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30 agosto 2011

O Susto que a Rita me deu


Desde que comecei a ler a Rita, eu adorei.
Eu gosto quando ela fala das descobertas dos filhos. Eles estão naquela idade fascinante em que entendem o mundo aos poucos, de forma única, parecem ser uma versão do Flaneur de Baudelaire - tão bem discutido por Benjamin- que se perde e descobre a cidade com o olhar único da "primeira vez". Quando a Rita fala sobre os filhos, eu vejo o mundo se descortinando pra eles e isso me encanta.
Eu gosto de tantos outros temas que ela trata, mas tantos, que se eu ficasse falando aqui, ia ficar uma rasgação de seda quase insuportável, então, escolhi uma coisa.
A Rita está participando de um Meme muito bacana sobre leitura, são trinta sinopses de livros - com motes diferentes - em trinta dias.
O tema dia 06 era um livro de seu autor favorito. Depois de relativizar um pouco esse conceito do "favorito", Rita me fez pular da cadeira.
Porque ela disse o que eu sentia sobre Clarice Lispector , mas nunca havia conseguido traduzir. Hoje, Rita foi minha Clarice.

Disse a Rita:


"Ela veio tarde, eu já estava na faculdade. Mudou tanta coisa, mudou minha relação com a linguagem, mudou minha forma de estudar literatura, mudou minhas preferências. Irreversível. Clarice é irreversível: não posso mais sem ela. Maior que as mudanças foi justamente o seu oposto: o reconhecimento. Leio Clarice aos sustos: como ela sabe? Eu não contei isso pra ela! Pois ela sabia. Tinha a lupa que mostrava as almas. Bruxa."
(grifo meu)

19 agosto 2011

Não leiam nunca





Queridos, vejam o que horas em sala de espera faz com uma criatura: li uma biografia da Madonna.Estou com preguiça de anotar o nome do livro e certamente nunca mais me lembraria do (péssimo) autor.
É um lixo.
Por que eu li? Ah, eu trouxe Thomas Mann para o hospital: eu sei,sou retardada.
Procurando uma leitura mais leve, achei essa pluma esquecida na casa do meu irmão e fui ler. Putz.
Madonna é, sem sombra de dúvida, um ícone, uma marca, uma mulher de fim de século: merece não uma, mas muitas biografias. Esse cara pegou esse material, misturou no liquidificador, bateu com os filmes mais babacas que vc já assistiu, com textos de estilão Sidney Sheldon e suas bad girls fatais e criou algo que parece a matéria prima de um roteiro de baixo orçamento e brega.
O livro é repleto de cenas em que Madonna é descrita como selvagem, como dominatrix por excelência, lotado de frases clichês, parecidas com aqueles filmes idiotas que ela fez na década de 80.
Vamos combinar, se a mulher é aquele ser mutante, como vemos abaixo, como orientar sua narrativa para que a opinião de todos seja convergente de uma maneira tão pobre?

Madonna usa - segundo o gênio que escreveu esse lixo - frases de efeito, estratégias baratas e batidas de sedução e sai com o suposto glamour de uma diva de fotonovela.
Ai,meus sais. E eu adoro essa mulher: acho inteligente, ousada, intrigante. Odiava na década de 80, passei a curtir mais tarde, com outra leitura.
Se você é como eu,fuja desses autores baratos.
Vocês veem o que horas em hospitais faz com uma pessoa? ai,ai.







25 março 2011

Os memes ainda existem


Eu gostava de postar Memes, mas eles pareciam ter entrado em desuso. Achei um na CEcy, e me deu vontade de fazer. Bora.

1)Qual o seu livro favorito?


Cem Anos de Solidão ( G.G.Márquez) sempre em primeiro lugar. Na longa lista dos que adoro saltam aos olhos Música Perdida ( Assis Brasil), Ensaio Sobra a Cegueira ( Saramago) e Se Um Viajante em uma Noite de Inverno ( Italo Calvino)

2) Qual o seu autor (a) favorito (a)?

Hum. Depende da fase. Em geral, Eça de Queiroz, Gabriel Garcia Marquez, Thomas Mann, Neil Gaiman.

3) Qual seu personagem favorito?

Juliana (O Primo Basilio), Sandman ( hq homônima). Na infância era Edmund Dantè
( bullying faz isso com um serzinho..rs)


4) Qual adaptação de livro é seu filme favorito?

Geralmente detesto. Qase todas são uma violência com a obra. Gostei da adaptação da HQ Wachtmen.


5) Qual gênero literário é o seu favorito?


Façamos assim: coloquemos em uma montanha para quiemar todas as m*** da auto-ajuda, tudo o que se escreveu sobre pseudo filosofia, a mairo parte dos best sellers e qualquer coisa que tenha saído da mente do Paulo Coelho. Agora vamos queimar esse lixo.

Tudo o que sobra, eu leio.

E você, leitor(a)? Mate minha curiosidade.

17 março 2011

A Mulher Desiludida de Simone de Beauvoir (1/3)























Queridos amigos, tenho passado um tempo considerável off line. Nada de twitter - que adoro - , pouco de facebook - que adoro mais aidna - e praticamente uma não-blogueira no meu próprio blog. Isso vai mudar nos próximos tempos e até lá, espero que vocês ainda tenham paciência de aparecerem aqui.;0)
Nos últimos temps li coisas interessantes: vou comentá-las uma a uma, com a atenção que merecem.
Mas começo pelo fim. O último livro lido foi A Mulher Desiludida, da super Beauvoir. Como são três contos de grande impacto, contos que dariam livros absurdamente incriveis, optei por falar separadamente sobre eles.
O que os une? São histórias de mulheres em diferentes momentos da vida, mas tão claramente próximas que seria difícil não ver a si mesma, ver uma amiga, ver uma pessoa da família ali. Somos todas nos, de certa forma.
A primeira é uma professora universitária que se dá conta de que está envelhecendo. Seu corpo a envergonha, sua vida parece sem sentido, sua obra parece ter perdido o frescor reflexivo, afinal, apesar da suavidade com que os amigos apontam isso, seu último livro deixa a desejar, repete reflexões já feitas e - assim como a autora - envelheceu.
Seu filho não só desiste da carreira acadêmica - afastando-se, portanto, do universo dos pais - como ruma ao encontro de trabalhos vinculados ao governo francês. Ela, comunista convicta, vê o filho como arrivista, traidor, dominado pela jovem e patricinhesca mulher. Ela pira, briga e rompe com o filho. Insiste em dizer que ele não tem ética e acaba por revelar para si mesma que ele se afastava do modelo que ela pretendia criar, do homem que ela desejava que ele fosse.
Em um interessante paralelo, essa mulher encontra a sogra. Esta, por sua vez, vive uma velhice especial, como diz o filho, "nunca se aborrece", lê muito, ouve rádio, não vê tv, vai a reuniões na célula do partido.
Chama carinhosamente a nora de "minha criancinha" e esta reflete que a vê da mesma forma, mesmo tendo a conhecido com 45 ans e hoje ela ser uma mulher idosa: era como se ela sempre o tivesse sido. Como se fosse a mesma velha, ainda que tivesse 45 anos.
O conto acaba ainda sem a reconciliação da protagonista com o filho, acaba com seua relação "envelhecida" com o marido e com sua angústia diante da repetição de sua obra, que recebe críticas ruins. Acaba no meio da crise e não é dado ao leitor ou leitora uma possibilidade de fim.
A primeira mulher desiludida é essa, eu eu a vi em muitas mulheres.

09 março 2011

Graças pelo divórcio


Terminei , por esses dias, Uma Vida de Guy de Maupassant. Irônico e sutil, desfia a vida de uma filha de nobres toda romântica, que se casa com um aparentemente irresistível cavalheiro.

Em pouco tempo o fulano se revela um escroto, aliás, um super escroto. E ela, amarrada por um casamento indissolúvel, convive com esse sapo até que ele bate as botas, junto com a amante.O filho também é uma decepção, sem caráter e jogador, dissipa o que sobrou da fortuna materna.

Sim, é deprimente e dei graças a Deus pela possibilidade do divórcio e do recomeço.

Claro que não é simples, fácil ou gostoso passar por uma separação. Mas viver atrelada a um relacionamento assim....é pior.

Terminei também o Caso Morel, de Rubem Fonseca. Mediano, o romance reconta a trajetória de Paulo Morais, ou Morel, pintor que decide viver com quatro mulheres em uma nova estrutura familiar. Elas topam, não são ingênuas, enganadas, topam experimentar esse novo harém - "familia", ele corrigia todo o tempo.

A diferença desse sacana pro outro é que aqui as mulheres não estavam obrigadas nada, estavam com ele por livre e espontãnea vontade. Cada um com suas idiossincrasias.

Quando uma delas , que era chegada em um BDSM hard, aparece morta na praia, Morel é preso.

Mas não conto o fim. Leiam e depois me digam o que acharam.

Mas uma coisa , vocês tem que concordar comigo: o divórcio é uma benção.



****post publicado originalmente em 2007.

15 novembro 2010

A Lolita de Nabokov


Sempre que eu ouvia a expressão Ninfeta, imaginava que se referia a garotas adolescentes bonitas e sensuais. Qual não foi a minha surpresa ao ler Nabukov.
O protagonista, cônscio de sua pedofilia, descreve a ninfeta como meninas entre nove e doze anos (!), que mesclariam, para os olhos turvos do personagem, sensualidade e ingenuidade. Não que olhar para meninas de quinze anos não seja repulsivo vindo de um homem barbado, mas olhar para uma criança de nove consegue ser mais asqueroso ainda.
O livro é fantástico.( Eu sempre prefiro obras onde o leitor pode se embrenhar no imaginário das personagens, para além dos que colocam o foco na ação. Em outras palavras, me interessa mais como as personagens percebem a ação, como elas decodificam a ação, do que a ação em si.
Por isso gosto tanto de Virginia, Berlim, do Biajoni.)
No caso de Lolita, a trama efetivamente é chocante. O personagem, H.H. se perde em delírios pedófilos até que consegue encontrar sua presa ideal: a filha da dona da casa onde ele se hospeda.
Não vou abarrotar esse texto de spoilers, porque vocês devem efetivamente ler a fonte, os clássicos não são clássicos por acaso, enfim.
De forma que prefiro chamar a atenção do eventual leitor desta Casa para alguns pontos: a trivialidade da menina, uma adolescente absolutamente comum, que é sequestrada da sua infantilidade e presa a um universo porco de um adulto repulsivo. Ele mesmo percebe o quanto a destrói, seja com seu ciúmes doentio, seja com sua rotina de prostituição, onde os objetos de consumo juvenis são moeda de troca para sexo.
Uma das coisas que achei curiosamente cruel foi a forma como H.H. compreende as mulheres: não há meias palvras, ele sente repulsa por elas. São descritas de forma vulgar, pouco atraente, grosseira e tola. A própria Lolita, garante ele seria interessante por no máximo três anos, pois perderia a "nifescência" e se tornaria - horror dos horrores - uma jovem universitária.
Existe todo um universo curioso dentro de mentes doentias, Nabukov é consciente disso e explora toda a sordidez desse homem que teme mulheres. Por isso, pela maleabilidade estonteante com ele manuseia as palavras e pela pérfida forma como o personagem vê as pessoas, é necessário ler Nabukov.

04 novembro 2010

Gauchismos








Faz algum tempo, o Bia me emprestou alguns livros bacanas, entre eles, o Música Perdida, escrito por Assis Brasil. Na época, muito impressionada com o livro, escrevi uma resenha e a publiquei aqui.
Agora, vendo que a Copa de Literatura vai acontecer, vi que o autor estaria envolvido e achei seu email. Joguei a vergonha no saco e escrevi para ele - mesmo com aquele receio de ser pentelha - e mandei a resenha.
Para minha grata surpresa, ele me respondeu rapidamente e de forma absolutamente gentil. O que reforça minha tese que a arrogância pertence aos mal amados e medíocres, pois quem tem uma carreira sólida e respeitabilidade, não precisa desses artifícios.
Para felicidade do meu ego querido, o professor Assis Brasil elogiou a resenha e pediu (!!!) para linká-la em seu site. Quasei pulei, né, crianças. Afinal, o que uma blogueira comum como eu estaria fazendo por lá? Adorei mesmo, pra mim é uma honra poder dar meus pitacos dentro da obra de um autor tão especial.
Após alguns emails, tomado de "gauchice", Assis Brasil escreveu:

"Buenas (desculpa; é que acordei muito gaúcho, hoje).
Tua bela resenha já está no meu site, inclusivamente com um link para o teu blog.
Mais uma vez, miles de gracias,
e um quebra-costela bem cinchado do
Assis Brasil
PS.: minha gauchice passa; amanhã estou normal..."


Depois de rir com a expressões peculiares desses sulistas, perguntei se poderia publicar isso no meu blog. E ele, ainda no arroubo da gauchice, respondeu:


"Buenas e me espalho! Nos gordos dou de plancha e nos magros
dou de talho!
Mas é claro, guria, podes botar o meu chasque no teu blog.
Vai ficar mais lindo que beijo de prima, e eu mais faceiro
que guri penteado.
Um quebra-costela bem cinchado do
Coronel Assis Brasil [todo gaúcho-homem é coronel --
ainda estou sob o ataque de gauchidade. Depois do meio-dia,
quando eu já tiver engraxado o bigode com um costilhar de
ovelha, já serei brasileiro de novo]"


O site do professor(ou coronel?) Assis Brasil é esse aqui, e pra quem não leu, minha resenha é essa.

*** publicado originalmente em abril em 2008.

10 agosto 2010

"deitar e rolar" e "nem pensar"


Essa proposta quem me passou ontem foi a Luana. Fazer uma lista de personagens literários que eu levaria pra cama - nas palavras da Menina Eva, aqueles de "deitar e rolar" - e os que não passariam nem perto na porta de entrada, ou seja, os "nem pensar".
Vamos a isso...
***** categoria, "na cama com Vivinha"

Leitor, de Se um viajante de uma noite.. do Calvino. Apaixonado por livros, faz dessa paixão o elo com a Leitora. Interessante e meio inseguro, insiste em procurar se aproximar da Leitora, em um caminho interessante e curioso. Um homem sem pedantismo, alguém com quem eu passaria muitas horas.

Rambert, da Peste, de Camus. Um homem que "parecia à vontade na vida", jornalista inteligente, comprometido, confiável.


Athos, dos Três Mosqueteiros, de Dumas. Calado, intenso, protetor. Diferente do cansativo Dartagnan, do Bêbado Porthus e do misto de quase-padre e mulherengo Aramis.


D. Afonso da Maia, patriarca dos Maias, Eça de Queiroz. Creio que o único personagem de Eça que é íntegro, interessante, auto-suficiente. Uma espécie de Locke do Lost versão lusitana.
Não sei com um homem tão interessante foi criar um filho tão imbecil e um neto tão inútil.


Francisco Leal, de Amor de de Sombras, Isable Allende, fotógrafo, atraente, politizado e apaixonado.


Marcos, da trilogia Subterrâneos da Liberdade, de Jorge Amado. Arquiteto inspirado em Oscar Niemeyer, simpático ao partidão, mas sem ser militante 24h por dia, como os outros personagens. Um gentleman cool, uma delícia.


********** categoria "nem pensar"***************



Mathieu, da A Idade da Razão, Sartre. Eu já falei dele, nem vou repetir. Tem tudo o que desprezo em um homem.

Bentinho, de D. Casmurro, Machado de Assis, neurótico, monotemático, obsessivo. Divã nele!

Headcliff, de O Morro dos Ventos Uivantes, Bronte. Já falei dele na Lulu: atormentado, psicótico, um exemplo pseudo-romântico entendiante. Divã + lexotan.

Arhtur, versão Brumas de Avalon, Marion Zimmer Bradley. Banana, dominado pela chata da mulher. Se ele vivesse atualmente seria barrigudo e ela usaria bobs no cabelo.

O Médico, do Ensaio Sobre a Cegueira, do Saramago. Apesar de ser casado com a mulher mais interessante do livro, consegue pular a cerca nas fuças dela. Um bosta.

Estebán Trueba e Pedro Terceiro, ambos de A Casa dos Espíritos, Isabell Allende. Duas faces da mesma moeda, representando a direita podre e sem principios e a esquerda vivendo om um violão e sem privacidade. Não olharia pra nenhum deles.

Dorian Gary, do Retrado de Dorian Gray, Oscar Wilde, um metrosexual sem ética. Tô fora.
.



***** texto publicado originalmente em 2007, quando eu ainda respondia todas as memes que me enviavam. E, olha, sabe que era bacana?

24 maio 2010

Viver pra Contar


Eu estou me acabando nesse livro. (Tudo já começou bem entre nós - eu e o livro - porque ganhei de presente em um café que adoro, aqui em Souzas. Quem me conhece sabe como gosto dessa pequena cidade e sabe como os lugares ali são especiais pra mim. Ganhei esse livro no Maritaca, um café muito charmoso, com um incrível quintal de árvores enormes e muito verde.)
Ganhei de presente porque eu tinha olhado muito pro livro. Olha que motivo mais lindo pra se dar um presente.Lindo e atencioso.
O livro é a auto biografia de Gabriel Garcia Marquez, meu autor favorito. Sei o quão arriscado pode ser afirmar isso tão peremptoriamente, mas é verdade. Eu sou uma leitora voraz há muitos anos e tenho muitos entre os meus favoritos, mas García Marquez é o amor da minha vida.
Nunca outro autor causou tal impacto em mim. Coisa de amor mesmo, engraçado isso. Impactante, ler esse autor pra mim é sempre uma vertigem. E se apaixonar também não é uma vertigem?
Essa autobiografia é incrivelmente emocionante pra quem está um pouco familiarizado com seus textos. A familia e as impressões dele vão se traduzindo nos personagens de Cem anos de Solidão, do Amor nos Tempos do Cólera e outros. Dá uma coisa.
A infinita peculiaridade, a originalidade angustiante, todo o desenrolar das tramas e toda a forma absolutamente deliciosa com que ele trata a palavra, me deixam inebriada.
Ai me acabo de ler, simplesmente apago. Não há um só dos - vários e pesados - problemas que me apareceram agora que resistam a ele.
Fico imaginando como deve ser escrever daquela forma, possuir um talento tão arrebatador.
A primeira vez que li Cem anos de Solidão, pensei que tinha encontrado O Livro, aquele que seria absolutamente imbatível. Eu o reli muitas e muitas vezes depois. Continuo pensando isso.
Agora vou voltar pra Viver para Contar.
Ai somos só nós dois, Delicia.
Eu fico pensando que ainda desejo muito ser Úrsula.


*********publicado originalmente em 2006.

09 abril 2010

O medo da teletela









Acho uma delícia revisitar os autores. Imagino o quanto do próprio leitor impregna a obra, a tal ponto de fazer a releitura, uma operação divertida e surpreendente.
Sempre me lembro que quando me divorciei, li A Peste - eu sei, eu sei, Camus foi escolha equivocada para o momento - e fiquei barbaramente impressionada com o livro. A idéia de estar acuado, limitado, impossibilitado de se deslocar, o medo presente, foram extremamente impactantes para mim.
Anos mais tarde, ainda que tenha gostado da mesma forma, não senti a asfixia da primeira leitura, pois minha localização, enquanto leitora, era outra.
Lembro perfeitamente do impacto que senti quando li 1984 pela primeira vez. Era adolescente e de lá pra cá, reli umas tantas vezes. Fiz isso por esses dias.
A ácida crítica de Orwell tem o poder de ser atual, ainda que a esquerda tenha se remodelado. Creio que todas as críticas gigantescas que ele faz, cabem em qualquer estrutura totalitarista, pois o controle é sempre sua base, mas é indiscutivelmente - infelizmente - que os socos atingem ao que muita gente - como eu, por exemplo - sonhou durante muito tempo.
Imagino que a esquerda só poderá ter uma nova face, que responda às necessidades comptemporâneas, se tiver a coragem de enfrentar discutir elementos como esse.
Discutir a ficção macabra que teve base em uma realidade não menos macabra, como foi o punho solene de Stálin.
Por mais que a direita me enoje - e me enoja totalmente - não posso mais deixar de ver o mundo sem as reformulações, sem a perestroika, sem a glasnot e sem...viva!..o Grande Irmão.
De certa forma, isso me deixa angustiada, me deixa com a síndrome de geração coca-cola, pois ao criticar e ter ojeriza ao capitalismo, não encontro esperança no que pensava ser o socialismo.
De mais a mais, conheço pessoas tão controladas, tão vigiadas, que vivem uma vida sem o mínimo de privacidade, em um arremedo assustador da ficção de Orwell.
O que prova, sem dúvida, que os controladores se mordem de medo de perder seus controlados....e isso seria tão, tão interessante.


***publicado originalmente em 2008.

16 março 2010

Releituras e novas leituras


Faz algumas semanas li Amoz Oz pela primeira vez. Não sabia e nem sei nada sobre ele, comprei o livro por acaso, em uma dessas promoções da Fnac. ADOREI.
O livro se chama A Caixa Preta e é essa "caixa preta" que abrimos aos poucos , através da narrativa dele. O texto todo é elaborado através de cartas e telegramas de diferentes personagens, onde é possível construir e desconstruir a imagem que fazemos de cada um deles e da própria história.Delicioso, inquietante.
Comecei a ler Scott Fitzgerald por esses tempos: não sei se gostei ou não. Não detestei, dá pra ler. Olha que coisa deprimente de se dizer de um autor!! "dá pra ler"...é mais ou menos quando uma mulher conhece um homem e diz "ah, ele é educado". Bom, se ele é "educado", não sobrou um só elogio pra fazer, um caos.Mas assim que terminar o livro, comento melhor.
Reli A Dama das Camélias - não riam! ando assim, com romantismos infantis...rs - ele tem sim sua beleza, claro. Apesar de repetir o esquema "mulher fatal se apaixona e se torna imbecil". E o detalhe dela usar camélias brancas vinte e cinco dias por mês e vermelhas durante cinco....eca....rs.....que nojo! "não venha na minha casa hoje, camélia vermelha".
Reli A Idade da Razão, do Sartre. Lembro que tinha me impactado tanto!
Li com prazer porque a escrita é saborosa, desce goela abaixo como um vinho gostoso.
Mas pelamordedeus...que personagens são aqueles?
A Marcelle é uma neurótica semi-agorafóbica, chata, inútil.
O Daniel é o típico misógino - manipulador. A Lola é uma coitada cheiradora e caçadora de franguinhos bobos. O Bóris É o franguinho bobo. A Ivitch deve ter sido a personagem mais idiota que eu já vi: devia cantar REBELDE! Guria frígida que não suporta que a toquem...
Em uma das cenas bobocas, em um bar, ela se corta, mostra o sangue pra outra mulher, em uma dessas cenas "pra chocar".ZZZZ.......
"Eu sou má, viu? olha que rebelde que sou.....uiuiuiui!!!", batendo o pezinho.Jesus.
Mas o pior mesmo é o Mathieu: um professor que se relaciona quase o tempo todo com esses dois últimos citados, dois jovens alunos. No frigir dos ovos: um inseguro que precisa do olhar ingênuo de um aluno pra se auto afirmar, assim, cita dois ou três autores, uma ou outra frase de efeito e posa de intelectual. Me poupe.
Em um determinado momento, Bóris diz que o viu falar de Kant, bebendo vários uisques, sem se embebedar.
1) o cara falou de Kant = um chato.
2) o cara falou de Kant babando no uisque = pelamordedeus
3) o cara falou de Kant babando no uisque pra um aluno = patético.
Eu ainda vou reler os outros da trilogia, não será um esforço porque eu realmente gosto do trato que Sartre dá a palavra. Só ri muito desses personagens.
Vale a pena lembrar, que quando eu li, mais ou menos na idade da Ivitch, achei tudo maravilhoso. Oh, céus.



***texto publicado orginalmennte em 2006.

21 janeiro 2010

Langsdorff, o fantasma







Se não levo um livro, só posso mesmo partir para as revistas da sala de espera, quando vou ao médico. Li uma, folheei outra,quando achei uma Metrópole - uma revista dominical que vem anexada ao Correio Popular - fui imediatamente ler o texto de Eustáquio Gomes, que é, tradicionalmente, a primeira coisa que leio nessa revista.
O texto, ótimo como sempre, tinha o seguinte título :"A Maldição de Langsdorff".
Eustáquio falava sobre uma pesquisa organizada pela Unicamp sobre a Expedição Langsdorff, organizada por esse genial cientista alemão que veio para o Brasil no século XIX, representando a Rússia em uma ambiciosa viagem de pesquisa.
Pois é, junto com ele vieram Taunay, Rugendas, Hercule Florence, entre outros.
A viagem foi incrível, cortando o Brasil, passando por minha região, estudando plantas, animais, pessoas, hábitos. Anotando, desenhando, estudando cada detalhe. O lance é que houve afogamentos, mortes, loucura. Além de um outro integrante que enlouqueceu durante a viagem, Lansdorff - cientista, poliglota, intelectual - perdeu a razão com cinquenta e poucos anos, no meio do Brasil, no meio da pesquisa. Nunca mais recuperaria a sanidade.
Eustáquio comenta que o primeiro organizador da pesquisa, posteriormente comandada por Danúsio no Centro de Memória, faleceu.
Por que estou contando isso para vocês?
Rapaz, porque eu também participei da pesquisa. Eu trabalhava com microfilmes de manuscritos dele, em português ( ele havia feito anotações me português, alemão, russo e francês). Fui auxiliar de pesquisa do prof.Plínio, que faleceu ainda durante o projeto. Apavorada como sou, lia a brincadeira de Eustáquio e já pensava "pronto, ferrou tudo, Langsdorff miserável.."
Mas tudo vai dar certo, pé de pato mangalô, certo?
Pô, Lansdorff, não me assombre....

****post publicado originalmente em maio de 2008.

11 janeiro 2010

Stardust no papel e na tela












Nessa semana,resolvi reler Stardust,uma obra que fica em um meio termo entre a literatura e os quadrinhos,se utilizando das imagens de maneira nevrálgica no texto,mas não as usando como parte integrante dele.
Para quem não leu,recomendo.Aliás,qualquer coisa criada por Neil Gaiman - aquele gênio - pode ser lida com uma certeza:vai ser delicioso.
Esse inglês apaixondo por gatos,mitologia e literatura,criou algumas das melhores coisas que já li em termos de História em Quadrinhos,como Sandman,por exemplo.
Mas sobre Sandman,falo depois.
Stardust é uma obra delirante,mesclando o fantástico,referências mitológicas (marca do autor) e uma criatividade arrebatadora.
Eu vi a adaptação no cinema,com Daniel.Meu filho achou que o filme não captou na atmosfera mágica da história e eu concordo.
Quando eu vi,achei estranho ver aqueles fantasmas com um humorzinho que mais parecia Gasparzinho do que algo do Gaiman, mas como fazia muito tempo que eu havia lido,não conseguia me lembrar desses personagens.Ainda assim,achei que fugiam muito ao estilo peculiar do autor.
Quando reli,percebi que minhas impressões estavam certas: o capitão do navio que flutua sobre a nuvens e caça raios NÃO se veste de mulher e dança ( humor de quinta...),a cena da morte da feiticeira é completamente diferente da luta (longa,entendiante,repetitiva) dentro do palácio.
O fim é completamente diferente,totalmente água com açúcar,um crime,comparado ao fim criado pelo autor.
Eu sei que várias pessoas acreditam que a adaptação deve ser livre.Mas eu implico com isso.Uma coisa é cortar cenas,adaptar,dar uma oura forma,adequar para ficar palatável em outra linguagem.
Outra é distorcer personagem,criar outras cenas....
Vamos combinar,o roteirista pensou mesmo que ele conseguiria criar cenas MELHORES do que Neil Gaiman? Neil Gaiman,gente...Se é pra criar algo diferente,crie sozinho,não destrua uma história bacana.Isso realmente me irrita.
Então o filme é isso: cenas que não existem,fogem ao estilo do autor,sem atmosfera mágica -característica dele - com alterações água com muito açúcar.
Leia Stardust,mas não a veja.Mesmo porque,o que você vai ver,não será Stardust.

***Publicado anteriormente em fevereiro de 2008.

20 dezembro 2009

Virgínia Berlim















Ultimamente, já andei comentando isso por aqui, tenho feito a releitura dos livros na sequência. A primeira vez que leio é com pressa e gulodice, a segunda, na sequência, é com calma e saboreando. Imitando a tal leitura extensiva de séculos anteriores estudada por Chartier. A leitura que se repete, se repete.
E hoje, o livro que passou por essa primeira e segunda mordida foi Virgínia Berlim de Luiz Biajoni.
O livro é curto e encerra em si o início, o (não)desenrolar e o fim de um amor. Amor do personagem principal - cujo nome não chegamos a saber - por Virgínia, sobre quem pouco ou quase nada nos é dado a saber. O estilo é instigante, as palavras são exatas e a angústia que vai assolando o personagem magicamente toma conta do leitor.
Virgínia aparece na história como um ser insosso; "para mim, ela era como as outras; uma escriturária sem sal. Nem bonita eu a achava. Uma loira pálida, peitos pequenos, bunda caída". O autor ainda a socorre rapidamente; " Era jovem e tinha um certo frescor, umas sombrancelhas arqueadas, inquisidoras".
Mas é enfático: "Mas no geral, era ninguém."
Essa frase perseguiu minha leitura e durante todo o desenvolver da trama eu me perguntei quem era Virgínia.
Mas não sei, uma ninguém.
A despeito disso essa personagem beija o narrador surpreendentemente, iniciando algo confuso - e doloroso - para ele.
Como foi para Virgínia? Não sei.
A história é narrada do ponto de vista do narrador e assim como ele, ficamos limitados a figura do observador, vendo Virgínia entrar e sair do apartamento sob olhar do narrador.
O livro pode( aliás,deve)ser lido com o acompanhamento do cd que vem no encarte. Uma idéia original que consegue colocar o leitor um pouco mais profundamente no apartamento do narrador e dentro de sua ansiedade.
Um apartamento de um homem "soturno" - chamado assim por algumas namoradas e por ele mesmo - com livros e muitos discos de vinil. Sim, vinil.
Apesar do livro não trazer localização delimitada do tempo onde se passa a história, o médico que o atente tem celular, assim, suponho que o autor colecione vinil por opção, não necessidade técnica.
Assim, sem sobre aviso, Virgínia entra na vida no narrador. Mas não se trata de um romance, de uma paixão avassaladora ou romântica da parte dela(ou se trata?). Virgínia entra e sai do apartamento do narrador algumas vezes nos dias em que ele está impossibilitado de sair.
Após o surpreendente beijo, sem compreender exatamente o que havia se passado, ele ouve música, bebe uísque e tropeça no copo, cortando furiosamente o pé.
Então temos o narrador recluso à força. Cortado profundamente, sem equilíbrio, sem ficar em pé, um pouco ridículo. Ou seja, se não fosse um corte no pé, seria a melhor descrição para alguém apaixonado.
Curiosamente,tomado pelo corte e pela paixão,o narrador está indefeso diante do que acontece.
A mercê das dores que o imobilizam : "o pé latejava e sentia uns calafrios. Não sabia se era por causa do pé ou por causa..."(pág.11)
Em alguns momentos tem clareza do objeto de sua dor/desequilibrio:
"Virgínia era a causa desse ferimento, dessa confusão toda. Se não estivesse aparecido aqui eu estaria hoje, restaurado, pronto, inteiro, intacto." (pág.11)
Mas ele não está intacto.
O narrador é tomado pela ansiedade, pelo desejo da presença de Virgínia, de quem ainda não sabemos - e nem saberemos -muita coisa. Ela não fala, ela não se mostra, ela recua quando ele tenta fazer com que ela apareça.
Enquanto isso, jorra amor do narrador, mesmo quando a pia do banheiro quebra e jorra água por todo lado ( o símbolo mais sexual dentro do universo onírico), absolutamente sem controle.
Assim,de uma hora para outra, depois de uma das despedidas dela que a ele pareceu definitiva, ela morre.
"Foi nesse domingo quente de verão que ficamos todos sabendo que Virgínia estava morta."
Todos nós: o narrador, o namorado médico, a mãe, a polícia e nós, os leitores. Sabemos que estava morta, que fora em um quarto barato de hotel e que talvez possa ter sido suicídio. O bilhete no bolso, que hora parecia poesia, hora bilhete suicida e hora receita de bolo, desaparece. Ela desaparece.
Então, com em quase todo amor, nasce de repente, dói e dá prazer, morre e cicatriza. Como o corte do narrador.

E eu terminei o livro com a sombra de Virgínia, quem era a garota de bunda caída, cabelos tingidos, tropeçando nos cadarços,que havia morrido? Por mais que eu leia e ouça o cd, acho que nunca vou saber. Nem o narrador.
Na introdução do livro o Alex Castro diz que o "Bia escreve pra caralho". Mas como eu sou uma dama, não digo essas coisas. (Mas que ele escreve pra caralho, ah, escreve.)

17 dezembro 2009

Ode para Música Perdida












Eu li Música Perdida nessa semana. E eu fiquei me perguntando como eu ainda não tinha lido nada de Luis Antonio de Assis Brasil. Lê-lo foi fantástico e quero ler tudo que ele escreveu.
O livro me envolveu e comoveu intensamente. Não estou falando em termos sutis ou com um levantar de sombrancelhas intelectualizado. Me comovou às lágrimas, aos soluços.
O livro narra a vida do maestro Joaquim José Mendanha: na cena inicial,um velho maestro morador de Porto Alegre. Cena esta que, após a leitura do livro, se torna absolutamente ressignificada e emocionante.
Entrecortado por flash backs, o livro reconta o início da relação do maestro com a música, começando com a constatação do seu "ouvido absoluto", feita por seu pai, um singelo músico de uma pequena cidade. Nesse momento, ele é Quincazé e conforme os flash backs vão avançando no tempo e na trajetória do músico, ele é chamado de Joaquim José, militar, maestro.
Nessa trajetória, iniciada com o pai, o maestro encontra e se influencia profundamente por outros dois homens: um rico músico de outra cidade e um padre no Rio de Janeiro.
A diferença na relação entre eles é grande, a provável paixão do professor pelo então jovem músico e seu desejo de que seu protegido avance artisticamente, a visão do padre, temeroso do brilhantismo, temeroso da soberba. A morte dos três instaura ao maestro o peso da cobrança, do devir, dos desejos e espectativas de outros que pesavam em seus ombros, seus três fantasmas, como ele os chamava.
Um dos personagens mais comoventes é Pilar, a esposa do maestro, que assim como a fantástica Mulher do Médico no Ensaio Sobre a Cegueira de Saramago, é o sustentáculo do marido, expresso de forma berrante no próprio nome. A simbiose perfeita do amor dos dois chega a ser dolorosa ao leitor.
No decorrer desse caminho, o maestro compõem uma cantata que julga ser perfeita, nobre - por isso a esconde do padre, evitando críticas a sua suposta soberba - mas comete desatino de mandá-la ao compositor europeu Rossini, para uma avaliação. Assim manda a única partitura, sem cópia. (Sem cópias porque quando jovens, não imaginamos que vamos esquecer, ou não conseguir, ou não brilhar. Tudo é fácil, tudo são promessas ao nosso olhar ainda jovem. E foi assim com o maestro.)
Ele não a recebe por anos, por décadas. E ele passa a vida compondo hinos que considera menores, medíocres. Ele passa a vida emaranhado em algo que ele mesmo não respeita.
O maestro passa a vida em busca da música que havia perdido, em uma metáfora belíssima para o sentido da vida, para a busca initerrupta que acomete a tantos, talvez a você que esteja me lendo nesse momento. A busca que marca todo o livro, ou seja, toda a vida de Mendanha.
Alguns momentos do livro me lembraram Ensaio de Orquestra, de Fellini. Vi há muitos anos, mas uma cena onde cada músico fala sobre as idiossincrasias do seu instrumento, sua personalidade, essa relação específica, esse olhar de músico voltou a minha memória muitas vezes, norteando meu olhar sobre a
narrativa. Me lembrou Salieri observando uma partitura de Mozart em Amadeus, descrevendo-a com os olhos e ouvidos de músico, ensinando, dando a mão ao leitor para que o acompanhasse nessa interpretação tão sutil. Essa cena inesquecível eu vi há vinte anos e me voltou a memória muitas vezes ao ler esse romance.
Assim como o momento em que Mozart dita a música, captada por Salieri com fúria, com admiração, com inveja, cena onde a música aparece do ponto de vista privilegiado dos músicos. Ah, como desejei ouvir dessa forma, criar dessa forma. A velhice do maestro me comoveu, me assustou, a velhice aflora de forma surpreendente para ele e para o leitor. Não estamos esperando a velhice do Maestro, não estamos esperando a nossa própria velhice. A fugacidade e por vezes até a inutilidade da vida começam a doer na leitura. Viver para quê? Onde estava a cantata?
Onde estava, enfim, o sentido da vida?
A Cantataé descoberta, enviada ao maestro, copiada para cada instrumento pela sempre presente e estrondosamente forte, Pilar.
Não é à toa que Pilar é a copista, com sua letra magnífica, mostra o específico(a parte de cada músico) para que se costure o total: a orquestra.
E é nessa noite, na noite do encontro com a música, na noite da definição do Finale, que Medanha morre. Sua música perdida e achada, sua música perfeita é ensaiada, com exceção do Finale. Os músicos não ensaiam o Finale.
Mais uma belíssima metáfora nos acomete, porque, enfim, como ensaiar o final? como ensaiar a morte?
Sem ensaio, tocam com perfeição, lêem o que Mendanha havia escrito. Um pequeno trecho onde ele se apresenta diante de Deus com sua cantata perdida.
O finale do maestro também é perfeito, em seu útimo momento, ouve com perfeição a primeira nota que identificou com seu ouvido absoluto: o "sol".
Após a Música, o enterro, só resta o choro de Pilar e o choro dessa blogueira.
E para o maestro-escritor,só tenho uma única palavra:
BRAVO.

*********** post originalmente publicado em dezembro de 2007.
Esse texto está linkado nas críticas dos livros no site do prof.dr.Luis Antônio de Assis Brasil.


@@@post originalmente publicado em setembro de 2008.

01 dezembro 2009

O Eça da internet ou Um post sobre Branco Leone


Uma das coisas bacanas da blogosfera é descobrir escritores que eu ainda não conhecia. Uma das melhores descobertas foi Branco Leone.
Eu só comprei um livro ( Os melhores (e alguns dos piores) textos de Branco Leone
Albano Martins Ribeiro, pocket, crônicas)
e estou ensandecida pra comprar e ler todos que ele publicou.
Parafraseando Obama, Ele é o cara.
Como me rendi aos encantos de Eça de Queiroz muito cedo, fiquei feliz em ver como Branco consegue ter proximidade com esse estilo: acurado, sagaz, perspicaz, irõnico até o âmago, preciso, cirúrgico.
O livro condensa uma pequena e imperdível coletânea de textos, onde aqueles que foram retirados do seu próprio passado tem luz específica. A forma como descreve sua juventude, a compra de um carro em comum por um bando de jovens de jaqueta de couro, as aulas de piano e a professora com seu português idiossincrático ou a escola de padres são sempre um mote para textos rigorosamente perfeitos, e sempre, sempre, envoltos em uma fina e interessante ironia.
Cara, queria saber escrever assim.


***

Nunca comento as ilustrações, porque espero que o leitor faça a ponte sozinho. Mas desta vez, me permito interferir: a escolha para ilustrar esse textos foi o Real Gabinete Português de Leitura, no centro do Rio, um presente para quem gosta de ler e uma homenagem desta blogueira aos escritores portugueses.

22 outubro 2009

Maus


Depois de anos, finalmente li Maus. Para quem ainda não se deparou, fica a dica, procure uma boa livraria com uma sessão razoável de HQ e leia, leia já.
Maus já pode ser considerado um quadrinho clássico.
(Bem) escrito por Artie Spiegelman, Maus narra a história de seus pais na Polônia quando da ascenção do nazismo, passando pelo gueto e culminando em Auschwitz. O autor optou por construir essa narrativa concomitantemente com a narrativa da própria coleta da história. Assim, podemos ver Artie conversando com Vladek, seu pai, ao mesmo tempo que ouvimos/lemos e, obviamente, sofremos com a história do próprio Vladek.
Artie retrata judeus como ratos - uma interessante ironia envolvendo a forma como eram descritos pelos nazistas da época - os alemães como gatos, americanos como cães.
A fluência da história é incrível, impossível parar de ler, viciante e asfixiante ao mesmo tempo. Poucas vezes vi uma descrição da fome com tanta vivacidade.
Vladek possui hábitos regrados e um senso de economia que vai às raias da loucura. Porque me parece que, emocionalmente, ele não conseguiu sair de Auschwitz, portanto, sua relação com a realidade é diferente.
Além de retratar a bela história de amor dos pais, o sofrimento do Holocausto, Maus consegue trazer a baila uma conflituosa relação entre pai e filho. Nesse caso, entre pai e filho judeus, com toda a carga, todo o peso da guerra, dos campos de concentração e da sobrevivência.
Ler Maus é uma necessidade.

16 julho 2009

Harry adolescente






Chega a ser comovente ver Harry Potter no cinema. Com a vantagem de conseguir o mesmo grupo de atores durante toda a saga, o filme faz com que a gente exclame interiormente, tal qual as velhas tias: "nossa, como eles cresceram...".
É bacana.
Comecei a ler os livros sobre os pequenos e divertidos bruxos para Daniel, quando ele era pequeno. Como já comentei aqui, ele passou a ler sozinho e posteriormente deixou de gostar desses livros, mas eu continuei e li todos. Gosto realmente.
Como gosto de vários outros infanto-juvenis, como Os Meninos da Rua Paulo e Tom Sawyer.
Vi todos os filmes com minha prima Michelle, que chamo de filha e com a qual tenho milhares de coisas em comum, inclusive a simpatia por Hogwarts.
O filme foi uma adaptação bastante interessante, como os anteriores, mas deixa a desejar na cena final, completamente impactante no livro.
O final, repleto de tramas em aberto, deixa o espectador - assim como deixou o leitor - com a curiosidade a mil. Não conto aqui, pra não dar spoiler, ok?
As cenas de quadribol continuam dinâmicas de deliciosas - ainda aguardo um jogo virtual assim...- Snape continua ambiguo e macabro, mas as tramas são menores em relação aos outros livros, por dar espaço ao momento "love story" adolescente.
Mas fica bonitinho, não cai na pieguice, e acho que fica inevitável lembrar das agruras dos "amores eternos" que assolam nossa adolescência.
No mais: destaque para as crises de Draco Malfoy, que refletem bem alguns dilemas adolescentes em relação às expectativas dos pais e mentores e em relação à sua própria identidade.
Além disso, novamente a Penseira de Dumbledore, local para se derramar as lembranças, guardadas em frascos e nas quais se pode mergulhar é absolutamente fascinante. Já estava presente no livro anterior e tem função preponderante no último - e imperdível - da saga.
Helena Bonham Carter como Belatrix Lestrange está absolutamente perfeita: louca, louca e louca.
Assistam e se divirtam, beijos.

23 maio 2009

Dia de rever gente





Eu sai mais cedo de um curso que faço aos sábados pra ir direto pra livraria Cultura, porque minha querida amiga Andréia T. Couto estava lançando um livro : O Lutador, um romance que vou resenhar aqui, aguardem.
Andréia é uma pessoa ímpar: fez Letras, Mestrado em Comunicação, Doutorado em Desenvolvimento Sustentável (na Engenharia Agricola, uia), morou na Alemanha, na França e há alguns anos encanou que iria escrever algo sobre Ruanda.
Beleza, pesquisou, fez contatos, mala, juntou uma grana e se aboletou em um avião rumo a África Central. Voltou no ano seguinte e preparou um livro reportagem, porque, mesmo com esse currículo bacana, decidiu fazer outra graduação, agora em Jornalismo. E fez.
Conheci Andréia Couto em 1993, quando éramos professoras na mesma faculdade. Hoje lembramos de umas histórias pitorescas de lá, qualquer hora eu conto.
O que eu adoro nela é esse jeito de se jogar no mundo, essa independência, essa vivacidade que quem a conhece sabe como é.
Hoje, além da alegria de conversar com ela e com seu marido Henrique - segundo ela, "uma delícia, um homem que não se acha mais nem com lanterna acesa" - ainda revi um monte de gente da Unicamp, pessoas que não via há séculos.
Fomos conversar em um bar : um bar anônimo, escondido, coisas de intelecutal, sacumé. Bar Bambu, anote aí.
Eu, como sou uma pobretona, gosto de lugares mais bonitos, porque pobre gosta de luxo, como ensinava o mestre Joãozinho Trinta, mas gostei desse: porções deliciosas, sandubas indescritíveis e cervejas de todas as partes. Como só tomo refri, a cerveja foi um toque bacana só pra ver mesmo.
Conto melhor depois, inclusive as explicações sobre as escolhas profissionais de cada um : Dudu, por exemplo, foi fazer Filosofia pra fazer a Revolução.
Somos filhos de outros tempos.
Vale dizer, por hora, que gostei muito. E agora, eu vou me enfiar debaixo do edredon com o romance da Andréia, e conto tudo para vocês.
Té mais.

05 maio 2009

A Novela Cor de Rosa do Bia








Em primeiro lugar, quero dizer que gostei do livro. Começo logo explicando isso, para que ninguém ache que as críticas que faço impliquem em não gostar da leitura, porque gostei.
Dito isso, vamos aos trabalhos. Optei por não fazer ruma resenha propriamente dita, porque isso implicaria em encher de spoilers aqui. Digamos que seja um comentário sobre a leitura.
Bom, mais uma coisa, uma coisinha. Vou tomar a liberdade de chamar o livro apenas de "Uma Novela Cor de Rosa", como Bia fez quando falou na FILC. (Assim evito piadas como a da Karen, que chamou "Ô, Bia, vem logo autografar a NOVELA da Vivi..", e não, ela não falou "novela", a doida.)
Então, vamos ao texto, de uma vez por todas.
Na minha opinião livro é oscilante: alterna cenas com vigor dramático e fortes cores cinematográficas - me arrisco a dizer que você consegue ouvir o barulho da batida do carro de Tiago - sem perder o rítmo e o foco, com cenas absolutamente dispensáveis.
Cenas que ficam perdidas e mal se sustentam, aparentando uma inserção no texto à forceps. Parecem estar ali apenas para marcar território, para alimentar a aura "ousada" já iniciada em Sexo Anal. Aliás, acho Virginia Berlim tão superior a Sexo Anal que realmente não compreendo porque se fala mais dele. Enfim.
O livro começa muito bem, mas perde o ritmo e fica entrecortado com cenas que poderiam ter sido reescritas. A cena em que Monique assedia o dr. Lobo é tão bizarra que poderia ser roteiro de pornochanchada anos 70. Mas obviamente esse era o intuito do autor, que constroi outras cenas que transitam entre o cômico e o escatológico sistematicamente.
As personagens femininas são um caso à parte, em uma trajetória que vem desde Virgínia Berlim, passando por Sexo Anal e culminando em Uma novela cor de rosa, elas são sempre notoriamente amorfas. Nem diria burras, elas são "um nada" - como na descrição de Virgínia - e seguem profissões que enchem seus dias sem maiores compromissos intelectuais. Valéria diz que poderia ser manicure ou cuidar de crianças, não há nenhuma ligação mais intensa com sua profissão ou com qualquer coisa mais profunda, são mulheres assustadoramente rasas. O curioso é que são muitas: uma horda de mulheres-nada.
Por alguma razão, as mulheres dos livros do Bia são absolutamente insossas, incultas e até tolinhas. Quando alguma é mais forte ou intensa, isso se dá no âmbito da sexualidade. Mulher mais poderosa é mulher comedora e pensa com os países baixos.
Ponto a ser discutido com mais vagar, mas por hora, apontado aqui neste texto.
Diferentemente de Sexo Anal, que mostrava o lado perverso da imprensa marrom, a história de Uma Novela Cor de Rosa perpassa um jornaleco de uma cidadezinha de 100 mil habitantes, não há, portanto, cenas grotescas que apresentem o lado B do jornalismo. No máximo, apresentam a parte burocrática e cotidiana. Isso é fascinante: o texto não procura mostrar o lado fascinante, mas o lado mesquinho, pequeno, rodrigueano mesmo.
Porque você pode esperar tudo de Biajoni enquanto escritor, menos que ele seja óbvio.
Curiosamente, parte significativa dos homens casados do livro é vidrada por travecos. As meninas são visitadas geralmente nas segundas feiras, que seria o dia dos casados da cidadezinha fazerem a festa, após a frustração do final de semana com a esposa.
O jornalista escroto de Sexo Anal reaparece aqui, apaixonado por Tiago, assim, inustitadamente, surge uma história de amor gay. Isso também não é explorado, Bia não cai em pieguismo politicamente correto simplista. É um amor, ponto.
Sem dúvida, Tiago é o personagem mais interessante - ainda que não inspire empatia propriamente dita - mas, comparado aos outros, é o mais complexo e curioso. O motivo de sua morte - não vou ser tão sacana e contar, fiquem sossegados - é fabuloso: é cínico, é doente, é brilhante.
O tom do livro permite ao leitor imaginar que tem em suas mãos um possível roteiro, como eu já disse, o tom cinematográfico é interessante, bem elaborado e o melhor de tudo, profundamente original.
Imperdivel.