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29 abril 2011

Aborígenes












Sempre que passei na Oscar Freire, fiz isso de carro. Na semana passada foi a primeira vez que andei com meus lindos pezinhos por lá. Outro mundo, crianças. Eu me senti dentro da Convenção Republicana, dentro de um jantar do DEM, um chá da Rosane Collor, ou qualquer uma dessas coisas risíveis e desprezíveis.
Algo me lembrou muito, muito alguns textos do Alex Castro. Aqueles textos em que ele fala sobre sua antiga "vida de rico". Mas rico de verdade, viu, leitor? Não essa classe média caipira que acha que tem grana. Nada disso.
Segundo o Alex, o tal rico e seus riquinhos juniors tem a firme convicção de que as outras pessoas estão no mundo para servi-lo. Sua relação com as outras pessoas é pautada por isso.
Assim, os caras simplesmente acreditam realmente que as demais pessoas devem ser subservientes, prestativas, servis. Ficam em choque quando alguém não quer assumir essa posi.ção. O interessante é ver pessoas que não estão presas nessa redoma: se pensarmos nos jovens guerrilheiros da Ditadura, todos de classe média ou alta, mas que não se submetiam ao simplismo de defender sua classe e suas manhas. Gente que saiu do seu condominio mental, como dizem.
Mas grande parte está lá, falando com as pessoas sem olhar, rindo dos garçons, humilhando empregadas, gritando com funcionários, sofrendo horrores porque sua bolsa de griffe demorou para chegar ou o café estava imperfeito.
Entendendo isso, fica fácil perceber como as conquistas democráticas e sociais ocorridas no governo Lula não tem, para eles, a menoooooor importância. E eles lá querem saber se tem moleque morrendo de fome? Ah, faça-me o favor, eles tem mais o que pensar, como por exemplo, gastar grana na Oscar Freire. Gastar, comprar, se transformar em uma marca vendável, fazer bronzeamento artificial e ficar cor de laranja, fazer clareamento nos dentes e parecer um cavalo de raça, colocar peito de silicone, tomar bomba pra ficar "sarado", colocar seu óculos escuros e realmente, realmente mesmo, não enxergar p*** nenhuma.
Sério, leitores amados, as pessoas são muito estranhas.



27 janeiro 2011

O Rolo










Eu me lembrei do Cortiço ontem. Da briga entre a mulata e a portuguesa, do barraco das duas no meio do cortiço, da bagunça.
Ontem eu vi algo assim, mas muito menos literário e muito mais deprimente.
Com o carro no conserto, tive que ir dar aulas na faculdade de ônibus, o que detesto. Já tomei muito ônibus na minha vida, essa chatice...passo.
Sempre trabalhei de manhã, essa experiência com a graduação é interessante, mas é à noite. É um saco dar aulas à noite.

Mas não tive escolha, era isso ou faltar. Então, isso. Na volta, peguei uma carona com outra professora, que me deixou em um ponto de ônibus medonho. Era medonho, gente.
Era em frente de um botequim que cheirava a muitos anos sem faxina, com alguns bêbados rondando. Sério, uma caminhada de bêbados, parecia sindicato dos cachaceiros de Campinas.
E nada da porcaria do ônibus. E mais bêbados. E eu me encolhendo e pensando "manchete..professora fatiada e assada com batatas em um botequim de campinas!!!!". Meda. Porque qualquer um que me conheça, sabe que sou muito medrosa, muito mesmo.
Do nada surge o master bêbado, esses tipos que parecem uma caricatura humana, que olhados, despertam pena e irritação, porque são sempre, sempre, uns inconvenientes. Dito e feito, o master bêbado chegou perto de duas senhoras ( que estavam de braços dados, flores na mão e comentavam do baile que tinham saído, já meio chumbadinhas também)e começou a berrar:
- olha isso..olha isso....veeeeeeeeeeeia....feia...quem quer essa m***????
As duas se encolheram,eu entrei no botequim, pensando:morri, morri.
(Daniel sempre diz que o melhor dessas cenas é minha cara de pânico)
Continuou ofendendo as mulheres, até que um jovem, que chegou em seguida - vindo do mesmo bailão..- parou na frente dele:
- qual o problema aí, seu otário?? Tá ofendendo as senhoras por que??
O valentão se encolheu. Ficou quieto. Do nada,começou a gritar:
- eu piso na cabeça deeeeeeeeela...o sangue vai espichar!!!
Nessa hora eu já estava rezando, abraçada com a bolsa, com cara de choro.
A namorada do jovem que havia defendido as senhoras, pulou na frente do master bêbado: escuta aqui, seu b***, você é homem, mas não é dois!!! cala tua boca, seu bêbado nojento...aqui só tem mulher séria, só porque a gente vai no baile você acha que pode ofender, seu idiota!!!! some daqui, some,seu lixo< /em>.
- Euuu...não...bato em mulheeeer...porque não queeero....eu já matei, já matei...
- Então me mata, seu idiota
!
Dizendo isso, a moça sentou um tabefe nas fuças do bêbado. Mas um senhor tabefe, com mão aberta, que fez barulho mesmo. Aí um grupo de adolescentes saindo de uma escola começou a rir, o pessoal começou a tentar acalmar, até eu entrei na história, acalmando a moça, oferecendo água, essas coisas que quando a gente entra na turma do "deixa disso" faz. Porque eu sou apavorada, muito apavorada, porém,maior que o meu medo de bêbados, é o meu medo de linchamento, e aquele imbecil, uma vez no chão, viraria uma panqueca de sangue.
Ele continuou:
- eu sou primo do xxxx - não entendi o que ele disse - sou graaaande lá no xxxxx - disse o nome de uma favela -eu te mato,heim?
- mata nada, seu bêbado, seu otário, sai daqui senão eu é que te arrebento.
E gritou:
- frouuuxo!!!
O bêbado foi embora, eles tomaram seus ônibus e logo passou o meu.
Subi, ainda com um medo dos diabos, achando a tal da moça uma heroína dos becos. E parecia uma história digna da Madame Gongadeira,afinal.
Socorro.



****post originalmente publicado em abril de 2008.

19 setembro 2010

A Bienal que não houve ou O dia salvo por Kracjberg













Vamos começar aqui já deixando tudo bem claro: não sou historiadora da arte e me compreendo como alguém com um olhar no máximo curioso diante da arte, nunca com um olhar de conhecedor.
Mas como acredito que Marilena Chauí foi certeira ao questionar a fala do "discurso competente", me advogo o direito de dar meus pitacos, apenas enquanto indivíduo.
Porque, em útlima instância, se a arte só puder ser apreciada/criticada/discutida por conhecedores....ela perdeu parte da sua essência transformadora.
Dito isso, vamos às críticas.
Que porcaria de Bienal foi essa? Algúem me explica? E se alguém vier com o papo de discutir o vazio, juro que surto.
De todas as que fui - e sempre vou, porque adoro me emabananar em obras que não entendo e nem finjo que o faço, adoro ficar confusa, impressionada, divertida, assustada, diante das exposições - de todas as que fui essa, com certeza, foi a mais frustrante. Porque todas me provocaram algo e essa...bom, essa me provocou tédio.
Em mim e na meio dúzia de gatos pingados que rodavam em torno daquela exposição que parecia feira de ciências de colégio tosco.
A Bravo! comentou algumas obras, inclusive o escorregador ( parece que o artista estava dentro de um cinema, um técnico saiu irritado e o público começou a gritar "volta,Valério!", e em minutos todos gritavam a mesma coisa, o que leva a pensar sobre o comportamento de manada, essas paradinhas.Bacana, gostei.)
Mas sei lá...200 mil pro "Valério"? Isso dentro de um contexto que dizia que a Bienal estava com a grana reduzida?
Nem me alongo, porque vou me repetir, então, resumo da ópera:
Vazia, chata pra caramba, inodora, insípida.
E acho , realmente, que deixar um andar inteiro vazio é uma grande sacanagem, tanto com os artistas, quanto com o público: aí vira uma questão pragmática e política, é simplesmente retirar das pessoas o direito de interagir com produções artísticas.
Isso porque ainda li por ai que a Bienal não teria mais tanta importância, porque outras mostras assim acontecem na Europa e suprem esse papel
Eu li isso e me senti em Marte. Não preciso bem comentar, preciso?
É uma observação de um elitismo tão perverso que eu fiquei pasma ao ler.
Mas para salvar o dia havia uma exposição muito bacana na Oca, comemorando os 60 anos do MAM. Essa exposição está fantástica, com ênfase para o setor do Kracjberg, cuja obra eu já era fã...e diante do contraste da chatice anterior, só me deixou mais impressionada. A foto aqui do post é uma pequena amostra do trabalho dele, um polonês radicado no Brasil, totalmente envolvido com a questão ecológica.
A exposição toda está muito bacana, vale a pena ir.
O MAM também está interessante, com uma parte repleta de obras que são instrumentos musicais nonsense dos quais uma música igualmente doida pode ser tirada.
Foi um dia bacana, apesar do tédio da Bienal.
No dia seguinte, fomos na Cultura da Paulista, porque que havia lido duas resenhas muito interessantes sobre o Filho Eterno, uma do Alex Castro e outra do Antonio Marcos Pereira, e eu que nunca dei a menor pelota pra crítica, me acostumei a ver na Copa de Literatura um ótimo lugar para ter referências de livros bacanas.
E cá entre nós, um livro que fez o Alex Castro chorar em público? Ah, quase me rasguei de curiosidade, tinha que ler aquilo.
E O Filho Eterno, que li no mesmo dia e reli no dia seguinte, é uma mostra disso. Vou resenhar pra vocês, meus queridinhos, claro que vou. Mas dou a dica: comprem e leiam, porque é realmente um grande livro.
Mas a Sherazade aqui só conta no outro post.;0)


****publicado originalmente em 2008.

07 junho 2010

o beijo que não era de klimt


Eu já contei por ai, entre um coment e outro, mas agora vou assumir.
Eu fiz teatro na adolescência. Pronto, falei. Tô vermelha, gente.
Porque adoro teatro, adoro mesmo. Acho que uma boa peça é sempre uma experiência única, mas teatro amador é o ó do borogodó.
Os ensaios vão sempre virando uma coisa que mescla sessão de descarrego com terapia em grupo. E levado a sério, muito a sério.
Eu tinha 16 anos e queria mudar o mundo, como muita gente aos 16 anos.Mas hoje, com 38, não posso deixar de lembrar divertida dos exercícios. Já que é pra chutar o pau da barraca, vamos lá.
Uma vez, em um curso, o "diretor" pediu que todo mundo levasse um lençol na aula seguinte. Levei. Aí ele me manda essa: era pra todo mundo vestir o lençol (note : SÓ O LENÇOL) e sair pulando pela rua, em uma versão tupiniquim das bacantes.
Fala sério.
Coloquei o lençol em cima da camiseta e do jeans. Horrorizados, os outros olhavam pra mim e pra umas outras três alunas ( que também estavam vestidas sob o lençol) penalizados diante de nossa - nas palavras deles...- "travação e repressão".
(Ok, vai ser desinibido, sem repressão e andar pelado de lençol na rua, vai fundo, dou a maior força. Mas eu passo, obrigada.) Além de tudo, acreditem ou não, o tal exercício foi filmado e apareceu no jornal local, com close aqui em mim....imagina so se eu estivesse "desreprimida"?
(Antes reprimida ridícula vestida do que "desreprimida" ridícula pelada na rua. Eu achava e ainda acho.)
Em um dos exercícios, o grupo com o qual eu trabalharia tinha uma "super desreprimida"; veio dela a idéia brilhante:
"vamos tirar a roupa? eEsse povo do curso tá muito frio".
Claro que argumentei que ninguém ia ficar frio com o nosso grupo ridículo e pelado, mas que seria uma estratégia simples, barata, fácil. Tola, na verdade.
" Assim todo mundo presta atenção, grande droga."
Convenci os outros ( afinal, seria mais uma vez excluída e taxada de reprimida...mas esse mico eu não pagava nem a pau) e a gente fez uma outra coisa qualquer.
Ridicula, claro. Mas vestidos.
Em outro exercício , o "diretor" se concentrava ao ler um texto e a gente, em cima do palco, de olhos fechados
(porque teatro amador brega pra diabo tem que ser feito de olhos fechados) tentava interpretar o tal texto filosófico.....com gestos.
Preciso dizer mais alguma coisa?



******primeiro texto publicado neste blog, em 2006.

09 abril 2010

O medo da teletela









Acho uma delícia revisitar os autores. Imagino o quanto do próprio leitor impregna a obra, a tal ponto de fazer a releitura, uma operação divertida e surpreendente.
Sempre me lembro que quando me divorciei, li A Peste - eu sei, eu sei, Camus foi escolha equivocada para o momento - e fiquei barbaramente impressionada com o livro. A idéia de estar acuado, limitado, impossibilitado de se deslocar, o medo presente, foram extremamente impactantes para mim.
Anos mais tarde, ainda que tenha gostado da mesma forma, não senti a asfixia da primeira leitura, pois minha localização, enquanto leitora, era outra.
Lembro perfeitamente do impacto que senti quando li 1984 pela primeira vez. Era adolescente e de lá pra cá, reli umas tantas vezes. Fiz isso por esses dias.
A ácida crítica de Orwell tem o poder de ser atual, ainda que a esquerda tenha se remodelado. Creio que todas as críticas gigantescas que ele faz, cabem em qualquer estrutura totalitarista, pois o controle é sempre sua base, mas é indiscutivelmente - infelizmente - que os socos atingem ao que muita gente - como eu, por exemplo - sonhou durante muito tempo.
Imagino que a esquerda só poderá ter uma nova face, que responda às necessidades comptemporâneas, se tiver a coragem de enfrentar discutir elementos como esse.
Discutir a ficção macabra que teve base em uma realidade não menos macabra, como foi o punho solene de Stálin.
Por mais que a direita me enoje - e me enoja totalmente - não posso mais deixar de ver o mundo sem as reformulações, sem a perestroika, sem a glasnot e sem...viva!..o Grande Irmão.
De certa forma, isso me deixa angustiada, me deixa com a síndrome de geração coca-cola, pois ao criticar e ter ojeriza ao capitalismo, não encontro esperança no que pensava ser o socialismo.
De mais a mais, conheço pessoas tão controladas, tão vigiadas, que vivem uma vida sem o mínimo de privacidade, em um arremedo assustador da ficção de Orwell.
O que prova, sem dúvida, que os controladores se mordem de medo de perder seus controlados....e isso seria tão, tão interessante.


***publicado originalmente em 2008.

11 fevereiro 2010

Crianças monstro - com atualizações

LI na Época desta semana que a rainha da bateria de uma escola do Rio seria uma menina de sete anos. Pois é, povo, os pais surtam e depois não sabem porque os filhos são rascunhos do inferno no papel de pão.
Alguns que se preocupam com a sanidade mental da garota já entraram com processo, querendo impedir a coisa toda. Os pais, envoltos na maior vibe narcisista, teimam em dizer que a fantasia da garotinha é comportada ( mini saia e mini blusa, acho que o "não comportada" pra eles seria fio dental) e tentam por toda lei colocar a litle perua rebolando na frente de marmanjos.
E aí, mesmo psicólogos e juízes apontando a inadequação do papel, a hiper exposição e o estímulo a sexualização precoce, os pais brigam na justiça pelo direito de decidir.
Eu sempre me pergunto quem pode defender as crianças dos pais...porque na ânsia de provarem que tem um poder quase divino sobre os filhos, expoem essa moçada a papéis absurdos.
Isso me lembra os medonhos desfiles de miss-mirim, com garotas que são verdadeiros travecos em miniaturas, completamente exageradas, sabe aquela coisa bem Texas? Então. Dureza, gente, dureza.
Mas isso merece um post à parte. Por hora, em "homenagem" às meninas feitas "estrelas" por conta da vaidade familiar, deixo com vocês a deprimente cena de O Que terá Acontecido a Baby Jane?, onde Baby Jane ( Betti Davis), uma ex estrela mirim, tenta voltar aos áureos tempos, fazendo o que sabe fazer: sendo menina....apesar de ter envelhecido. Assistam comigo.




*****

Acabei de ler: parabéns aos "pais do ano", estão criando mais uma mutante.

21 janeiro 2010

Langsdorff, o fantasma







Se não levo um livro, só posso mesmo partir para as revistas da sala de espera, quando vou ao médico. Li uma, folheei outra,quando achei uma Metrópole - uma revista dominical que vem anexada ao Correio Popular - fui imediatamente ler o texto de Eustáquio Gomes, que é, tradicionalmente, a primeira coisa que leio nessa revista.
O texto, ótimo como sempre, tinha o seguinte título :"A Maldição de Langsdorff".
Eustáquio falava sobre uma pesquisa organizada pela Unicamp sobre a Expedição Langsdorff, organizada por esse genial cientista alemão que veio para o Brasil no século XIX, representando a Rússia em uma ambiciosa viagem de pesquisa.
Pois é, junto com ele vieram Taunay, Rugendas, Hercule Florence, entre outros.
A viagem foi incrível, cortando o Brasil, passando por minha região, estudando plantas, animais, pessoas, hábitos. Anotando, desenhando, estudando cada detalhe. O lance é que houve afogamentos, mortes, loucura. Além de um outro integrante que enlouqueceu durante a viagem, Lansdorff - cientista, poliglota, intelectual - perdeu a razão com cinquenta e poucos anos, no meio do Brasil, no meio da pesquisa. Nunca mais recuperaria a sanidade.
Eustáquio comenta que o primeiro organizador da pesquisa, posteriormente comandada por Danúsio no Centro de Memória, faleceu.
Por que estou contando isso para vocês?
Rapaz, porque eu também participei da pesquisa. Eu trabalhava com microfilmes de manuscritos dele, em português ( ele havia feito anotações me português, alemão, russo e francês). Fui auxiliar de pesquisa do prof.Plínio, que faleceu ainda durante o projeto. Apavorada como sou, lia a brincadeira de Eustáquio e já pensava "pronto, ferrou tudo, Langsdorff miserável.."
Mas tudo vai dar certo, pé de pato mangalô, certo?
Pô, Lansdorff, não me assombre....

****post publicado originalmente em maio de 2008.

04 novembro 2009

Comportamento de manada com bois acéfalos


Há pouco tempo recebi um email de uma amiga que falava sobre o tal caso da Uniban. Eu não sabia, mas um pulinho no twitter me mostrou a cena insólita, do povo doido gritando contra a moça. Denise Arcoverde fala sobre o assunto e levanta uma lebre: se a moça fosse magra, isso teria acontecido? Porque magra pelada na rua é rotineiro, gordinha querendo ser sexy parece ser algo ofensivo aos olhos brasileiros.
Não sei.
Umas alunas disseram que ela "estava provocando". Claro que isso remete aos argumentos usados há poucas décadas, que desqualificavam o papel de vítima de mulheres estupradas, dizendo que elas "haviam provocado" por usar roupas provocantes.
Assim, mulheres que haviam sido vítimas de inúmeras agressões não podiam nem denunciar o crime, pois seriam tratadas como causadoras.
As constantes ironias em relação às mulheres agredidas pelos maridos levou a criação de uma delegacia especializada em crimes domésticos. Ainda assim, só com a recente lei Maria da Penha, a agressão doméstica foi realmente criminalizada e mão resolvida na base de meia dúzia de cestas básicas pagas pelo agressor.
Vi uma escritora no Roda Viva que explicava que o véu muçulmano tinha afunção de proteger....os homens. Sim, você leu certo. Em termos, os homens seriam destituídos de auto-controle, portanto, caberia as mulheres conservar sua imagem apagada, para que os instintos masculinos não fossem despertados.
Não me interessa se a roupa da garota estava adequado ou não. Se ela fosse de biquini ou nua, quem deveria discutir com ela a viabilidade do traje seria a instituição e nunca, nunca, deveria ser mote para agressões físicas ou verbais.
O comportamento de manada sempre me assusta. Alunos que escutam um maluco gritar e correm atrás dele, no afã de gritar também, são capazes de qualquer coisa.
Quando as pessoas seguem os "alfa" e agem como manada, se escondem na multidão e mostram atitudes que seriam impensáveis, caso tivessem que repeti-la sozinhos, de cara limpa.


22 outubro 2009

Maus


Depois de anos, finalmente li Maus. Para quem ainda não se deparou, fica a dica, procure uma boa livraria com uma sessão razoável de HQ e leia, leia já.
Maus já pode ser considerado um quadrinho clássico.
(Bem) escrito por Artie Spiegelman, Maus narra a história de seus pais na Polônia quando da ascenção do nazismo, passando pelo gueto e culminando em Auschwitz. O autor optou por construir essa narrativa concomitantemente com a narrativa da própria coleta da história. Assim, podemos ver Artie conversando com Vladek, seu pai, ao mesmo tempo que ouvimos/lemos e, obviamente, sofremos com a história do próprio Vladek.
Artie retrata judeus como ratos - uma interessante ironia envolvendo a forma como eram descritos pelos nazistas da época - os alemães como gatos, americanos como cães.
A fluência da história é incrível, impossível parar de ler, viciante e asfixiante ao mesmo tempo. Poucas vezes vi uma descrição da fome com tanta vivacidade.
Vladek possui hábitos regrados e um senso de economia que vai às raias da loucura. Porque me parece que, emocionalmente, ele não conseguiu sair de Auschwitz, portanto, sua relação com a realidade é diferente.
Além de retratar a bela história de amor dos pais, o sofrimento do Holocausto, Maus consegue trazer a baila uma conflituosa relação entre pai e filho. Nesse caso, entre pai e filho judeus, com toda a carga, todo o peso da guerra, dos campos de concentração e da sobrevivência.
Ler Maus é uma necessidade.

31 agosto 2009

O Amor nos tempos do Cólera


Em tempos de pandemia, a gente acaba mudando hábitos. Nunca vi tanta gente lavando as mãos, alguns produtos viraram arroz de festa e eu não vou ao cinema há milênios.
Não me chamem de exagerada, porque sou imunossuprimida e uma gripe dessas vai fazer esse sistema imunológico aqui pirar, socorro.
Mas eu confesso que acho engraçado a mudança de alguns hábitos, gente que se cumprimenta de longe - sorry, mas eu ainda beijo as pessoas, pelamor - e coisas assim.
Em meados do século XIX, aqui em Campinas, a febre amarela dizimou parte considerável da população, assim como aconteceu no Rio. Os Almanaques da época comentam como as pessoas deveriam ser portar nos enterros e no dia de finados, como seria mais adequado. Reprovavam o fato dos escravos irem na frente, pra limpar os túmulos, colocar flores...e ao esperarem seus senhores, fazerem uma roda de samba, cantando e dançando alegremente. Os jornalistas achavam absurdo - engraçadíssimo acharem que os escravos deveriam ficar condoídos com a morte dos senhores, aliás - descreviam a cena, provavelmente meneando a cabeça.
Como seriam as relações sociais dentro daquela pandemia? Fico pensando como as relações e hábitos podem ser pautadas nos novos medos.

08 julho 2009

Será que fizemos as perguntas certas?

Conversando com algumas pessoas, percebi que uma fala se repetia: a culpa da imprensa em relação a degradação pública de Michael Jackson. Fiquei pensando sobre isso.
Concordo sim, sem dúvida, mas comecei a relativizar.
Quando meus amigos diziam "os jornalistas fizeram isso e aquilo", não consigo me furtar de pensar que os jornalistas, salvo raras exceções, são funcionários como outros, ou seja, cumprem ordens e fim. Quem imagina uma grande liberdade de ação descarta o poder do capital do dono dos meios de comunicação, cujo desejo é, em última instância, lucro e mais lucro.
Noticia ruim vende bem, escândalo vende mais ainda. Alguns chutam o pau da barraca, como os famosos tablóides ingleses, chulos e fantasiosos. Outros jogam uma ou outra m*** sobre uma celebridade e esperam o resultado.
Amy Winehouse vende mais com notícias dos shows ou quando corre de soutien pela rua?
Fico me perguntando se todas as reportagens que vimos sobre as sucessivas e loucas transfornações de MJ fizeram todas as perguntas possíveis.
Porque eu sei que ele se transformou, sei que se escondia com máscara, mas não sei se foi investigado se a família o questionava sobre isso, não sei se foi investigado se um médico trasnfigurar uma pessoa à exaustão era ético.
Se ele pirou em público, além de fofocar sobre isso, o que exatamente foi perguntado?
Porque eu nem vou dar pitaco sobre seu branqueamento. O que sei eu sobre o que significa ser negro dentro de uma sociedade WASP? Será que essa massificação de um tipo de beleza foi expressa apenas por seu pai maluco?
Se eu não consigo assumir meu cabelo cacheado e faço escova, se preciso disso pra me sentir melhor, o que eu posso dizer sobre outras transformações?
Posso apenas verificar que MJ perdeu o senso de limite e que, efetivamente, não conseguia se enxergar.
Mas se o jornalista faz o que o patrão manda e se o patrão quer lucro a qualquer preço...quem deu esse lucro?
Enquanto continuarmos consumindo a decadência das pessoas, nem só a imprensa marrom vai suprir nossa sanha, mas a imprensa "convencional" vai fazer o mesmo.
No vídeo abaixo, cenas do último ensaio.


(Me enganei ou ouvi trechos do famoso discurso "I Have a dream" do reverendo Martin Luther King ao fundo? Vejam e me contem.)




09 junho 2009

Quando todo mundo vira alguma coisa na prateleira












Sei que todo reality show acaba por usar o que de pior temos como seres humanos. Sei que todos eles são compostos por pessoas que fazem quase (?) qualquer coisa por dinheiro, mas confesso a vocês que a última tirada da Globo me deixou estupefata.
O programa Jogo Duro - que vi durante dois blocos, não aguentando mais - se resume a um grupo de pessoas pegando dinheiro do chão ou de algum lugar.
Só isso. Mas o fato é que os lugares são esgotos imundos, locais cheios de insetos, cobras, lagartos, escorpiões, ratos e sei lá mais o quê.
Assim, os participantes se arrastam em esgotos, pegando dinheiro de fantasia perto de ratos e recolhendo-os, DENTRO DA PRÓPRIA ROUPA. Sim, isso mesmo, vocês leram rato/esgoto/roupa na mesma frase. Eu também quase vomitei.
Sei que muita gente está disposta a fazer muita coisa por dinheiro, mas acredito que alguma limitação exógena há de existir, antes que as pessoas comam baratas, vendam rins ou leiloem as filhas. Há que se ter um limite.
Eu me recuso a ver aquilo. E vocês...o que acham?
É possível deixar que pessoas se vendam e se exponham dessa forma?

09 abril 2009

A novela do pé - segunda parte





















Respondendo aos amigos que escreveram por email ou orkut: ainda não melhorei.
Se eu conseguisse ficar aqui um tempo, responderia a todos, mas alguns minutos com o pé para baixo e já fico com uma dor insuportável.
E toca chamar alguém pra me ajudar a voltar a deitar. Estou deitada há dias, estou mordendo a parede de irritação por isso e por outras coisas imblogáveis.
Porque pior do que ficar doente é ter que explicar que está doente, saca isso? Sempre tem uma criatura para quem você tem que se justificar uma, duas, duzentas vezes.
Caraca, não estou andando! Será que alguém opta por isso por livre e espontânea vontade? Quem convive comigo mais do que quatro minutos sabe que sou agitada, tenho o maior pique, sou um burro de carga pra trabalhar. Porque adoro trabalhar, estudar, adoro mesmo. Ficar aqui, ilhada, não é opção...é um castigo.
Passei por vários médicos, um estúpido e superficial, em um hospital aqui de Campinas foi o pior. Olhou meu pé da mesa, sem se mexer, pra dizer que estava infeccionado ( jura??) e teve que ser lembrado de me indicar a um reumatologista.
A consulta durou cinco segundos e ele estava na porta, gritando o nome de outra paciente...depois de me dizer pra ficar "em repouso e continuar com o antibiótico por mais 15 dias".
Um mês com antibiótico? Outra me enfiou uma injeção dolorida...já outra queria me dar uma benzetacil ( saca aquela? que parece um tiro no traseiro?) sem perguntar nem se eu era alérgica a penicilina.
E eu aqui, deitada, com tédio, irritada, sabendo que tenho alunos me esperando, trabalho acumulado e gente cobrando.
Ah, pra fechar com chave de ouro: um projeto muito bacana que eu estava ingressando na Unicamp, um mega projeto bacana...não vai rolar.
Legal, né?
Inferno astral ou eu não consigo ler as linhas tortas de Deus? Porque tem que haver um bom motivo pra isso tudo, TEM QUE HAVER.

26 março 2009

Tempo Rei


Três na sala. Fulana, Sicrana e Beltrano.
Fulana deitada no sofá, descabelada, com cara de bunda.
Sicrana, com o telefone na mão:
- Então, tô ligando lá na farmácia....eles entregam o floral aqui mesmo.Você vai ver, floral é bacana, porreta, tiro e queda.
Fulana:
- ...hum...
Beltrano:
- Você deveria tomar empatiens.
Fulana, abrindo um olho só:
- Pra quê que serve...?
- ah...é bom pra impaciência. Assim como você está, o bom mesmo é rescue.
Fulana pensou que cara deveria estar pra ele dizer "assim como você está". Tentou ajeitar o cabelo, pensou em sentar, mas desistiu, ficou deitada, com cara de bunda.
Sicrana ri:
- Rescue é uma beleza....beira o fantástico - fazendo gesto de quem pega uma corda - resgata, sabe? Você quer ser resgatada?
Fulana, com riso nervoso:
- Alguém me tire daqui...
Sicrana:
- você está com uma cara melhorzinha.....está mais pra Jekill...antes estava Hyde....
Beltrano:
- o ruim de floral é que dá pesadelo pra caramba.
Fulana:
- o quê??? Além de tudo vou ter pesadelo??
Sicrana, conciliadora:
- Não ....não é assim.Bom, depois de um tempo, você sabe, floral coloca os bichos pra fora.
Fulana, de olhos arregalados:
- ãh???? Eu tô f***. Colocar os bichos pra fora?!
Sicrana:
- E aquele que eu te dei pra dormir, foi bom?
- Vixe maria.
- Eu te liguei , você dormiu rápido.
- Cheguei, tomei e apaguei.
- E acordou melhor? ( animada)
- Não.....( riso nervoso)
- Olha que amiga que sou...te dei um daqueles que não tomo nunca.
- Aqueles que a dra. X "miguela"?
- É.
- Amiga mesmo
.
Beltrano ainda diz que Fulana deve tomar Rescue. Sicrana e Beltrano discutem sobre florais. Fulana engole em seco, ainda vai ter que trabalhar.
Os jilós também trabalham.

********** Tempos depois...****************




Soube que a Fulana se mudou: viajou com um personal de 1.95m pra Israel e foi morar em um kibutz. Dizem que tiveram uma briga homérica sobre os territórios ocupados e ela quebrou um ou dois pratos na cabeça dele.
Parece que depois Fulana passou um tempo em Paris com um escultor que falava latim. Bom, não entendi ao certo se ele falava latim, mas duas palavras parece que ele sabia à perfeição.
Mas Fulana se desentendeu com o escultor, arrumou sua mala e se mudou. Disse que ia tentar os pintores...
Viajou sem rumo uns meses, trabalhando aqui e ali. Pintou o cabelo de vermelho, tatuou um símbolo da cabala na nuca e mudou o nome pra Sarah.
Hoje dirige uma galeria de arte alternativa e mora com seus três namorados no Soho.

*** Posts anteriormente publicados em dezembro de 2006, os comentários constam nos posts originais.

04 outubro 2008

Sob os olhos de Fernando







Fernando Meirelles acertou em cheio. Ensaio Sobre a Cegueira teve a adaptação que merece, nas mãos desse diretor. O filme com cores apagadas, mortas, foi uma alegria para mim. Muitas vezes aqui, comentei sobre as violências cometidas contra algumas obras, em adaptações tacanhas, obtusas e - em grande parte das vezes - tão distante da obra original que dizer que era "baseado na obra de.." praticamente ofendia.
Não é o caso desse filme. No texto de Saramago, pessoas são acometidas por uma cegueira branca e inesperada, que acaba se alastrando como uma furiosa epidemia. As pessoas contaminadas são colocadas em reclusão, debaixo de regras espartanas e abandonadas à sua própria sorte.
O caos criado beira a loucura. Não é à toa que o autor escolheu um manicômio abandonado para servir de prisão momentãnea para os contaminados.
A nossa cegueira cotidiana em relação a vida, em relação tanto aos minúsculos prazeres quanto aos problemas mais gritantes, fica explícito. Somos cegos, enfim.
Na reclusão, alguns laços de solidariedade são criados e se mantém fortes, entretanto, dentro do caos surgem também os déspotas, como ficou claro com o outro grupo de cego, opressor, violento.
No texto de Saramago, ainda me pareciam mais aterrorizantes, arrastando as barras de ferro no chão.
Li no blog sobre o filme que a cena do estupro coletivo foi mal recebida por grupos de mulheres. A cena é horrível, é suja, é amedrontadora. Por isso é crucial para o filme.
Julianne Moore está perfeita, sendo a Mulher do Médico, uma personagem de uma grandeza ímpar. Rúfalo está aquele fofo de sempre. Os outros estão pefeitos, gostei do toque fashion de se colocar o Primeiro Cego e sua mulher como japoneses.
A apresentação sem nomes, como A Moça dos Óculos Escuros ou os outros, ficou um pouco vaga: pareciam que se apresentavam mencionando as profissões. Em minha leitura, mais do que localizar sua profissão, penso que o autor apresenta personagens que se definem pelo que fazem, se localizam enquanto indivíduo dentro do seu espaço no capitalismo.
Como se o indivíduo fosse, enfim, reduzido e definido pelo que ele faz.
Mas não imagino como transportar isso da literatura para outra linguagem. Assim como o Cão das Lágrimas, comovente no livro, superficial no filme.
De qualquer forma, ainda que algumas sutilezas sejam praticamente intraduzíveis, achei um belíssimo trabalho. Com algumas cenas particularmente bonitas, como o grupo de mulheres limpando o corpo na mulher morta pela violência dos cegos que formaram uma gangue, com aquela solidariedade feminina que é tão impressionante quanto nobre.
E o fim do filme, onde a Cegueira, em todos os seus aspectos, parece ter sido vencida.
Isso fica claro no livro posterior, Ensaio Sobre a Lucidez. Mas isso é conversa pra outro post.

17 junho 2008

Ensaio Sobre a Preguiça


Faz mais de vinte anos, eu tinha dezesseis anos e trabalhava em uma empresa que funcionava 24 h por dia. Literalmente. Meu turno era das seis ao meio dia, tinha conseguido essa pseudo-promoção aprendendo a digitar na hora do almoço: passei então a trabalhar como digitadora e em turnos de seis horas.

Nosso grupo era formado por meia dúzia de pessoas, o mais velho, o meu "chefe" - eles adoravam distribuir carguinhos porcaria pra ver se conseguiam controlar a turba assassina de funcionários - deveria ter pouco mais de vinte anos.

Os outros funcionários chegavam às oito: tínhamos , então, duas horas sem vigilância.

Começamos comprando coisa na padaria e fazendo um café da manhã coletivo. Mas isso começou a ficar cada dia mais longo, cada dia, enrolávamos mais.

A estratégia era a seguinte: ligávamos os pcs e ficávamos vagabundeando, até quase oito horas.

A nossa média de produtividade caia a cada dia, e "ninguém" sabia o motivo....

Digitadores tão rápidos perdendo produtividade...um mistério.

O mistério foi descoberto um dia. Estávamos na recepção: todo mundo deitado pelos sofás, eu , sem sapatos, com a cabeça no colo do meu "chefe", que mexia no meu cabelo ( ô, delicia) e ainda cantava pra mim. Tempinho bom....

A porta fez um barulho, não dava tempo de correr, apesar de alguns terem tentado: um dos donos havia chegado.Foi aquela situação constrangedora em que ninguém sabe o que dizer.

Quem tentou correr, foi pego no meio, tipo desenho animado. Levantamos vermelhos, sem dar nem desculpa. Eu calcei meus tênis - porque nessa outra vida eu usada tênis e não pintava as unhas, era uma outra Eu - subi para trabalhar, morrendo de vergonha.

Subimos meio rindo, meio assustados. Nunca ninguém falou disso, mas nunca mais tomamos nosso super café da manhã de duas horas.



****** texto publicado originalmente em 19/03/07

20 maio 2008

O banho


Já disse aqui que esse ano não começou bem pra mim, problemas profissionais sérios que me fizeram ser meio estúpida com uma amiga que estava com crises balzaquianas, disse que não queria ouvir papinho sex and city porque tinha coisas muito mais drásticas pra pensar. Como contas, por exemplo. É real, mas eu não precisava ser grossa.Pedi desculpas, mas já tinha falado, é fogo isso.
Mas a angústia dos problemas práticos fazem a gente tomar umas atitudes meio patéticas. Exemplo: eu vou em uma igreja católica eventualmente. Nunca pra missa, porque o povo lá é da Renovação carismática e se uma missa já é algo com o qual eu não me identifico, esse povo doido me afasta ainda mais.
Não quero elocubrações teológicas, minha necessidade de fé é visceral e gosto disso. Não estou nem aí pra discutir a real existência de uma divindade, não me interessam questões filosóficas, minhá fé é reconfortante e chega. Evidentemente a relação homem-religião me interessa e quero discutir, mas a relação homem-fé é muito íntima, ancestral. Durmo se esse papo vem a tona.
Enfim, eu dizia que... eu curto a tal igreja, ela é meio estranha, tem uns rituais: escrever pedido em papel , amarrar fitinha, coisas assim. Um primo da minha mãe, que é me conhece bem e é muito meu amigo foi peremptório:
- Você gosta porque é meio macumba, fala a verdade....
Tai, tem um climinha meio ritualistico, meio pagão-cristão, meio macumba, que eu me amarro.
Outro dia fui lá: tem uma fonte de água benta (eu sei, nem me venham com argumentos racionais porque sei que vcs estarão certos, mas não tô nem ai..) e eu fui lá, com garrafinha, pegar a tal água. Aí decidi molhar a testa, aí...molhei testa pra abrir a mente...decidi molhar o coração,prá ver se esse desgraçado não me sacaneia mais.... rins, por motivos que já contei aqui.....e comecei a praticamente tomar banho na tal torneira-benta.
Minutos depois, durante meu banho-bento, chega um fulano: cabelo comprido, todo tatuado, carregando uma garrafa de dois litros. Sério, uma garrafa vazia de coca-cola pra encher de "água benta" da torneira. Pior do que eu, vocês já viram tudo.
Rapaz, o cara toca a jogar água também. Dois retardados tomando banho de água benta: a perua aqui, com salto alto e unhas vermelhas e o porra-louca lá, tatuado e cabeludo. Só alegria. Ou melhor, só desespero mesmo, surto em dupla.
Merecia uma foto.



******Esse texto foi postado no ano passado, hoje, além das minhas opções religiosas terem mudado - tema pra outro post - minha vida profissional também mudou.
Decidi republicar porque o tema "causos" foi citado no post anterior e porque esse post é um dos que R., um leitor fiel, gosta muito.

12 maio 2008

A volta do "Cansei"?


Salva pela tv a cabo, desisti de assistir novela.
Eu gosto de novela, gosto mesmo. Não gosto é de novela chata ou que me irrite demais.
Essa que passa às oito eu até gostava, apesar de tudo.
Tinha uma simpatia pelo personagem ambíguo e idiossincrático da Marília Pêra. Mas o que houve por esses dias? Cenas de perua enlouquecida, gritando "cheeeeega!!!" histericamente. Tô pouco me lixando pras peruas desse país. Estou pouco me importanto com elas e suas necessidades, tendo em vista as necessidades gritantes que tem a maior parcela da população.
As alfinetadas de quinta categoria - simplistas, reducionistas, tolas - que o autor faz para o governo são patéticas. Mas essa personagem revisitando o já totalmente ridicularizado movimento(???) "Cansei", me deu engulhos.E é um desperdício com uma atriz do gabarito inquestionável de Marília Pêra, sempre fantástica..um desperdício de talento.Ver uma de minhas atrizes favoritas com cenas dessas me deixa irritada mesmo.

Me salva, Gilberto Braga!

04 abril 2008

Circo de horrores ou a festa sobre Isabella
















Não é novidade para ninguém que parte da humanidade tem uma necessidade de conviver com o horror,com a violência,em um êxtase sádico asqueroso.Não foram poucos os que berraram para gladiadores no Coliseu,nem tampouco os que foram assistir aos espetáculos de decapitação do período do terror francês.Muitos outros elementos estão envolvidos nisso,claro,eu sei.Mas uma boa dose de curiosidade mórbida também.
Basta ver onde se formam filas quilométricas quando a Unicamp abre suas portas...o quê? você ainda tem dúvida?Sim,formam-se filas mastrodônticas na anatomia,isso mesmo,pra ver corpos.
Também não é novidade para ninguém que parte da imprensa vive dessa curiosidade,alimentando-a calorosamente.
Mas os fatos recentes,ainda que eu saiba de tudo isso,me chocaram.
Estou falando da menina Isabella,que morreu na queda de seis andares,na cidade de São Paulo.
Eu não sei quem foi,a polícia também não,a investigação ainda está aberta.
Mas parte da imprensa já julgou,já condenou e faz um circo aterrorizante,incitando as pessoas ao ódio.
Ontem eu vi uma emissora que ficou HORAS discutindo esse assunto,ou melhor,concluindo com uma autoridade dada sei lá por quem,que o pai seria o assassino.
Pode ser,não sei.Mas o fato é que a condenação dessa pessoa de forma precipitada pode fazer reviver - como lembrou a Frou ontem - o caso da Escola Base,onde os donos foram acusados e perseguidos pela imprensa por uma suposta agressão sexual dos alunos.
Apesar de provada sua incocência,hoje em dia estão arrasados,sem dinheiro,sem respeito,sem saúde.Sua vida foi para o lixo.
A polícia,querendo mostrar serviço a população,já acusava o pai nas primeiras horas:acharam um fulano dentro de uma situação realmente confusa e parecem querer provar sua competência.
Fiquei pasma,eles deduziram que o corte da rede protetora foi feito com uma tesoura e - pasme,leitor - acharam uma tesoura na casa.Oh!!! algo absolutamente fora do normal,certo? afinal ninguém tem tesoura em casa? você tem??? que horror,pode ter sido você.
Por algum motivo que não entendi,os jornalistas chamam a mãe de "mãe biológica".
OU eu fiquei louca ou não entendo nada:"mãe biológica" não é a forma de tratamento da mãe que apenas pariu enquanto outra criou?
Esse não é o caso,a menina era criada e morava com a mãe.
As mães leitoras daqui da Casa já deixaram recado na escola dos filhos dizendo "olá,aqui é a mãe biológica do fulano"?Ora,pipocas.
Alguém ouviu uma criança falar "pára,pai" e isso virou manchete.Eu estou falando sério.Um vizinho pode localizar com tanta perfeição de onde veio essa frase?
Uma vizinha do prédio da frente viu o casal chegando juntos.Ela usava binóculos?
Um jornalista(!) com cara de "saquei tudo,crianças,me ouçam e aprendam",ficou horas ontem,instigando a população a ver o pai como assassino.
Vários desocupados deixaram seus - aparentemente poucos - afazeres para ficarem do lado de fora da delegacia,fofocando.
Que medo dessa gente.
Nos primeiros momentos,a mãe da menina disse que duvidava de uma suposta culpa do pai,por perceber o carinho e amor com que ele sempre tratou a menina.
Essa mãe ficou três horas e meia trancada com uma delegada,na saída,disse que queria que a "justiça fosse feita".
Uma mãe que acabou de perder a filha de forma brutal,seria alguém perfeitamente influenciável,não seria?
Presos e separados,a madrasta e o pai estão na mira dessa imprensa mórbida,onde poucos dão sinal de lucidez - como fez Alexandre Machado,hoje de manhã,lembrando inclusive,da Escola Base - e outros prometem a população sedenta de sangue:"separados,eles entram em contradição..."
Claro que sim,podem até se acusar,inclusive.Essa técnica já colocou mãe contra filho,avô contra neto.
Torquemada que o diga.

04 abril 2007

os acéfalos de Jim Jones


Outro dia eu conversava com uma amiga sobre notícias e filmes que marcaram a nossa infância e início da adolescência. Lembramos, entre gargalhadas, do Homem Cobra, um filme pra lá de trash que aterrorizou uma geração. Lembramos do desastre de avião onde os sobreviventes comeram carne humana.

Mas eu estava me lembrando de Jim Jones e o massacre na Guiana. Me lembro de ler sobre o suicídio coletivo daquelas pessoas, dos seguidores do tal pastor, mentor, lunático de plantão.

Durante muito tempo, aquilo ficou na minha mente: as fotos na Manchete, a planta da fazenda, a descrição de homens , mulheres e crianças que se mataram propositalmente, para seguirem a opinião de Jim Jones.

Me assusto com os seguidores, com aqueles que preferem infiar qualquer coisa goela abaixo - ainda que seja veneno - apenas porque não podem, não querem ou não conseguem discordar.
E percebo como a questão de estar no grupo, estar na matilha, é nevrálgica. Temendo a exclusão, o indivídio se perde dentro do grupo e encontra nele, sua proteção e afago. Assustador.

E penso, sempre, como discordar, como não seguir a matilha, pode ser libertador.Pode garantir ser um indivíduo, certo ou errado, mas um indivídio que pensa por si mesmo. Sem a necessidade da aprovação, do afago infantil, do meneio de cabeça.Penso que discordar, se há necessidade disso, pode proteger seus princípios.
Pelo menos, pode impedir o veneno de agir.