamou a atenção no livro, foi a o título. Sei que pode parecer óbvio ululante, mas quando olhei a capa vermelha e li O Filho Eterno, pensei o que qualquer um que tenha tido o mínimo contato alguém com Síndrome de Down pensaria: o título é genial, porque para os portadores da síndrome o tempo é uma abstração incompreensível, tudo é praticamente um presente eterno, para eles a noção de tempo praticamente não existe.E eu sei disso, porque como tive alunos Downs e sou professora de História, e me vi em uma situação angustiante: como ensinar História para alguém que não compreende o que é tempo?
Cristovão Tezza, o autor, o intelectual para quem a possibilidade de um desenvolvimento que fosse aquém do convencional era uma tormenta, tinha tido a inverossímel profissão de relojoeiro.
O ex-relojoeiro tinha então que lidar com o não-tempo do filho, o tempo eterno do filho.
Tezza construiu um romance com rara franqueza, com rude franqueza, despido de qualquer pudor, onde tem seus sentimentos mais recôndidos revelados. Sem pena de si mesmo, ironiza suas atitudes, ironiza suas desculpas e assume, de forma dolorosa e aberta, a frustração e o medo que sentiu ao ser pai de Felipe, um menino com síndrome de down.
E o texto não é um daqueles que mostram o pai rejeitando e amando pouco tempo depois, todo felizinho. Não. Mostra o pai desejando a morte daquele "filho errado" , como ele classifica, mostra o pai tentando toda e qualquer estratégia para normatizar o pequeno e transformá-lo no tal filho certo.
Concomitantemente a narrativa em que a aventura de ser pai é descrita, Tezza se alonga em uma deliciosa digressão onde sua temporada como trabalhador e como estudante na Europa, onde seu olhar, longe de ser saudoso, mas uma vez tem o tom sagaz e cruel de uma ironia sem perdão. Assim, o livro é narrado em dois tempos: o tempo de Felipe e o tempo antes de Felipe, onde tudo converge para que conheçamos de forma mais intensa o pai.
Assumir Felipe não era apenas assumir um filho , e um filho down, mas era assumir uma vida de adulto, perceber que embora ele negasse, tempo que havia passado.

"Um gancho atávido ainda o prende à nostalgia de uma comunidade de teatro, que frequenta uma vez por ano, numa prolongada dependência ao guru da infância, uma ginástica interminável e insolúvel para ajustar o relógio de hoje à fastasmagoria de um tempo acabado" (p.12)

Assim, o tempo é um personagem à parte: o tempo que o antigo Tezza tentava parar, o tempo que Felipe não concebe e o tempo real, reorganizando as relações e desenvolvendo o amor que finalmente surge e toma conta do pai, que resolve crescer, trabalhar, ser pai efetivamente.
A história aparece pautada na literatura, tudo parece ter significado através de uma interface com alguma referência literária. Assim a vida é compreendida melhor através dos livros, como se eles dessem sentido à realidade.
O pai compreende o mundo através dos livros e perceber que isso seria impossível para seu filho praticamente o destroça.
Descobrir o amor desse filho, descobrir o amor por esse filho, tudo isso acontece de forma paulatina, dolorosa e profunda.
Acho que poucas vezes vi algo tão genuinamente franco, tão corajosamente franco.
Tezza foi laureado com vários prêmios ( Bravo!, APCA, Jabuti , Portugal Telecom) e tudo indica que ainda irá receber mais alguns, o que sinceramente, eu espero.

02 dezembro 2008

Queridos Amigos


Eu entrei na Unicamp em 1989, me formei em 1992. Desde então, muita água passou debaixo da ponte e alguns amigos eu perdi de vista. Alguns sairam do país, outros foram pra outros estados, outros deixei de ser amiga, outros perdi de vista. Mas tenho na minha vida alguns deliciosamente escolhidos, que entra ano, sai ano, continuam fazendo parte do meu cotidiano.
Alguns eu vejo mais, alguns mantenho contato por email e marco encontros eventuais, mas estão presentes na minha vida.
Outro dia, eu estava pensando em uma amiga que não via há pelo menos oito anos. Edilene, de uma turma anterior a minha, que morava na mesma república que Mara, uma das pessoas mais engraçadas que já conheci. Mara e eu nos falamos por email, sempre marcamos um almoço em um japonês aqui de Campinas e continuamos colocando a fofoca e as risadas em dia.
A Edilene foi pra Itália, foi pra Fortaleza e eu a perdi de vista. Mas com uma googada, consegui achar a faculdade onde ela dá aulas e escrevi para ela.
Depois de todos esses anos - que descobrimos ser dez...- a amizade continua a mesma, o que me deixou muito feliz.
Rindo, lembramos que conheci meu ex marido, pai do Daniel, em um aniversário dela à fantasia, onde eu estava de dark, ela de cigana, Mara de freira..isso foi um passo para olharmos as fotografias e descobrirmos aqueles jovens fantasiados e felizes.
Como ela está morando em São Paulo, combinamos um almoço no sábado passado: foi ótimo. Ela convidou um casal extremamente simpático, a conversa fluiu tranquila e foi ótimo saborear aquele banquete à italiana.
Sua mãe estava lá e também pude conhecer seus dois filhos: um garotinho lindo e uma menininha fofa. O marido, um historiador italiano que veio pesquisar aqui, não estava no Brasil, mas vou revê-lo depois, com certeza.
Acho que a vida vai levando os amigos pra longe, ainda que morem na mesma cidade, são as pequenas coisas do cotidiano, a rotina do trabalho, tudo isso vai ocupando toda a nossa vida. E se não olharmos com um pouco mais de cuidado, pessoas importantes simplesmente viram fumaça.
Eu faço questão de manter as pessoas que gosto - e que valem a pena - dentro da minha vida, e a Di vale, como vale.

30 novembro 2008

Doa-se micro panterinhas negras


Queridos amigos e leitores, como eu já comentei aqui, tenho uma cadelinha vira-lata e três gatos pretos. Acontece que, antes de entrar na faca e ser castrada como a irmã, Tina Turner resolveu descobrir o mundo, os gatos e essas coisas todas.
O resultado foi uma ninhada de quatro lindos gatinhos pretos, umas panterinhas negras mesmo, mas que, infelizmente, não posso cuidar.
Preciso urgentemente doá-los, já estou recebendo multas - a síndica me esfaqueou com 250 reais de multa, sério - por conta dos gatinhos.
Preciso doá-los!!! Mas como o povo é estranho, o fato de serem gatos pretos parece atrapalhar.
Quem quiser um gatinho ou souber de alguém que queira, por favor, me escreva:vivien_morgato@yahoo.com.br.


brigadim.

29 novembro 2008

Multiculturalismo




Algumas pessoas já tinham me falado, mas quem insistiu foi a Frou, dizendo que o Bar do Estadão era um balaio de todos os gatos. Decidida a colocar minha dietinha tão linda de lado, fui com Daniel e dois amigos ali, no meio da madrugada.
O público é o mais eclético possível, jornalistas com cara cult ( às vezes real, às vezes fake...), gente com cara de louco, gays, pessoas com jeitão de artista, namoradas e namorados famintos, grupos barulhentos, tudo e mais um pouco, parecia uma grande tirinha do Angeli ao vivo.
Alguns batendo um rangão feroz às duas da manhã, enquanto outros encaravam um super sanduíche, indecente de tão bom.


28 novembro 2008

Devorando São Paulo


Continuando a sessão " correspondente glamourosa", como pilheriou um amigo, agora falo do restaurante no Bixiga. Claro que a gente teria que ir ali, seria um crime não ir jantar, pelo menos um dia, naquele bairro cheio de lugares charmosos.
Eu queria ir em um restaurante que conheci há algum tempo, quando fui com alguns amigos de uma escola que trabalhei: me lembrava que era nome de homem, Fernando, talvez. E toca a procurar o tal Fernando.
Mas ao passar pelo Roperto, me lembrei: é aqui!
O restaurante é pequeno, um tremendo clima mafioso te faz pensar que a qualquer momento gãngsters entrarão com metralhadoras, saídos de um filme noir.
O couvert é tradicional, mas caprichadíssimo, com tudo da melhor qualidade e um pão italiano de chorar de emoção. O cardápio é variado, bem servido e, naturalmente, muito, muito apetitoso.
Quem me apresentou, há alguns anos, foi um chefe super bom garfo, por isso, não me espantei em ver que a cantina já havia ganhado duas vezes como a melhor de São Paulo. Em lugar como São Paulo, onde se come maravilhosamente bem em qualquer esquina, esse prêmio é uma tremenda chancela de qualidade.
Para os mais afoitos pela modinha, há a clássica parte das fotos com globais, só pra você ficar feliz em usar o mesmo garfo que o Fagundes, essas coisas.
Crianças, adorei. Vocês já sacaram que larguei a dieta, mas foi um motivo justo, eu volto, juro que volto.
Ricardo disse que não dá pra esquecer o nome da cantina , é só lembrar...Roberto com gripe...Roperto!Ok, piadinhas infames, eu sei. Mas vocês perdoam a professora aqui, que acabou de lançar notas, corrigir provas e ainda tem uma bela e suculenta pilha pra corrigir, certo?
Fica a dica da Tia Vivien, quando em São Paulo, Roperto na cabeça.
E vocês acham que meus delírios gastronômicos acabaram por aí? Hummm....quem já foi no tradicional Bar do Estadão?
Como é? Conto tudo...no próximo post.

27 novembro 2008

Um basta para todos os imbecis


Todo blogueiro tem seu momento divã, certo? Taí, chegou o meu.
Hoje entrei aqui apenas pra dar um grito virtual...momento final de ano é um momento crucial para a tomata de decisões e uma delas, talvez uma nevrálgica, seja fazer um balanço de quem é possível levar ou não para o ano que vem. Quem segue com a gente e quem fica no ano que se encerra, junto com as coisas ruins, enterradinho no esterco.

Então é isso, eu levo:

1)Os alunos incríveis que conheci, esforçados e divertidos, turmas que nunca vou esquecer.
2)os blogs que decidi me tornar leitora compulsiva
3)os amigos que estão presentes há muito tempo e os amigos que revi e coloquei com carinhho, novamente, dentro da minha vida.
4)meus tios e primos, que pretendo ver com mais frequência.
5)os amigos que fiz no blog, blogueiros e não-blogueiros, que se tornaram parte da minha vida.
6)meu irmão Ricardo, que é arquiteto e lindo.

Quem eu deixo embaixo do esterco, longe de mim e pulando junto as pulgas...:

1) gente fofoqueira, intrigueira, que eu quero distância.
2) povo balzaquiano que se vê como adolescente e age de maneira patética.
3) alunos sacanas.
4) pessoas sem princípios, que perdem o amigo, mas não perdem a piada, geralmente tola.
5) gente fútil, cuja principal distraçao é falar sobre festas, modelos e outras coisas idiotas.
6) gente que bebe demais, vira o clássico bêbado chaaaato pra burro e faz da droga um ícone. Eca.

Juro que tentei ter paciência com o segundo grupo, tentei exercitar a alteridade.
Mas, gente, alegria não é histeria. As pessoas tomadas pela histeria, acreditando piamente que esse surto público possa ser traduzido como suposta alegria, são pessoas que estão ali, no limiar, no pré-surto. Saca o tipo que grita na rua e vai pra casa sozinho?
Eu juro que tentei relevar, não ser excludente.
Mas quer saber? Dane-se.
Cada um no seu quadrado.
E o meu quadrado é beeeem longe deles, me larga, me solta, me deixa.

26 novembro 2008

O Poder do Coletivo


Queridos amigos e leitores, pausa no nosso papo: fiquei aterrorizada com o que aconteceu em Santa Catarina, a situação das famílias é desesperadora, nem tenho palavras pra isso.
Vários lugares aqui em Campinas estão se organizando para arrecadar alimentos não-perecíveis, roupas, cobertores, objetos em geral, que possam facilitar um pouco esse momento, que possam ajudar a essas famílias a reconstruirem suas vidas.
Eu e alguns professores estamos fazendo o mesmo.
Lembrando que já passam de 50 MIL desabrigados e mais de 60 mortos.
Gostaria de pedir que, quem quiser e puder, faça o mesmo: se organize no seu local de trabalho, sua escola, seu bairro, sua igreja.
Eu sempre acreditei no poder do Coletivo, espero que vocês também.
Um grande beijo pra todos.

23 novembro 2008

Me apaixonando por São Paulo - II - A Pinacoteca






No mesmo dia do post anterior, como eu já havia comentado, almocamos e fomos até a Pinacoteca, que fica na frente do Museu de Lingua Portuguesa.
A coisa já fica bacana no ingresso, no fato de entrar em um prédio criado por Ramos de Azevedo e (re)criado em uma intervencão, por Paulo Mendes da Rocha.
O acervo é incrível, gosto em especial da producão do século XIX, mas Daniel preferiu as obras mais arrojadas como de Maria Bonomi, que estavam em um espaco considerável por ali.
Havia também uma exposicão especial sobre Visconti e ainda ficamos lá curtindo algumas coisas do acervo.
Daniel me sugeriu outra forma de observacão, ao invés da leitura anterior a obra, conmo costumo fazer, sugeriu que prinmeiro tivéssemos esse contato direto com a obra, e só depois, o contato com a informacão sobre ela. Como achei que essa forma vai ao encontro do flâneur que eu pretendia ser por essas paragens, aceitei. E acho que realmente é melhor assim, sem informacão sobre a obra, o olhar busca comunicacão direta com ela, interpretacão direta com ela. Se isso condiz ou não com a proposta do autor, vemos depois, e mesmo que seja diferente, foi uma forma de recriar a obra, e isso é muito legal.
Depois de um bom tempo por lá fomos ao café da Pinacoteca que se abre para o Jardim Da Luz, lindíssimo.
Sempre que o vejo me lembro de um artigo, em um jornal anarquista do princípio do século, que descrevia um piquenique de burgueses, enquanto proletários enfiavam os rostos das grades, atrás dos portões fechados do Jardim. Triste e ridículo.
Depois disso, saimos pra jantar, e conto tudo no próximo post.



21 novembro 2008

Me apaixonando por São Paulo - I





Estou aqui na cidade da garoa. Cheguei ontem, e fui com Daniel, meu irmão ( que me hospedou) e alguns amigos dele comer pizza. Eu também sei que você está pensando que estou sendo óbvia, porque pizza em São Paulo é deliciosamente óbvio. Porque ela é sempre boa, sempre gostosa e eu sempre vou comer. Depois disso, meu irmão Ricardo, que é arquiteto e lindo - como quase todos os arquitetos - me levou pra um lugar cheio de frescuras, o Octávio. Lindo, lindo, maravilhosamente lindo. Uma decoracão que prima por um design arrojado e fresco, muito fresco. E aquela coisa de café que se toma aos gemidinhos. O problema é que eu adoro lugar fresco, mas detesto quem frequenta. São as idiossincrasias nossas de todo o dia, me perdoem.
Daniel e eu decidimos ir flanar hoje, falei um pouco pra ele sobre Benjamin e essa questão de descobrir a cidade com o primeiro olhar, de se perder na cidade. Ficamos assim, flanando aqui pela Bela Vista, linda, nostálgica, andando pela Ipiranga, claro, claro até a São João, e simplesmente reparando em tudo, nos prédios, nas pessoas, tudo. E tudo isso com aquele papo cabeca de professora-e-filho-de-professora.
Decidimos ir novamente no Museu Da língua Portuguesa: agora, substituindo a exposicão sobre Guimarães Rosa, está acontendo uma maravilhosa, sobre o Bruxo do Cosme Velho.
A exposicão anterior era realmente inusitada, instigante, mas só poderia ser assim: idealizada pela Bia Lessa, o que mais seria? Eu conheci a Bia Lessa em uma peca que ela trouxe pra Campinas, e quando ela iria dar um curso de teatro e não deu. Mas conto isso depois. Vamos voltar ao Museu.
Gente, é um verdadeiro presente pra qualquer um que goste de Machado de Assis: uma exposicão rica, criativa, dinâmica. Sö senti falta de ler algo do Sidney Chalhoub, que fez um trabalho fantástico sobre Machado e não aparece entre os outros intelectuais que discutiram a obra deste autor. Senti essa lacuna.
Aconselho a todos que forem nesse Museu, que não percam, de forma nenhuma, o vïdeo apresentado. Depois de rápidos dez minutos de um vídeo absolutamente bem encadeado, a parede se move e somos convidados a passar para um outro espaco, onde praticamente entramos em uma instalacão artística, porque o restante da apresentacão é feita ali, de maneira muito sensorial....o público ouve leituras de trechos de poesias, escuta trechos de músicas, enquanto imagens e palavras são projetadas em várias direcões. Gente, é sério, foi uma sacada. Você vê o público deslumbrado. Porque o público é tragado por essa trip multidimiática e é tudo irresistível.
O restante do Museu é altamente dinâmico e interativo, com espaco para a história da língua, vídeos enormes em lugares inusitados e a lúdica atividade do "Beco das palavras", onde todo mundo brinca coletivamente, juntando palavras que sáo projetadas sobre uma espécie de mesa e, quando unidas, são explicadas com clareza e , muitas vezes, com bom humor.
O Museu da Lingua Portuguesa funciona na Estacão da Luz, cujo projeto foi executado com material inglês, do cimento aos tijolos vermelhos. O resultado é deslumbrante.
Criancas, eu recomendo.
Depois de horas ali dentro, me divertindo muito, fui com Daniel até a Pinacoteca, que fica em frente.
Mas isso é assunto do próximo post.
Essa cidade é uma delícia.




19 novembro 2008

O insólito


















O insólito é me ver em "balada". Tenho aflição até dessa expressão....que diabos significa "balada"? Tenho aflição de quem fala assim.
Pior do que falar "balada" é falar "bárbaro". Se alguém me diz que um filme é "bárbaro", não só implico com o filme, como implico com a pessoa.
Meus programas são ligths: gosto de cinema, uma peça bacana (raridade aqui em Campinas), um bar, um café, um restaurante. Gosto de ir na casa de amigos, gosto de receber, gosto de conversar. Não é que não goste de dançar, eu gosto, adoro a ginga de uma black music - como toca divinamente no Barril da Máfia - mas odeio, com todas as forças do meu ser, uma coisa chamada "música eletrônica".
Fui em uma casa nova aqui da cidade, uma boate que não vou dizer o nome, pra evitar problemas. Fui porque era aniversário da "Samantha",uma amiga queridíssima.
Comecei a noite NÃO achando a casa. Eu rodei, xinguei, esbravejei, desci do carro com um salto indecente e perguntei em um botequim escroto onde era a tal boate. O balconista explicou com toda gentileza e lá fui eu. Achei o troço.
Vou mandar guardar o carro e a mocinha me sai com essa:
- doze reais,senhora.
- por quê? vocês lavam também
?
Ela deu um sorridinho amarelo e mau, com certeza pensando palavrões contra a pobre ali(eu) ainda por cima fazia piadinhas de pobre (ainda eu).
Então, vejamos..ah , teve a fila. Pessoas, eu não entro em fila. Se o lugar tem fila, vou em outro. Só pego fila pra cinema e olhe lá. Fila pra restaurante ou qualquer outra coisa me parece absurdo, eu simplesmente opto por outro. Mas ali eu tinha que ficar, minha amiga merecia que eu a pretigiasse, nem que pra isso eu tivesse que ficar em uma fila idiota. Ficamos em uma fila absurda, porque estava cedo e com certeza havia espaço lá dentro. O que constatei depois. A fila estava lenta, comecei a insuflar as pessoas, houve um certo mal estar entre os outros reféns da fila, todo mundo percebeu que a porcaria da fila não tinha razão de ser. Inexplicavelmente, depois do certo zumzumzum que provocamos, fomos convidados a entrar na tal boate.
A decoração da casa é linda, descolada, incrível. Mas a despeito dessa beleza toda, o tormento ainda não havia acabado.
Na entrada, os homens são revistados e as mulheres tem que abrir a bolsa. Olha, pode ser praxe (eu não frequento, tô por fora mesmo), pode ser por segurança, mas é uma merda. Eu abri a bolsa, não disse nada, mas quase lati para a moça.
Aí, então, houve o golpe fatal. Ao invés de rock e outras coisas que "Samantha" disse que tocaria, o dj tocava umas coisas que eu descobri ser "tecno house". Seja lá o que isso for.
Cara, como eu saberia que havia distinção entre os tun tun tun, se nem consigo identificar quando uma música acaba?
Fiquei uma hora e meia, contados no relógio. "Charlotte" e eu demos uma scaneada nos homens em geral, falamos muita bosta. Os únicos pegáveis eram galinhas e homem galinha não serve pra nada. Ao final de cada "observação", a pergunta dela:
- não vai colocar no blog, né?
- claro que vou....hheheh
- o problema todo é que mudaram as regras e eu fiquei pra trás.
...- diz "Charlotte", magra e elegrante como sempre.
- eu bóio também,não existe mais cantada? Eles NUNCA mais vão mexer o traseiro e tomar a iniciativa?

( continua)


******* post publicado originalmente em dezembro de 2007.
A propósito das conversas que andei tendo com algumas amigas, vale republicar.

16 novembro 2008

O olhar






















Já falei com vocês como o passado pode adulterar o olhar sobre uma pessoa, sobre uma história.O passado muda mesmo, por isso, "resgatar" o passado não é trabalho de historiador: o caso é rever, reinterpretar, essas paradas todas, sabendo que seu ponto de vista, seu instrumental, sua metodologia, sua teoria...tudo vai influenciar no seu olhar. Não dá pra imaginar a possibilidade de se atingir a "verdade", mesmo porque, esse conceito eu não uso, acho que quase nenhum historiador usa mais, pelo menos não de forma irredutível.
Mas eu fiquei pensando no Olhar, na forma de ver, na forma de sentir o mundo.
Eu tenho essa gravura, de Klee, na minha sada. Na sala da casa mais linda do mundo, dentro da casa mais linda do mundo.
Fica ao lado de outra gravura, do Miró, saborosa, colorida, solar. Perto dela esse Klee fica ainda mais triste. E foi por isso que coloquei os dois juntos, pra todo mundo ver como é ser geminiana, como é ser esse duplo constante.
Muitas vezes coloco pinturas aqui imaginando que a relação dela com o texto é mais do que uma mera ilustração de uma idéia, é um diálogo com a ídéia, um casamento.
E hoje, tem esse olhar de Klee pra vocês todos.
Beijos e boa segunda feira.
Hum, que delícia....

01 novembro 2008

Uma perua incomoda muita gente






Já comentei por aqui que eu não fui uma garota vaidosa. Pelo contrário, não fazia as unhas, usava tênis furado, jeans e camiseta. Achava sinceramente que toda e qualquer vaidade era prova de burrice. Obviamente, burrice era ter um pensamento tão estereotipado, e imaginar que usar bontons e camisetas iriam comprovar intelectualidade. Então o caso é que faz tempo que passei dessa fase. Agora, mais velha e cada vez mais avessa aos estereótipos e padrões de comportamento, me assumo como a mais completa perua. E isso já faz tempo, desde a entrada na balzaquice. Virar balzaquiana foi uma experiência onírica.
Fazer 30 anos foi muito simbólico pra mim: chegar a maturidade me deu a possibilidade de pintar as unhas de vermelho e achar maravilhoso, usar salto diariamente e me sentir ótima, fazer escova, chapinha e todas essas paradas que deixam o cabelo lindo, liso e flutuante na cabeça ( eu sei que sou colonizada, eu sei, eu sei, mas renego o cabelo crespo, dá licença! acho lindo nos outros, mas prefito o meu liso, liso totalmente, pela força de um secador nervoso )
Enfim, o que me deixa intrigada é como isso pode incomodar. Claro que existem pessoas que curtem, existem pessoas que nem notam, nem ligam, estão totalmente na delas...e existem as pessoas que se incomodam. Pessoas que se incomodam com a vaidade alheia.
Comentam a roupa, comentam o cabelo, ironizam aqui e ali, parecem mais preocupadas com a cor dos meus tamancos do que eu mesma. Cara, um pé no saco. Eu particularmente não sou adepta das ironias, portanto, me faço de idiota e continuo conversando, mas me sinto incomodada. Porque a ironia sistemática é sempre uma forma de bullying e isso é sempre uma forma de violência.
Outro dia, conversando com uma conhecida, vi que ela insistia em um gesto onde levantava os braços e deixava à mostra - olha, que rebeldezinha, gente, uma coisinha linda - as axilas não depiladas. Isso mesmo, as axilas nunca, nunca depiladas, um pesadelo. E esse gesto no maior estilo "isso é ser feminista, nega".
Não, gente, isso é ser porca, só isso.
Não consigo fazer um link real e significativo entre intelectualidade e /ou movimento feminista e axila com pelos. Ai, que nojo.
Pois é, crianças, "de modos que " eu tenho que aturar algumas ironias desse povo que precisa usar uniformezinho "olha como sou inteligente, tio". Eu tô fora.
Simplesmente me nego a pertencer a um grupo amarrado a um padrão, não sou um número, sou uma pessoa com todas as qualidades e defeitos, com todas as idiossincrasias inerentes a um indivíduo que se percebe como sujeito. E me recuso a permitir que me definam, me rotulem ou que me mudem.
Eles que vão procurar um divã.

26 outubro 2008

As coisas bobas que eu faço




Eu nunca resisto: sempre, sempre faço testes. Qual animal eu seria, ou qual mangá, ou personagem de Star Trek. Nunca resisto. Porque eu acho um barato saber que eu "sou" a Princesa Léia ou a Tempestade. Eu sei que é idiota, vocês não precisam me avisar. Mas eu vou continuar fazendo todos esses testes.
Então, no calor do momento, essa sou eu em Sex and the City.
Aliás, é a segunda vez que tenho esse resultado. Depois comento minha relação de amor e ódio do seriado, por hora, eu sou a Miranda.





"Você é cerebral como Miranda
Dotada de mente lógica, ela é a menos sonhadora, a mais realista e a mais prática do grupo. Mulheres cerebrais, como Miranda, são céticas: só acreditam no que a razão lhes mostra. Geralmente, dão mais valor à carreira que ao casamento. Não romantizam a relação, como as idealistas, nem variam de parceiro como as hedonistas. E também não sonham com casamento, como as guardiãs. A questão de gênero faz pouca diferença quando se trata de cerebrais, ou seja, elas são bem parecidas com eles."

23 outubro 2008

Queridos tios, queridas tias







Na segunda feira dessa semana, minha tia Sueli faleceu. Minha tia já havia casado com meu tio Antonio Carlos antes do meu nascimento, assim, para mim, ela sempre esteve na mimnha família, ela sempre esteve por aqui.
Tia Sueli era o avesso da vovozinha convencional : ela era muito engraçada, falavra milhões de palavrões, brincava com todo mundo. E era, sem dúvida, uma eterna apaixonada pelo marido, que aliás, ela chamava assim mesmo, de "Marido". A ponto do Daniel, quando pequeno, achar que o nome dele era "tio Marido".
Me lembro dela olhar para meu tio e dizer pra mim, sorrindo e brincando:
- Olha o meu marido, ele não está bonito?
Os dois ficaram juntos durante 45 anos, entre namoro e casamento. Juntos mesmo, com uma cumplicidade rara, única e feliz.
Na madrugada de segunda feira, estávamos lá com eles, dando o apoio que conseguíamos para ele, para minhas primas, para todos. Eu não saberia descrever a dor dele e o vi chorar pela primeira vez na minha vida. Me senti tão impotente, diante dos dois, que gosto tanto, que foram meus padrinhos de casamento, que sempre estiveram perto de nós.
Eu nem tinha como chegar lá, estava à pé e liguei pra Frou. Como amizade de verdade não tem hora, minha amiga me levou até o velóro às duas da manhã, sem pestanejar.
Valeu, Frou.
Com todos lá, calados e acabrunhados, vi meu tio ao celular.
- Os "meninos" estão chegando.
"Os Meninos" são os irmãos dele e de minha mãe, que ao todo formam oito : sete "meninos" e uma "menina".
E realmente, eles vieram do Rio, em cinco horas, enfiando o pé no acelerador.
Difícil descrever para vocês o que senti quando meus tios sairam do carro. Eram meus tios, duas primas, duas tias ( uma tão jovem que chamamos de "tiazinha"). Eram "os meninos".
A sensação de proteção foi imediata, foi como se uma força sobre humana tivesse chegado e tudo iria dar certo.
Eles e minha mãe ficaram ao lado do meu tIo Antonio Carlos todo o tempo, literalmente. Simplesmente o seguiram para todo o lado, como se pudessem carregar um pedaço do seu fardo, tornando-o mais leve. Como se pudessem dividir sua dor, para que não fosse tão grande.
Não consigo descrever em palavras o que houve, mas foi uma prova de amor fraterno muito intensa e muito linda.
Meu tio falava sobre as pequenas coisas, as coisas ínfimas que deixamos que abalem as relações, as besteiras pelo que discutimos, como tudo isso é pequeno, como ele se arrpendia de não ter dito mais vezes que a amava. Eu acho que ele disse, de deiversas formas, mil vezes que a amava: ao ser atencioso ao extremo, ao fazer suas vontades, ao ser companheiro, ao estar presente, ao amar de verdade.
Perder a minha tia me fez olhar pras pessoas com outra perspectiva, me fez ver como preciso aproveitar o tempo que estamos juntos.
Tenho certeza que tia Sueli está em paz, está em um lugar melhor, divertindo os anjos com suas histórias, seu jeito e seus c**** inevitáveis e deliciosamente peculiares. Só quero que meu querido tio, minhas primas, todos eles, encontrem tranquilidade apesar da saudade.


19 outubro 2008

Renildes, a Estranha












Eu já falei várias vezes sobre minha cadelinha vira-latas, a Renildes. O nome Daniel tirou de uma piada, eu detestei de cara, mas ela tem tanto jeito de Renildes que pegou.
Meu amigo Valter escreveu o texto anterior a esse,baseado nela. Mas vamos falar sobre as peculiaridades de Nildes.
Nildes me ama, escuta o barulho do carro e uiva, pula no meu colo, vê tv comigo, deitada, me olhando com os olhos compridos. Cara, eu jurava que a Nildes tinha cílios.. e balançava os cílios femininamente, mas acho que isso é resultado de anos de desenho animado. Ela não tem, mas eu vejo, sacumé?
Renildes é alegrinha e adora os gatos de casa. Esqueceu sua grande paixão por Malcolm X, meu gato preto maravilhoso. Hoje meio que convive com ele amistosamente. Foi um bom divórcio.
Mas o fato é que Nildes destruiu coisas lá em casa, mas são coisas específicas: meus queridos e variados tamancos (destruiu TODOS) e parte dos meus livros.
Ela come os livros. Mas veja,não é uma cadela qualquer, come clássicos, come Shakespeare, come literatura. Chiquérrima. Vocês podem achar que é coisa de blogueira, mas gente, a cachorra foi sorrateiramente no meu quarto, e ESCOLHEU os livros de cabeceira. Estou falando sério: ignorou Vovelle, ignorou Ariés, ou seja, ela não quer saber de História. Pegou um Allan Poe de jeito e não sobrou nada. Acho que ela está em uma fase lúgubre e preferiu o "corvo". Mas já foram vários.
Minha linda e vira-latíssima Renildes é, literalmente, uma devoradora de livros.


**** Post originalmente publicado em janeiro deste ano. Como a Nildes acabou com mais um livro...decidi republicar.

12 outubro 2008

O livro da Paula







A Paula Lee fez a gentileza de me mandar seu livro através do Branco Leone.
Li em dois dias mais ou menos, o livro é ágil, claro, objetivo e interessante. Narra a trajetória de Paula ainda no Brasil e seu ingresso na prostituição, já em Portugal. Baseado em duas frentes de flash back diferentes, a narrativa tem um tom cinematográfico, onde o leitor pode acompanhar concomitantemente a vida de Paula no Brasil e sua chegada em Portugal, sem uma linearidade simples, abusando da ação, das cores e da vivacidade da história.
Durante a leitura, me lembrei muito de dois livros: A Romana, de Alberto Moravia, onde o escritor italiano retrata o ingresso de uma linda jovem na prostituição e seu olhar modificado sobre a vida e sobre as pessoas e Os prazeres da noite, prostituição e códigos da sexualidade feminina em São Paulo (1890-1930), da historiadora Margareth Rago, que resgata as relações sociais existentes nos bordéis brasileiros.
A pesquisa de Margareth, cuja defesa de tese tive a alegria de assistir, aponta para o caráter cultural e social que havia na relação entre as "francesinhas" e os ricos coronéis brasileiros, sedentos de compania e conversa, além dos serviços habituais das cortesãs.
O livro de Paula Lee mostra várias facetas masculinas, pessoas gentis, pessoas deprimentes, pessoas alegres, pessoas agressivas. A relação da autora com os homens que passaram a ser personagens é descrita de forma tão natural que é impossível continuar com a mesma visão sobre as meninas de "vida fácil"(!), seu texto límpido, inteligente, articulado, descarta qualquer papel de vítima, ainda que a pobreza tenha sido árdua no seu caminho.
Paula não se define por seu sofrimento, tampouco se define por sua sedução, para além disso, o texto apresenta uma jovem franca e firme, que vê o mundo de forma sagaz e contundente.
Paula preserva a privacidade de seus clientes, não mencionando nomes, mas substituindo por apelidos divertidos como o Maracujá Fardado e outros, que vocês vão conhecer lendo o livro.
O interessante também é bater de frente com nossos preconceitos e o texto da Paula faz isso de forma brilhante.
Quer um bom programa? Leia a Paula Lee.

04 outubro 2008

Sob os olhos de Fernando







Fernando Meirelles acertou em cheio. Ensaio Sobre a Cegueira teve a adaptação que merece, nas mãos desse diretor. O filme com cores apagadas, mortas, foi uma alegria para mim. Muitas vezes aqui, comentei sobre as violências cometidas contra algumas obras, em adaptações tacanhas, obtusas e - em grande parte das vezes - tão distante da obra original que dizer que era "baseado na obra de.." praticamente ofendia.
Não é o caso desse filme. No texto de Saramago, pessoas são acometidas por uma cegueira branca e inesperada, que acaba se alastrando como uma furiosa epidemia. As pessoas contaminadas são colocadas em reclusão, debaixo de regras espartanas e abandonadas à sua própria sorte.
O caos criado beira a loucura. Não é à toa que o autor escolheu um manicômio abandonado para servir de prisão momentãnea para os contaminados.
A nossa cegueira cotidiana em relação a vida, em relação tanto aos minúsculos prazeres quanto aos problemas mais gritantes, fica explícito. Somos cegos, enfim.
Na reclusão, alguns laços de solidariedade são criados e se mantém fortes, entretanto, dentro do caos surgem também os déspotas, como ficou claro com o outro grupo de cego, opressor, violento.
No texto de Saramago, ainda me pareciam mais aterrorizantes, arrastando as barras de ferro no chão.
Li no blog sobre o filme que a cena do estupro coletivo foi mal recebida por grupos de mulheres. A cena é horrível, é suja, é amedrontadora. Por isso é crucial para o filme.
Julianne Moore está perfeita, sendo a Mulher do Médico, uma personagem de uma grandeza ímpar. Rúfalo está aquele fofo de sempre. Os outros estão pefeitos, gostei do toque fashion de se colocar o Primeiro Cego e sua mulher como japoneses.
A apresentação sem nomes, como A Moça dos Óculos Escuros ou os outros, ficou um pouco vaga: pareciam que se apresentavam mencionando as profissões. Em minha leitura, mais do que localizar sua profissão, penso que o autor apresenta personagens que se definem pelo que fazem, se localizam enquanto indivíduo dentro do seu espaço no capitalismo.
Como se o indivíduo fosse, enfim, reduzido e definido pelo que ele faz.
Mas não imagino como transportar isso da literatura para outra linguagem. Assim como o Cão das Lágrimas, comovente no livro, superficial no filme.
De qualquer forma, ainda que algumas sutilezas sejam praticamente intraduzíveis, achei um belíssimo trabalho. Com algumas cenas particularmente bonitas, como o grupo de mulheres limpando o corpo na mulher morta pela violência dos cegos que formaram uma gangue, com aquela solidariedade feminina que é tão impressionante quanto nobre.
E o fim do filme, onde a Cegueira, em todos os seus aspectos, parece ter sido vencida.
Isso fica claro no livro posterior, Ensaio Sobre a Lucidez. Mas isso é conversa pra outro post.

01 outubro 2008

O nosso amor


Romantismo é bom. Mas bom humor é melhor.
(E ainda bem que existe o humor e a possibilidade de rir de si mesmo e do outro)

Para meu último amor, com muito carinho.








****** post originalmente publicado em março de 2007.
Hoje, conversando com um amigo sobre os amores que vão e vem, me lembrei dessa música divertidíssima da Tati.
Clique no link e ria comigo.

12 setembro 2008

A plebe rude






Não é difícil dizer porque me fascinei tão rapidamente pelo movimento Anarquista.
Porque esses militantes, ainda no início do século passado, já compreendiam as mulheres como cidadãs, como pessoas que podiam estudar e produzir.
Havia espaço pra intelectuais como Berta Luz ou Maria Lacerda de Moura ( essa última, escrevendo livros com títulos como "Amai-vos e não vos multipliqueis" ou "Fascismo – filho dileto da Igreja e do Capital ") usando pedagogia Ferrer e se destacando como professora e anarquista.
O incrível nesses caras é que dentro de uma estrutura escolar violenta, autoritária, dogmática e cerceadora, eles criaram escolas mistas, onde os alunos podiam frequentar laboratórios, debater e - maravilha das maravilhas - eliminaram as avaliações com notas.
As avaliações deveriam servir para que o aluno percebesse suas falhas, seus limites, não para que fossem excluídos e/ou que houvesse uma competição feroz, ou pior ainda, que fossem vítimas de vinganças de professores hostis.
Claro que agora, com todos os alunos enlatados na concepção de que é necessário haver nota, fica difícil nadar contra a maré. Estudar sem esse tipo de avaliação requer uma autonomia, uma independência que os alunos poucas vezes são estimulados a ter.
Meu primo, professor da faculdade de medicina em uma univerdidade federal concorridíssima, diz que tem ímpetos de matar a criatura, quando um aluno pergunta:
" isso cai na prova?"
Preferia queimar todas as provas, buscando um aluno que estudasse por outros motivos, como queriam meus anarquistas.
Há alguns anos, pensei em escrever um trabalho comparando a concepção de imprensa que eles tinham, com a veiculada na chamada imprensa burguesa. Porque os libertários tinham a certeza de que a imprensa era um meio de divulgação de idéias, que era uma ferramenta. Nunca tentaram entrar no teatrinho da "imparcialidade".
Não escrevi esse trabalho, mas participei de duas pesquisas que incluiam os ácratas e isso me deu a oportunidade de ficar horas no Arquivo Edgard Leuenroth, lendo sofregamente jornais como A Plebe, O amigo do Povo, A Batalha, entre tantos outros.
Melhor do que isso, impossível.
Bom, há algo melhor sim. melhor seria se essa perspectiva anarquista, esse estímulo a autonomia, a cooperação, a ação do coletivo, fosse desenvolvida por todos. Mas eu confesso que já não espero mais isso.

09 setembro 2008

Anos Dourados

















Anos dourados
Chico Buarque
Composição: Tom Jobim/Chico Buarque

Parece que dizes
Te amo, Maria
Na fotografia
Estamos felizes
Te ligo afobada
E deixo confissões
No gravador
Vai ser engraçado
Se tens um novo amor
Me vejo a teu lado
Te amo?
Não lembro
Parece dezembro
De um ano dourado
Parece bolero
Te quero, te quero
Dizer que não quero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais

Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
Te ligo ofegante
E digo confusões no gravador
E desconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos, dezembros
Mas quando me lembro
São anos dourados
Ainda te quero
Bolero, nossos versos são banais
Mas como eu espero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais



06 setembro 2008

Ser ou não ser? Eis a questão.
















Batman é um filme tremendo. Se você ainda não assistiu, vá correndo ao cinema mais próximo, porque está perdendo um filme incrível.
Eu tentei não ler nada sobre ele, porque não queria nenhum spoiler estragando minha leitura do filme, mas a trágica morte de Heath Ledger acabou me fazendo ler sobre ele e sua atuação. Então, o que vou dizer não me surpreendeu e nem vai surpreender vocês: Ledger está absolutamente impressionante como Coringa. Aterrorizante, irônico, "senhor do caos" como ele mesmo se apresenta, um legítimo morador do Arkan.
E é exatamente isso que me seduz como leitora, a loucura presente nos inimigos do Cavaleiro das Trevas, loucura essa que os faz ser encerrados no Asilo Arkan, e não presos, porque mais do que meros ladrões, eles são psicóticos.
Talvez tanto quando o próprio Batman, na dualidade tão bem comentada pelo Rafael: Batman como um duplo em relação ao Coringa, ambos sendo lados equivalentes de uma mesma moeda.
Essa dualidade parece ser expressa novamente em Duas Caras, a maior expressão do maniqueísmo em termos de HQ, em minha opinião.
A transformação de Bruce em Batman, a forma como ele se refere ao Morcego, como Outro, como Entidade, é incrivelmente interessante. A mudança da voz - que fica roucamente sexy - é um dos passos da caracterização que me lembra o método stanislavski. Nesse caso, Bruce Wayne, o "ator" se apropria de um personagem "Batman", e se envolve com ele, em um mergulho frenético. Uma vez dentro desse personagem, tomado por ele, paulatinamente se torna o próprio morcego e Bruce Wayne se torna cada vez mais o "personagem": o mauricinho babaca e mulherengo.
Então...quem seria real? Batman ou Bruce?

11 agosto 2008

Volto já





Queridos leitores e amigos, vou dar uma saidinha daqui, mas volto em breve.
Não se trata de nenhuma crise com a blogosfera, continuo adorando postar, mas tenho que colocar uns projetos em ordem.
Beijocas e todos.

04 agosto 2008

Deus é poliglota







Já comentei aqui com vocês que sempre tive uma relação tranquila com minha fé, nunca entrei em elocubrações teóricas, nunca filosofei, nunca questionei. Por um simples e prosaico motivo: eu gosto de ter fé. Ponto.
Confesso que também tenho pouquíssima paciência com quem acaba por questionar, porque vamos e venhamos, quem leu um ou dois livros de Nietzsche, umas beiradas de Marx e vem pagar de intelectual, hum, não, não, nem escuto. Meneio a cabeça com um sorriso paralizado, pensando como posso correr dali.
Claro que inúmeras pessoas questionam, de forma sistemática e profunda, a existência de Deus. O bacana é que, em minha experiência, quanto mais intelectualizado, mais tolerante é o indivíduo e menos propenso a vomitar regras e dogmas.
E eu continuo com minha prática: topo discutir religião, claro, que é a relação humana com qualquer concepção de divindade, mas não topo discutir a existência de uma divindade.
Porque acho idiota, gente. Acho totalmente impossível de provar cientificamente.
Impossível, totalmente impossível.
E tô pouco me lixando, porque de positivista, não tenho nada, nada mesmo.
Afinal, ainda que a importância da Ciência seja inquestionável, atribuir a ela um suposto poder absoluto é um tremendo equívoco. Afimar, meramente, que algo é ou não "científico" não termina uma discussão.
Porque as teorias de Lombroso eram aceitas como científicas e inquestionáveis, teorias racistas que chegaram a subsidiar o nazismo, por exemplo. As estratégias de normatização social que procuravam exterminar com toda "degenerescência"- nem que para isso, os asilos ficassem abarrotados de pessoas que fugiam aos padrões sociais vingentes - tudo isso era assinalado como científico. Atitudes autoritárias com essas e outras, provocaram rebeliões populares como a Revolta da Vacina.
O fato é que o autoritarismo que reside em berrar verdades absolutas é tão tacanho em um cientista quanto em um religioso.
Nós da História já abandonamos o conceito de verdade absoluta há tempos, se alguém quiser ficar com ele, beleza.
Desde o ano passado, estou indo em uma igreja Presbiteriana. Gente, adoro. Fui com uma amiga da Unicamp e foi amor à primeira vista. Gostei da comunidade, gostei da profundidade das reflexões do pastor, gostei da tolerância.
Apesar de, enquanto professora, saber da tradição cultural dos protestantes históricos, a imagem dos pentecostais estava muito forte em minha mente.
O que é um grave erro conceitual, certo? Confundir os Históricos com os Pentecostais, enfiar tudo na mesma gamela.
Mas a imagem dos pentecostais está impressa na mídia, com o eterno trinômio: terno barato + leitura canhestra da Bíblia + voz rouca aos berros.
Nessa igreja que frequento, presbiteriana, fui conhecer pastores cultos, que foram professores, conversando sobre seu doutorado e utilizando a literatura como interface nas pregações.
E, é claro, a tolerância.
Vocês sabem, tolerância, relativização dos conceitos, isso é condição sine qua non para que eu efetivamente participe de algo.
A despeito de um querido amigo blogueiro que tirou um sarro camarada dessa minha nova tendência, acho que realmente achei um canto pra mim.
Agradeço a outro amigo, o Bruno, por ter me levado em uma maneiríssima festa de candomblé, agradeço a Cláudia por me explicar as minúcias do catolicismo, aos amigos de outras orientações, aos amigos budistas, aos espíritas e é claro, as amigas bruxas, né, Tati?
Todo mundo me explicou um pouco, me ensinou um pouco e eu gostei de todos.
Um amigo me contou que João XXIII disse, em relação a multiplicidade de religiões:
" o que nos une é maior do que o que nos separa." Escolhi outro caminho não por ser o melhor, muito menos o único. Escolhi porque foi a língua que preferi falar.
Mas tenho certeza que seria feliz em qualquer outra, porque estou convencida de que Deus é poliglota.

01 agosto 2008

O Tempo não pára



Assisti "Cazuza" ontem. Já tinha visto no cinema, já tinha gostado e já tinha me desmilinguido de chorar.

(Não sou crítica de cinema, não tenho nem saco pra papos muito profundos, quando a pessoa começa a falar sobre a fotografia,

hummmm...durmo. Confesso: se a pessoa diz que o filme é "bárbaro" , eu tendo a não assistir, porque quem fala "bárrrrbaro" é sempre chato pra burro. E se gostar de Tarkowiski então.....zzzzzzzzzzzzzzz.................................)

Voltando ao filme: vou pelo óbvio, o Cazuza baixou no Daniel de Oliveira, só tem essa explicação. O garoto estava incorporado, a expressão, o tom de voz , o gestual, Cazuza, Cazuza puro.

Eu ainda acho que o Cazuza era um filhinho de papai chato pra diabo, mas gente, um artista com poucos. Gosto incrivelmente de praticamente tudo que ele escreveu e/ou cantou, me toca horrores. Já postei Exagerado outro dia, provavelmente eu coloque outras ainda, porque todo mundo merece Cazuza.

A angústia do tempo passado e perdido, o medo constante e irremediável da morte estão presentes de forma tão intensa no filme, que dói. Com isso, não posso e nem consigo negar, me identifico muito. Uma amiga uma vez me disse que tenho pressa de viver, acho que tenho mesmo. Acho que esse medo impulsiona essa pressa exagerada.


O Tempo Não Pára

Composição: Cazuza / Arnaldo Brandão


Disparo contra o sol

Sou forte, sou por acaso

Minha metralhadora cheia de mágoas

Eu sou um cara

Cansado de correr

Na direção contrária

Sem pódio de chegada ou beijo de namorada

Eu sou mais um cara

Mas se você achar

Que eu tô derrotado

Saiba que ainda estão rolando os dados

Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não

Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas idéias não correspondem aos fatos

O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não pára

Não pára, não, não pára

Eu não tenho data pra comemorar

Às vezes os meus dias são de par em par

Procurando uma agulha num palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer

Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer

E assim nos tornamos brasileiros

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro

Transformam o país inteiro num puteiro

Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas idéias não correspondem aos fatos

O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não pára

Não pára, não, não pára

Dias sim, dias não

Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas idéias não correspondem aos fatos

O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não pára

Não pára, não, não pára







Post publicado originalmente em novembro de 2006.

29 julho 2008

Na terça

Hoje me lembrei dessa música. Houve um ano em que a ouvi todos os dias, buscando algo que eu acredita não ter.
Tola, tola.



28 julho 2008

24 julho 2008

"Baseado na obra de..."








Eu entendo que as versões cinematográficas devam ser o que se denominam: versões.
Ok. O que me incomoda - e incomoda muito - é ver como se destrói o sistema nervoso central de uma trama, como se joga fora todas as características principais de uma personagem para transforma-la em outra coisa, não raro, diametralmente oposta a criada pelo autor.
Pô, se é para criar outra personagem, não coloca a porcaria do "baseado na obra de...", troque isso por "detonando totalmente a obra de..."
Foi isso que vi outro dia na tv: na tentativa de filmar Moll Flanders, o diretor - sei lá quem é, nem procurei de tão irritada - praticamente queimou em uma fogueira o interessante romance de Daniel Defoe.
Em comum com o livro apenas o nome - que a personagem assume em um momento de sua vida, usando algumas vezes - e a ida para a Virgínia. O resto pode apagar.
Ela prostituta, bêbada ou casando sem interesse com um nobre, por amor? Apaga, filho.
Moll casou cinco vezes, teve vários amantes, foi ladra por 12 anos, teve levas de filhos que abandonou como ninhada de gatos. Tudo isso no iníco do século XVIII.
A Moll do filme faz das tripas coração para reencontrar a única filha, que perdeu por acidente, e quem ama com loucura.
Gente, a personagem larga os filhos - dos quais diz o nome de apenas um, apenas uma vez, o resto deles é chamado de crianças, filhos, claramente estorvos - o que é descrito por Defoe, que elabora uma narrativa com um final moralizante, baseado no perdão, redenção, essas paradas totas.
Mas me diz, se o diretor do tal filme queria uma história de uma mãe amorosa que buscava o perdão da filha, por que escolher Moll Flanders?
Construir uma Moll amorosa acaba com toda a elaboração de Defoe, suas reflexões sobre os pecados e a tal redenção da personagem, após a expiação das sacanagens que ela aprontou em uma vida abarrotada de "jeitinhos".
Mesmo no final, ainda carrega em si mentiras, segredos e uma boa dose de manipulação, ou seja, completamente diferente, antagônica mesmo, da homônima do filme.
Arre, odeio quando descaracterizam a obra, odeio.

20 julho 2008

Os cafés













Tem uma coisa que adoro fazer nessa vida: conversar. Claro que adoro outras, como ler, viajar, cozinhar e outras não-blogáveis. Mas se a gente pensar bem, todas está amarradas pela conversa. De uma maneira ou de outra.
Se a conversa for regada a um café bem quente, tanto melhor.
Acho que o que mais fiz nessa semana - de férias, com filho na casa do pai - foi conversar e tomar café.
Com a Ju no Galleria, um papo delicioso e muitas risadas, com o Dimas na Cultura, colocando a fofoca em dia, com a Frou, Valéria, Avelino, Maurício e Débora, em memoráveis cafés e papos pela madrugada, onde a conversa variou tanto que até o passado Rosa Cruz da Valéria apareceu...pois é, todo mundo tem um dark side....risos.
De qualquer forma, acho que essas oportunidades de ter tantas pessoas diferentes no meu rol de amigos é um grande privilégio.
E fico muito feliz por isso.
Vai um café aí?

17 julho 2008

Dançando na chuva

















Muito raramente saio para dançar aqui em Campinas. Primeiro, porque tenho aflição de lugar cheio, depois porque simplesmente deteeeesto música eletrônica, que com raras exceções, predominam na noite. Gosto do Barril da Máfia, por exemplo, onde sempre tem uma boa banda com black music e o clima é bem bacana. Mas o outro problema é que acabo me sentindo a tia do lugar, praticamente tenho vontade de sentar todo mundo e começar a dar aulas. Eu sei, um horror.
O caso é que alguns amigos descobriram um lugar ótimo, onde há um dia de flash back - sim ,queridos, a tia aqui curte um flash back, fazer o quê..- e por esses dias, fomos experimentar.
Eu gostei. Me diverti horrores, dancei, fofoquei, encontrei outros amigos por lá - os tios de Campinas agora tem endereço certo, pelo visto.
O engraçado é que quando eu era adolescente não saia pra esse tipo de lugar, não por desgostar da música ou implicar com multidões, mas simplesmente porque eu era um esboço de revolucionária com tênis furado e unhas sem esmalte. Já disse e repito, a perua que habita em mim não conhece essa garota anos 80...
Mas como dizem que as células se renovam a cada sete anos, creio que os anos que me separam da antiga Vivinha construiram uma outra, que ainda olha com carinho pra essa garota do passado, mas definitivamente, ama a mulher do presente.
Beijocas, queridos e vamos dançar.

16 julho 2008

Conjuração na quarta feira


Eu vi isso aqui no Zander e resolvi copiar. São Jorge, pra quem não sabe, é o protetor dos rpgistas e um pouco de proteção contra dragões é sempre bom ter.
Desejo a todos que passarem por aqui que recebam em dobro tudo o que desejarem pra mim.
Tá desejado e tá conjurado.

"Chagas abertas, Sagrado Coração todo amor e bondade, o sangue do meu Senhor Jesus Cristo, no meu corpo se derrame, hoje e sempre.
Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge.
Para que meus inimigos tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me enxerguem e nem pensamentos eles possam ter, para me fazerem mal.
Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem ao meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrarem.
Jesus Cristo me proteja e me defenda com o poder da sua Santa e Divina graça, a Virgem Maria de Nazaré, me cubra com o seu sagrado e divino manto, me protegendo em todas as minhas dores e aflições, e Deus com a sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos e o glorioso São Jorge, em nome de Deus, em nome de Maria de Nazaré, em nome da falange do divino Espírito Santo, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, do poder dos meus inimigos carnais e espirituais e de todas as suas más influências e que debaixo das patas do fiel ginete, meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós, sem se atreverem a ter um olhar sequer, que me possa prejudicar.
Assim seja com o poder de Deus e de Jesus e da falange do divino Espírito Santo. "
Tá desejado e tá conjurado.
Um beijo cheio de poder pra todos que passarem por aqui.

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@@@@@@ texto publicado originalmente em julho de 2007, mas como os stalkers e as malucas continuam tentando ( só tentando, coitados) me atingir, mando de novo.
Sorte e fé para vocês.

13 julho 2008

Paixão antiga sempre mexe com a gente

Eu sempre digo que se eu fosse uma daquelas adolescentes, ia gritar, ia pular, ia me descabelar. Porque é assim, gente, sou uma fâ louca do Rei, não tem jeito.
Quando ele morreu eu tinha nove ou dez anos, mas senti tanto, senti tão profundamente, que chorei por muito tempo.
Essa mistura de gospel com sei lá o quê, aquela coisa meio over, meio kitsch das roupas exageradas dos anos 70 ( com capa e tudo mais), eu adoro tudo.
Pra mim, nada melhor pra homenagear o dia do rock.




06 julho 2008

A Plebe Rude






Não é difícil dizer porque me fascinei tão rapidamente pelo movimento anarquista.
Porque esses militantes, ainda no início do século passado, já compreendiam as mulheres como cidadãs, como pessoas que podiam estudar e produzir.
A experiência de ler os vários jornais anarquistas foi uma porta aberta logo no primeiro ano da graduação, onde não só aprendi as delícias de me perder horas em arquivos antigos, como as delícias de um movimento revolucionário até a última gota, como foi o dos libertários.
O incrível nesses caras é que dentro de uma estrutura escolar violenta, autoritária, dogmática e cerceadora, eles criaram escolas mistas, onde os alunos podiam frequentar laboratórios, debater e - maravilha das maravilhas - não havia avaliações, não havia classificações com notas.
As avaliações deveriam servir para que o aluno percebesse suas falhas, seus limites, não para que fossem excluídos ou que houvesse competição feroz, ou pior ainda, que fossem vítimas de vinganças de professores hostis.
Claro que agora, com todos os alunos enlatados na concepção de que é necessário haver nota, fica praticamente impossível nadar contra a maré. Estudar sem esse tipo de avaliação requer uma autonomia, uma independência, elementos que os alunos poucas vezes são estimulados a ter atualmente.
Há alguns anos, pensei em escrever um trabaho comparando a concepção de imprensa que eles tinham, com a veiculada na chamada imprensa burguesa.
Não escrevi esse trabalho, mas participei de duas pesquisas que incluiam os ácratas e isso me deu a oportunidade de ficar horas no Arquivo Edgard Leuenroth, lendo sofregamente jornais como A Plebe, O Amigo do Povo, A Barricada, A Luta Livre, entre tantos outros.
Fiquei familiarizada com eles, um círculo não tão grande, mas incrivelmente ativo, que usava a imprensa como arma, mas não se limitava a ela. Os anarquistas usavam os sindicatos e os centros culturais, demonstrando a compreensão do poder que a cultura tem sobre o coletivo.
Talvez eu tenha me convencido, naquela época, que uma sociedade sem Estado seria possível. Hoje, certamente, essa idéia não me toma. Mas penso como esse ideário pode ser modificador dentro da sociedade, no sentido de perceber o indivíduo como autônomo, como sujeito de sua própria História ( me perdoem pelo clichê necessário..)
Mas só posso dizer que toda a influência deles, em minha vida, foi enorme. E estar com eles, durante aquele tempo, ali no Arquivo, foi deliciosamente inesquecível.
Melhor do que isso, impossível.

30 junho 2008

A Avó de cabelos azuis








Por mais que o título pareça uma referência ao realismo fantástico, não é.
Eu tive uma avó com cabelos azuis e isso foi a primeira coisa que vi no livro novo do Lord: os cabelos de sua avó. Graças a um produto chamado Shampoo Cinza, as vovós ficavam com os cabelos azulados. Eu sempre achei lindo.
No meu casamento, minha avó errou o ponto e foi com o cabelo lilás.
O livro, narrado do ponto de vista de um menino, conta com ilustrações deliciosas e com aquelas cores vbrantes que seduzem qualquer criança.
E é sempre delicioso ver o mundo a partir dos olhos de uma criança.
O texto apresenta com delicadeza a relação entre neto "Tatá" ( que apesar de ser o mesmo apelido do pai, era diferente, porque era um "Tatá de neto") e sua avó, uma relação tão calorosa e especial que faz com que qualquer um que tenha tido a sorte de conviver com sua avó -
como eu - fique morrendo de saudades.
Eu tive a alegria de participar do lançamento do livro: fui com meus amigos Clélia e Arnaldo que me apresentaram ao Bap, um ilustrador pra lá de divertido.
Foi delicioso ver Jayme, Walter e Aninha, que gosto tanto, rever - ainda que rapidamente - Guga.
Conhecer pessoalmente a Vivina de Assis Vianna, foi uma honra pra mim, eu nunca ia imaginar isso há vinte e três anos, adorei.
Uma personagem digna de nota foi a ex-professora do Lord Caco, uma velhinha "composta" ( o que no dialeto da minha avó, significava ser muito elegante ), que ficou ao lado do ex-aluno, evidentemente cheia de orgulho.
Uma noite com livros de avós, antigas professoras e blogueiros?
Delícia.

26 junho 2008

Viajantes no Brasil








Eu estava pensando na tal maldição Langsdorff outro dia. Eustáquio me garantiu que ela acabou, está encerrrada.
Gosto de ler os viajantes do século XVIII, Gosto de ver as pinturas descritivas, cheia de detalhes do cotidiano ( como em Debret) ou da flora ( como em Rugendas), qualquer um que leia meu blog sabe o quanto eu gosto da força das imagens e esses dois, ora bolas, já foram tema de mil teses e vão continuar sendo.
Ler viajantes tem aquele apelo irresistível de perceber o novo pelos olhos de outros, de perceber a dificuldade da compreensão da alteridade. E tem seus momentos de humor, ora pipocas,como Spix e Martius acreditando que caranguejo era uma espécie de de inseto ( um piolho gigante? que nojo) e coisas do gênero.
No caso de Langsdorff, minha preferência é clara: além dele ser de uma inteligência ímpar e uma história que beira ao realismo fantástico ( enlouquecer, à pé, no meio do Brasil é um exemplo disso), tive o provilégio de trabalhar com microfilmes de papéis escritos de próprio punho por esse alemão genial.
O fato de ler um material desses, ver a letra do fulano, perceber peculiaridades dessa aventura, me faz pensar que a realidade é - muitas vezes - tão ou mais incrível do que a fantasia.

21 junho 2008

O Acidente







Adoro Souzas, adoro mesmo e meu filho também . A gente sempre aparece nessa cidade linda, pequena, bucólica e meio hippie pra almoçar aos domingos.
Mas aquele dia a gente tinha ido tomar café em um lugar super charmoso, com quintal enorme, árvores, uma delícia.
Bom, tô voltando pra Campinas, cantando no voltante, toda felizinha,quando vejo um garoto de bicicleta ,segurando a traseira de um ônibus.
Claro que o instinto "tia" fala mais alto que qualquer coisa e tentei resolver o erro do idiota: se o tal besta pensasse sozinho, não seguraria na porcaria do ônibus....buzinei e de uma maneira não muito delicada, disse que ele ia se ferrar se continuasse com a tal brincadeira arriscada.
Bom, dito e feito.O ônibus acelerou, o garoto soltou e foi garoto-bicicleta-garoto-bicicleta-garoto-bicicleta...transformado em uma bola vermelha que foi bater na mureta da estrada.
Parei o carro com o instinto "tia" apitando, chutei os indefectíveis tamancos e saí correndo no meio da estrada, a própria mulher maravilha campineira, só faltando a musiquinha de fundo ...oidiotadogarotovaimorreraimeudesesse babacavaimorrerpáraalguém...não precisei nem acenar ou parar carro nenhum, uma viatura da polícia já vinha atrás do fulano - na verdade, nem era garoto, um galalau de 30 anos , filhinho de papai que tinha roubado a bicileta pra poder cheirar o resultado.
Sobreviveu e nunca mais ouvi falar dele.

***** Post publicado originalmente em 23/09/06

19 junho 2008

Jocasta e Édipo - I




Encontro a criatura que eu chamo de filho no msn - ele estava na casa da avó - vejo o nick "Toddy" e pergunto:
- filho?
- não.
-??
- mula sem cabeça....
- o que vc está fazendo ai?
- batendo um bolo de banana.
- hahahahah...palhaço.
- seu filho.


*******
_Hoje você não me escapa, mãe, vai aprender a jogar xadrez, larga esse livro.
- ah, não...eu tenho preguiça...xadrez é muito chato...
- você já jogou?
- não, é chato, ué.
- ??????
- vai, vem cá, depois eu faço massagem por meia hora.
- bom, se é assim....
- olha só, aqui é o rei e ele anda assim, tá vendo...? e a rainha e....mãe! você não está prestando atenção...!
- tô sim, tô sim. Mó sacanagem esse jogo, todo mundo quer comer a rainha....rs
- que comer a rainha o quê!....quer capturar o rei..
- ah, tá...
- vai prestar atenção??? olha só, o que você faz quando um aluno não está estimulado? Me ajuda aí, mãe.....
- pô, filho, você sabe que tenho o maior preconceito com esse jogo....imagino um velho chato com cachimbo na boca e cara de intelectual.....
- mãe, vamos fazer assim....a gente podia comprar outros bonequinhos...sabe?
- ( interessada) por exemplo?
- ah, o Homem Aranha podia ser o bispo, o Wolverine o rei....e a rainha podia ser... o Shun.....ahahah
- hahahahahh..
- Ou a gente podia fazer um combate DC contra Marvel...
- Você joga baixo comigo, Daniel....rsr...tá bom....como é que eu movo essa torre aqui????


****** texto pulicado originalmente em 18/12/2006

18 junho 2008

Imperdível








Olá, povo. Recebi um convite delicioso e quero dividir com vocês, veio do talentoso desenhista Maurílio DNA.
Quem for aqui da região de Campinas está convidado para ir.


"No dia 18 de junho a chegada do navio Kasato Maru ao Brasil trazendo os primeiros imigrantes japoneses completa 100 anos.

"Nagai Tabi" quer dizer "longa Jornada" em japonês e nesta exposição os professores e alunos da escola expoem sua visão sobre as várias facetas da cultura japonesa e do centenário da vinda dos primeiros imigrantes para o Brasil.

"Tabi Wa Mithizure" - As pessoas que você encontra na sua jornada ficam com você para sempre.

Quando: 20 de junho (sexta-feira) a partir das 20:00h
Onde: Hotel Vitoria NewPort - R. Santos Dumont, 291 - Cambuí

Ainda na abertura da exposição haverá lançamento/venda/noite de autógrafos das revistas em quadrinhos "FRONT Especial 1 - Centenário da Imigração Japonesa" e "ITO Samurai".



Nos vemos por lá.


**********

Eu leio o convite e caio sempre nessa parte, que adorei:
"Tabi Wa Mithizure" - As pessoas que você encontra na sua jornada ficam com você para sempre".
Uau.

17 junho 2008

Ensaio Sobre a Preguiça


Faz mais de vinte anos, eu tinha dezesseis anos e trabalhava em uma empresa que funcionava 24 h por dia. Literalmente. Meu turno era das seis ao meio dia, tinha conseguido essa pseudo-promoção aprendendo a digitar na hora do almoço: passei então a trabalhar como digitadora e em turnos de seis horas.

Nosso grupo era formado por meia dúzia de pessoas, o mais velho, o meu "chefe" - eles adoravam distribuir carguinhos porcaria pra ver se conseguiam controlar a turba assassina de funcionários - deveria ter pouco mais de vinte anos.

Os outros funcionários chegavam às oito: tínhamos , então, duas horas sem vigilância.

Começamos comprando coisa na padaria e fazendo um café da manhã coletivo. Mas isso começou a ficar cada dia mais longo, cada dia, enrolávamos mais.

A estratégia era a seguinte: ligávamos os pcs e ficávamos vagabundeando, até quase oito horas.

A nossa média de produtividade caia a cada dia, e "ninguém" sabia o motivo....

Digitadores tão rápidos perdendo produtividade...um mistério.

O mistério foi descoberto um dia. Estávamos na recepção: todo mundo deitado pelos sofás, eu , sem sapatos, com a cabeça no colo do meu "chefe", que mexia no meu cabelo ( ô, delicia) e ainda cantava pra mim. Tempinho bom....

A porta fez um barulho, não dava tempo de correr, apesar de alguns terem tentado: um dos donos havia chegado.Foi aquela situação constrangedora em que ninguém sabe o que dizer.

Quem tentou correr, foi pego no meio, tipo desenho animado. Levantamos vermelhos, sem dar nem desculpa. Eu calcei meus tênis - porque nessa outra vida eu usada tênis e não pintava as unhas, era uma outra Eu - subi para trabalhar, morrendo de vergonha.

Subimos meio rindo, meio assustados. Nunca ninguém falou disso, mas nunca mais tomamos nosso super café da manhã de duas horas.



****** texto publicado originalmente em 19/03/07

06 junho 2008

Caminhando na terra dos Perpétuos


Volta e meia eu falo sobre sonhos aqui. Já cansei de dizer que tenho uma vida onírica muito rica, não raro, desejo me mudar pra lá.
Outro dia, sonhava com um longo corredor iluminhado por archotes, andava por lá, chamando:
- Morpheus..Morpheus..!
É isso que dá ser doida pelo Neil Gaiman.
Sonho com cores, cheiros, sonho de forma extremamente sensorial. Já sonhei em desenho, com música, com narrador, já sonhei livros e filmes. Sempre acho tudo lindo, mas nunca me lembro ao certo.
Só brumas, cara, só brumas.
Já até me apaixonei em sonho. Acordei, meio lerda ainda, ainda com um pouco de paixão em mim. Mas acordei. Claro, claro.
Agora sonho em paz, parece que meus filmes internos estão em uma fase zen, se desvencilhando de uma série de medos, de ansiedades.
Parece um bom processo.



04 junho 2008

Vivinha em São Paulo III ou O ônibus


Quem me conhece, sabe que eu faço promessas internas.Por exemplo, quando tinha onze anos jurei que nunca namoraria um homem que lavasse carro no domingo, assistisse futebol e tivesse barriga de cerveja.
Bem que eu preciso de uma dietinha, mas os homens que passaram por minha vida não precisam. Nem lavam carro. Muito menos assistem futebol com barrigão de fora.
Uma das juras é que eu evitaria até o último segundo a possibilidade de tomar ônibus. Mas nesse caso, diferentemente do hipotético barrigudo, eu estava cansada de conhecer.Tomei muito ônibus: vazio, cheio, limpo, sujo, hora vazia, hora do rush.Chega, sem essa de ônibus.
Mas aqui eu andei, quando fui pra casa da Lu Farias, onde conheci aquela família linda e atenciosa, onde passei uma tarde muito bacana, papeando, tomando café e vendo que existem outros fãs de Babylon 5 no mundo.Essa possibilidade de conhecer melhor os amigos blogueiros é algo que me deixa feliz.
No ponto de ônibus,rumando para a casa da Lu, uma menina pequena me olhava:
- Que cor "é" seus olhos?
- castanhos - respondi.
- tira o óculos "preu" ver?
Não é o máximo como criança simplesmente consegue se comunicar com todos?
Por mais que eu deteste tomar ôninus - e eu já disse que detesto - é bacana perceber como dá pra se conhecer mais das pessoas, pra trocar coisas, pra ver outras vidas que não a minha apenas.
Minutos depois sentou uma velha. Constrangida, me pediu um real. Dei três, ela riu sua risada sem dentes, disse que ia dar "até pra comprar leite".
Eu já estava com vontade de chorar ali, velhos me comovem, velhos solitários me cortam o coração.
Essa velhinha mora sozinha, as filhas moram no interior do Paraná, disse que morava em São Paulo há anos, ainda ficava aqui porque era mais fácil para se tratar, para pegar remédios no posto de saúde, essas coisas.
Tirou os remédios da sacola, me explicou pra que serviam, na ânsia de papear com alguém.Um toque escatológico aliviou tudo, ela dizia:
- esse aqui é pra eu urinar bem, por causa do rim, sabe? ah, mas eu urino...urino que é uma beleza.
Eu ri da história de xixi da velhinha e continuamos conversando. Ela contando, eu escutando e pensando em um clichê que me pareceu doloroso: em uma cidade tão imensa, quantas pessoas seriam solitárias como aquela velha que andava sozinha, morava sozinha e conversava com uma estranha, após pedir um real.
A solidão dela me cravou nos ossos, doeu, assustou.
Ao entrar na casa da Lu, momentos depois, recebi uma golfada de felicidade: uma família amorosa, alegre, unida. Fiquei pensando na nossa sorte e fiquei pensando na velhinha.


**** texto publicado originalmente em julho de 2007.

27 maio 2008

Vivien e Viviens


Eu estava lendo o Zander quando pulei da cadeira: na última frase, o personagem responde "não sei, Vivien."
Pensei no ato: o que estou fazendo aqui?
Depois, saída do surto egocêntrico, percebi que existem outras Viviens no mundo.
Mas eu tenho uma boa desculpa pra isso. Nunca, nunquinha estudei com nenhuma Vivien, trabalhei , conheci. Nunca gostei ou desgostei.
Durante anos fui só eu e a maluca de E o Vento Levou.
Ah, claro, teve a personagem de Uma Linda Mulher.....aquele "clássico".
Vocês aí podem não ter notado, mas eu notei cada vez que o Richard Gere dizia "Vivien".
Uma hora, ele fala meio bravo, saca homem sexy meio bravo? Coisa de doido.
Uma hora , no final, quando ele finalmente escolhe ficar com ela,grita o meu nome, com flores e todo amor pra dar. Vida pra dar, destino, opção, escolha, tudo o que ela desejava.Ai, ai.
E eu confesso: parava o filme e repetia a cena, uma, duas, infinitas e deliciosas vezes.
"Viiiiivieeeennn......."
Um amigo me disse que é de origem celta e significa vida. Não sei se é, mas achei bonito e repito por ai, vendo o peixe pelo preço que comprei.
Mas o pior de tudo é que minha mãe leu um daqueles açucarados romances onde as heroínas tem nomes duplos e .....bom, vamos lá, confesso: é Vivien Christina.
Assim, com esse h no meio, assim mesmo. Pode sacanear.
Mas tem um quê de personagem de novela mexicana, certo?
- Você não pode me deixar Vivien Christina...!!!!
- Ah, vá pro inferno Luiz Eduardo...!
( sobe a música)
Faz alguns anos, tive uma aluna com esse nome. Ele parece ser meio comum nas novas gerações. Mas na minha geração ainda sou rara.
Era engraçado falar:
- oi, Vivian.
- oi, Vivien.
E duas bobocas riam, porque eu juro, foi engraçado chamar alguém com o meu nome, pela primeira vez na minha vida.



**** esse texto foi publicado originalmente em dezembro de 2006.