Pra quem conviveu com minha avó Gogóia, era fácil entender. São termos antigos, uns reais, outros inventados por ela mesma.
Babilônia: mulher desarrumada, com roupa estranha. Pode ser substituido por "mal ajambrada". ex: " Olha aquela babilônia ali, ah,que coisa...!"
Guarda Vestidos :guarda roupa, ainda que seja de homem.Ex :"pega ali,no guarda vestidos dos meninos.".
Os "meninos":os sete filhos bigodudos.
As "meninas":as cunhadas velhinhas.
prestimosa : moça prendada e com iniciativa.
ajutório: Ajuda, auxílio nas coisas da casa. "Vivinha, você não vai dar um ajutório pra sua mãe?"
escrúpulo :nojo . Ex " Fulana não come isso, você sabe, ela é muito escrupulosa".
consetir : permitir, deixar.ex: "Papai jamais consentiria isso."
Tágio : apelido do irmão favorito, Carlos.
incomodada : menstruada.
escurruluimcumtrim : acabou. Não, não me peçam pra explicar, não faço a menor ideia.
macaco-do-rabo-comprido: aquele que pede de volta um presente que recebeu, baseado em uma historinha que ela contava. ex;" Devolve isso pra ela, seu macaco-do-rabo-comprido!"
$$$$ Ri muito.Alguém me "explicou" o significado correto para a palavra escrúpulo....rsr....bom,pessoa não-leitora, se ela usasse dentro do código correto...não teria porque estar nessa lista,certo? ah,adivinha! Babilônia também significa outra coisa...rá!
Essa história tem uns dez anos. Eu trabalhava em uma escola deliciosa, com sala ambiente, turma pequena e interessante, onde experimentei e aprendi muito. Uma das atividades que eu fazia e gostava muito era ajudar as crianças a escrever a biografia dos avós, trabalhos que saiam comoventes, lindos. Uma das vezes, pedi a uma aluna que convidasse sua avó pra conversar com a turma. Elas toparam: preparei a moçadinha - uma turma maluca de quinta série, e já falei como as turmas de quinta série são...- pra receber nossa convidada. Ela era uma senhora já bem idosa, bonita, simpática, cabelinho branco e colar de pérolas, "Composta" - diria minha avó. Ela era ucraniana, falou sobre sua infância, as brincadeiras, família, tudo o que eles perguntavam. A curiosidade deles era infindável, foi delicioso. Ela era o centro das atenções, da forma mais respeitosa que vocês puderem imaginar. Contou que ainda muito jovem, fez um treinamento como paraquedista e foi para o exército, trabalhar como uma espécie de enfermeira, durante a segunda grande guerra. Contou sobre toda as mudanças trazidas pela guerra. Explicou que foi se despedir dos pais, que choravam muito, e disse que em alguns meses eles se veriam novamente, não precisavam se preocupar.Ela fez uma pequena, emocionada e significativa pausa e acrescentou: - Eu nunca mais vi meus pais. A turma estava em um silêncio total. Jamais vou me esquecer da carinha deles, quando ouviram essa frase. Contou sobre sua vinda para o Brasil, sobre a pobreza que passou, sobre a barreira da língua. Disse o quanto se esforçaram para que todos os - oito - filhos estudassem, falou com orgulho sobre isso, sobre filhos e netos brasileiros.Saiu da sala com beijos das crianças e tão feliz quanto eles. E ficou na minha história pra sempre.***publicado originalmente em abril de 2007.
Minha avó era uma dondoquinha carioca que se orgulhava de seu piano. Meu avô era um filho de fazendeiro paulista que trabalhava como tropeiro da fazenda. Ambos tinham grana, um certo status e uma vida bastante confortável.
Minha avó, Gogóia, se mudou para uma fazenda no interior de São Paulo, onde o pai foi se tratar de uma série de problemas de saúde. Lá conheceu um jovem chamado Gabriel, que era tão lindo com seus irresistíveis olhos azuis, que já tinha o apelido que carregaria até ser avô: Belo.
Belo e Gogóia namoraram e casaram: ela com 19 anos , recém orfã , ele com pouco mais de 20, tornado pobre por um negócio equivocado do pai. Perderam a fazenda e tiveram uma vida de privações. Diferentemente da juventude, passaram uma vida apertada e difícil. E tendo oito filhos, tudo era ainda mais trabalhoso. Mas devo dizer que não me lembro de tê-los visto reclamando disso.
Minha avó nunca mais teve seu piano, mas isso é tema pra outra história.
Meu avô continuou tocando seu violão, como eu já contei aqui, algumas músicas, como Índia,são impossíveis de ouvir: eu simplesmente choro mesmo, mesmo que eu tente dar uma de durona, é fogo, não dá. Abro a boca.Me comove demais. Ele tinha uma bela voz de seresteiro e algumas das noites mais lindas que tive na infância foram no sítio do meu padrinho: os tios , tias, primos, sentados nas cadeiras e redes, sob a luz do lampião, ouvindo meu avô cantando e tocando violão. Dá um nó na garganta só de lembrar.
Tenho sonhos nonsense com eles. Conversamos muito nesses sonhos.
- vó, agora que você morreu , vou te ver menos, né?
- ah, vai ser assim.....rindo
E falamos normalmente: ela do lado de lá e eu do lado de cá.
Mas a saudade ainda é insuportável.
NOITE CHEIA DE ESTRELAS
(cândido das Neves)
Noite alta, céu risonho,a quietude é quase um sonho...
O luar cai sobre a mata,qual uma chuva de pratade raríssimo esplendor.
Só tu dormes, não escutas o teu cantorrevelando a lua airosaa história dolorosa deste amor.
Lua, manda a tua luz prateadadespertar a minha amada!
Quero matar os meus desejos,sufocá-la com meus beijos...
Canto, e a mulher que eu amo tantonão me escuta, está dormindo.
Canto e, por fim,nem a lua tem pena de mim,pois, ao ver que quem te chama sou eu,entre a neblina se escondeu.
Lá no alto a lua esquivaestá no céu tão pensativa...
As estrelas tão serenas,qual dilúvio de falenas,andam tontas ao luar...
Todo o astral
ficou silente para escutar o teu nome entre as as dolorosas queixas ao luar!
Essa foi uma das poucas reproduções que encontrei no youtube. Não é um cantor famoso, é um anõnimo que cantou e postou a música que gosto tanto e que tanto me lembra o vovô. Duvido que um Botelho escute isso sem lutar contra o choro.
Essa escolha aqui é óbvia,mas é necessária.Marcou padrões,estabeleceu algumas gírias que perduram até hoje,meu filho me chama de "Isaura" às vezes,por exemplo. Foi um produto de exportação e parece marcar o imaginário de uma geração.Um professor brincava dizendo que Bernardo Guimarães era tão racista que só poderia meesmo se condoer de uma escrava...branca.E eu concordo com ele.Pena da branquinha,certo? Branquinha ouvindo "Tire minhas botas,Isaura!" parecia algo inimaginável.Tanto para o autor no momento da elaboração do livro quanto no momento da adaptação para a tv,feita por Gilberto Braga,o sempre fantástico,Gilberto Braga. A abertura elaborada com gravras maravilhosas de Debret,dá de presente para o telespectador essa música deliciosa.Eu adoro essa música.Aliás,virou uma espécie de código:cante "lerê....lerê" e todo mundo já saca o que é. Eu via todo dia,na casa da minha avó,comendo batatinhas fritas.Estava na quarta série e estudava à tarde,como minha mãe trabalhava,eu ia pra casa da minha avó.E eu adorava isso.Me lembro de ver minha avó trabalhando o tempo todo,cozinhando,limpando,só parando quando eu chamava pra ver a novela.Escuto a música e estou lá de novo,sentada,chamando :"vó...começou!"
Eu já disse pra vocês que é impossível pra mim, ouvir as músicas que meu avô tocava e cantava sem chorar. E é. A saudade me bate tão forte que é insuportável.
Essa música aqui ele cantava de forma tão linda, pena que eu não tenha gravado pra mostrar pra vocês.
Pensem em um monte de crianças em redes, adultos espalhados em cadeiras, pensem em uma grande varanda e um luar absurdo. Pensem em isso tudo iluminado por lampiões, pensem nesse sítio e nessa família.
Pensem em um velho com seu violão, cantando pra sua família e pra lua.
Eu me lembro, eu me lembro de forma tão intensa que dói.
Essa história é mais recente, deve ter uns três anos. Eu estava trabalhando em outra escola, totalmente diferente, mas muito interessante. Escola católica, estrutura monstruosa, luxo, coisas assim.
Eu estava fazendo chamada e sempre comentava o nome dos alunos ( hoje em dia, trabalhando nos cursos de engenharia, isso já não existe, por uma questão prática), falava o significado ou contava sobre um xará histórico, algo assim.
Um dia, empaquei em um sobrenome.
- A., você tem um sobrenome super bonito: Caro. É o sobrenome de um pintor super importante , sabia? o Bernardo Caro.
- Você gosta dele?
- gosto muito...sou fã. E ele mora aqui mesmo na cidade!
- ( toda feliz) ele é meu avô.
- sério????? - quase dando uns pulinhos.
- Ahã.
- (pra turma) Pessoal, vocês sabiam que a A., é neta do Bernardo Caro???
( interrogação geral)
- ele é um pintor super importante, blablabalbalabl.......
- ( pra A.) Diga pro seu avô que adoro o trabalho dele, ok?
- Vou dizer sim, Vivien - toda sorridente.
***** minutos depois , no corredor *******
Aluno - a A., tá se achando lá no pátio, porque você disse que o avô dela é um artista importante.Ninguém sabia....
Descobrir a própria família e a própria identidade é uma viagem,muitas vezes o olhar do Outro pode ajudar.
Acho que participo da última geração que teve a vovó tradicional, estilo D.Benta - mas sem tanta erudição - com cabelinho branco, vestindo chemisier e fazendo tricô.
Acho fantásticas a neo-avós, entre elas , minha mãe. Avós que trabalham, dirigem carros, se mantém vaidosas e não sucumbem aos cabelos brancos. Eu adorava o cabelinho branco de minha avó e seu jeito matriarca de ser. Sei que isso é único e poético.
Mas sou uma historiadora sem saudosismo, gosto das mudanças, mudo com elas e espero continuar assim.
Quando uma aluna dizia que a avó "estava no nordeste com o namorado" ou que a tinha ajudado no trabalho de História , "porque adorava ler, discutir e era desembargadora "( Ambas histórias são exemplos reais de muitos outros) eu achava o máximo.
E quando vejo mulheres na faixa dos sessenta anos, mantendo não só a vaidade, mas a beleza da maturidade e não pretendendo ter vinte ( com algumas escravas do botox) , acho o máximo.
Aqui em casa temos umas piadinhas internas com minha mãe: sugerimos que ela use avental, que faça gloriosos almoços de domingo. Ela faz um muxoxo, ri e diz que prefere pagar o restaurante. Quem tem mãe ariana sabe como é. O bicho aceita sempre que os outros digam a última palavra....que deve ser: sim.
Eu venho de outra geração, pra mim, o avental não é o mesmo signo. Ela tem ojeriza por ele, porque representa um modelo que ela procuroudestruir. Eu o uso com prazer, porque a geração dela fez esse trabalho pela nossa: estraçalhou paradigmas e criou novas imagens femininas.
E o signo mudou, como tudo sempre muda. E eu adoro isso.
Talvez , em uma mudança-retorno, eu seja uma vovó D. Benta.
Não sei, só sei que serei uma avó blogueira, com certeza.