06 julho 2008

A Plebe Rude






Não é difícil dizer porque me fascinei tão rapidamente pelo movimento anarquista.
Porque esses militantes, ainda no início do século passado, já compreendiam as mulheres como cidadãs, como pessoas que podiam estudar e produzir.
A experiência de ler os vários jornais anarquistas foi uma porta aberta logo no primeiro ano da graduação, onde não só aprendi as delícias de me perder horas em arquivos antigos, como as delícias de um movimento revolucionário até a última gota, como foi o dos libertários.
O incrível nesses caras é que dentro de uma estrutura escolar violenta, autoritária, dogmática e cerceadora, eles criaram escolas mistas, onde os alunos podiam frequentar laboratórios, debater e - maravilha das maravilhas - não havia avaliações, não havia classificações com notas.
As avaliações deveriam servir para que o aluno percebesse suas falhas, seus limites, não para que fossem excluídos ou que houvesse competição feroz, ou pior ainda, que fossem vítimas de vinganças de professores hostis.
Claro que agora, com todos os alunos enlatados na concepção de que é necessário haver nota, fica praticamente impossível nadar contra a maré. Estudar sem esse tipo de avaliação requer uma autonomia, uma independência, elementos que os alunos poucas vezes são estimulados a ter atualmente.
Há alguns anos, pensei em escrever um trabaho comparando a concepção de imprensa que eles tinham, com a veiculada na chamada imprensa burguesa.
Não escrevi esse trabalho, mas participei de duas pesquisas que incluiam os ácratas e isso me deu a oportunidade de ficar horas no Arquivo Edgard Leuenroth, lendo sofregamente jornais como A Plebe, O Amigo do Povo, A Barricada, A Luta Livre, entre tantos outros.
Fiquei familiarizada com eles, um círculo não tão grande, mas incrivelmente ativo, que usava a imprensa como arma, mas não se limitava a ela. Os anarquistas usavam os sindicatos e os centros culturais, demonstrando a compreensão do poder que a cultura tem sobre o coletivo.
Talvez eu tenha me convencido, naquela época, que uma sociedade sem Estado seria possível. Hoje, certamente, essa idéia não me toma. Mas penso como esse ideário pode ser modificador dentro da sociedade, no sentido de perceber o indivíduo como autônomo, como sujeito de sua própria História ( me perdoem pelo clichê necessário..)
Mas só posso dizer que toda a influência deles, em minha vida, foi enorme. E estar com eles, durante aquele tempo, ali no Arquivo, foi deliciosamente inesquecível.
Melhor do que isso, impossível.

12 comentários:

  1. Tenho pensado um pouco essa temática, mas num outro contexto ( o tecnológico).

    Estou elaborando a coisa ainda, pois temo (e muito) afirmar uma grande besteira.

    Mas, quando lemos o manifesto "não sou blogueiro de aluguel" caminhamos para alguma coisa minimamente interessante nesse aspecto.

    Bjão pra vc

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  2. Tar, não sei se compreendi o seu ponto de vista, mas creio que a liberdade da rede vai ao encontro do projeto autônomo dos anarquistas. No caso do manifesto, concordo com ele, pensei em colocar o selo aqui, pois acredito que a liberdade do blog seja essencial para a sua sobrevivência enquanto linguagem.
    beijos.

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  3. Vivian, sou professora de história e dou aula em uma escola construtivista. Na escola que trabalho não temos provas, a avaliação é contínua. Concordo com você, esse método produz resultados maravilhosos, dá trabalho, muito mais trabalho que a avaliação comum, mas quando leio os textos e os trabalhos que os alunos fazem sinto vontade de chorar de alegria, é uma verdadeira luz.
    Parabéns pelo ótimo post

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  4. Cecy, as crianças são ensinadas a estudar "para a prova", certo? Essa frase é dita sempre por um(a) professor(a), o que é muito grave.
    Fico feliz em saber de sua experiência, aproveite o espaço aqui e conte mais!
    beijos.

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  5. Vivien, o maravilhoso de tudo isso é o aprendizado.
    Querida, encontrei uma foto do lançamento, em que alguém conseguiu apanhá-la no flagra.
    Foi a única. Está num post lá na Meg do Sub Rosa.
    Alguém conseguiu uma foto sua. É a prova do crime, ops, a prova de sua presença.
    Beijos menina.

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  6. Aninha, eu vi..hahahah...quase dei uma de Stálin e mandei apagar a Vivien-Trótsky....rsr...o quê? foto sem um fotoshp nervoso?
    ah, não...hahahah.
    beijocas, querida.

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  7. incrível!
    história é minha paixão, por mais que eu esteja envolvida com música e indústria fonográfica, sempre que leio algo, mergulho por horas e horas. tenho meus cadernos de história do ensino fundamental e até das noites que eu me infiltrava no cursinho para poder assistir a aula de um professor maravilhoso de história.
    não segui a profissão por, sei lá, insegurança ou algo do tipo, mas minhas estantes de livro e dvds e meus passeios turísticos são todos para aprender mais alguma coisinha.

    este centro de pesquisa é aberto ao público? iria me esbaldar se fosse lá!

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  8. Gabriela, o AEL é aberto ao público, vc só tem que agendar uma visita, vá até lá, garanto que vc vai gostar.
    Um grande beijo.

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  9. eliza capai5:03 PM

    me lembrei de meu primeiro grau. estudei numa escola construtivista, piloto de uma união universidade federal do espirito santo e prefeitura de vitoria. não era anarquista mas duas das coisas que mais me lembro (e que tenho orgulho) são: um x% de nossas notas vinhas da auto-avaliação. ali nos pensávamos enquanto pessoinhas, nossas atuações e tudo. era bem bacana. e outro era o "recorte de história": tínhamos que levar uma matéria de jornal e comentá-la na frente da turma. era algo simples mas que para mim funcionou nos o que, 13 anos?, como um primeiro instrumento de pensar a notícia, a "verdade", o ponto de vista... é uma pena que o ensino de uma maneira geral esteja tão medíocre tão automatizado...
    lindo seu texto! obrigada!

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  10. Eliza, adorei seu relato. Sempre vejo o quanto de positivo fica quando a autonomia é estimulada.
    Eu fiz várias atividades com auto avaliação ou avaliação da própria equipe, por exemplo. É um exercício de responssabilidade, e para espanto de muitos, uma grande adequação e alto nível de exigência dos alunos.
    beijocas pra vc.

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  11. Vivien pode deixar que vou adorar compartilhar minhas experiências com vocês.
    Adoro seu blog, e antes de começar a dar aula eu passava por aqui e lia seus posts sobre ensino e ficava sonhando com as aulas alternativas que poderia dar pra meu alunos imaginários. Obrigada você sempre me deu muito estímulo

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  12. Cecy, fico muito feliz em saber, volte sempre, grande beijo.;0)

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