24 maio 2010

Viver pra Contar


Eu estou me acabando nesse livro. (Tudo já começou bem entre nós - eu e o livro - porque ganhei de presente em um café que adoro, aqui em Souzas. Quem me conhece sabe como gosto dessa pequena cidade e sabe como os lugares ali são especiais pra mim. Ganhei esse livro no Maritaca, um café muito charmoso, com um incrível quintal de árvores enormes e muito verde.)
Ganhei de presente porque eu tinha olhado muito pro livro. Olha que motivo mais lindo pra se dar um presente.Lindo e atencioso.
O livro é a auto biografia de Gabriel Garcia Marquez, meu autor favorito. Sei o quão arriscado pode ser afirmar isso tão peremptoriamente, mas é verdade. Eu sou uma leitora voraz há muitos anos e tenho muitos entre os meus favoritos, mas García Marquez é o amor da minha vida.
Nunca outro autor causou tal impacto em mim. Coisa de amor mesmo, engraçado isso. Impactante, ler esse autor pra mim é sempre uma vertigem. E se apaixonar também não é uma vertigem?
Essa autobiografia é incrivelmente emocionante pra quem está um pouco familiarizado com seus textos. A familia e as impressões dele vão se traduzindo nos personagens de Cem anos de Solidão, do Amor nos Tempos do Cólera e outros. Dá uma coisa.
A infinita peculiaridade, a originalidade angustiante, todo o desenrolar das tramas e toda a forma absolutamente deliciosa com que ele trata a palavra, me deixam inebriada.
Ai me acabo de ler, simplesmente apago. Não há um só dos - vários e pesados - problemas que me apareceram agora que resistam a ele.
Fico imaginando como deve ser escrever daquela forma, possuir um talento tão arrebatador.
A primeira vez que li Cem anos de Solidão, pensei que tinha encontrado O Livro, aquele que seria absolutamente imbatível. Eu o reli muitas e muitas vezes depois. Continuo pensando isso.
Agora vou voltar pra Viver para Contar.
Ai somos só nós dois, Delicia.
Eu fico pensando que ainda desejo muito ser Úrsula.


*********publicado originalmente em 2006.

17 comentários:

  1. Clélia Riquino1:22 AM

    Vivien,

    Também adoro Gabriel García Márquez. Em setembro de 99 (lembro-me a data pela dedicatória), comprei um livro pro Arnaldo, com a intenção de incentivá-lo a escrever: "Como Contar um conto" – Oficina de roteiro de GGM [Casa Jorge Editorial, 3ª edição, 1995]. Nas orelhas, escritas por Eric Nepomuceno (tradutor do livro), as palavras:

    "Todo escritor tem suas manhas e suas manias na hora de construir uma história. Esses truques de equilibrista, pequenos segredos que se dissolvem nos caldeirões da escritura e dão sabor único aos grandes cardápios literários, costumam permanecer ocultos aos leitores. (...) Pois bem: neste livro você vai poder desfrutar de um privilégio raro. Vai acompanhar o trabalho de um dos maiores narradores do século - o colombiano Gabriel García Márquez - junto a um pequeno grupo de roteiristas. (...) Resultado: no final do livro, você terá convivido durante alguns dias com um escritor que sabe, como pouquíssima gente, arrancar histórias de quase nada. Uma imagem, uma frase, uma situação: ele não precisa mais do que isso para erguer suas narrativas."

    Na Introdução, escrita por García Márquez, uma passagem qu’eu acho incrível...

    O enigma do guarda-chuva

    (...) A coisa mais importante deste mundo é o processo de criação. Que tipo de mistério é esse, que faz com o simples desejo de contar histórias se transforme numa paixão, e que um ser humano seja capaz de morrer por essa paixão, morrer de fome, de frio ou do que for, desde que seja capaz de fazer uma coisa que não pode ser vista nem tocada, e que afinal, pensando bem, não serve para nada? Algumas vezes acreditei – ou melhor, tive a ilusão de estar acreditando – que ia descobrir, de repente, o mistério da criação, o momento exato em que uma história surge. Mas agora acho cada vez mais difícil que isso aconteça. Desde que comecei a dirigir estas oficinas ouvi inúmeras gravações, li um sem-fim de conclusões, tentando ver se descubro o momento exato em que a idéia surge. Nada. Não consigo saber quando isso acontece. Mas nesse meio tempo, tornei-me um viciado no trabalho coletivo. Esta coisa de inventar histórias em grupo, coletivamente, virou um vício. Dia desses, folheando uma revista Life, encontrei uma fotografia enorme. É uma foto do enterro de Hiroíto. Nela, aparece a nova imperatriz, a esposa de Akihito. Está chovendo. Ao fundo, fora de foco, aparecem os guardas com suas capas brancas, e mais ao fundo ainda, a multidão com guarda-chuvas, jornais e pedaços de pano na cabeça; e no centro da foto, totalmente vestida de negro, com um véu negro e um guarda-chuva negro, aparece a imperatriz, num segundo plano, solitária e muito magra. Vi essa foto maravilhosa e a primeira coisa que me veio ao coração foi que ali havia uma história. Uma história que, claro, não é a da morte do imperador, a que a fotografia está contando, mas outra: uma história de meia hora. Fiquei com essa idéia na cabeça, e ela continuou lá, dando voltas. Já eliminei o fundo, me desfiz completamente dos guardas vestidos de branco, das pessoas... Por um momento, fiquei unicamente com a imagem da imperatriz debaixo da chuva, mas logo descartei também. E então, a única coisa que me ficou foi o guarda-chuva. Estou absolutamente convencido de que existe uma história nesse guarda-chuva. Se a nossa Oficina tivesse uma finalidade diferente da que tem, eu proporia a vocês que partíssemos desse guarda-chuva para tentarmos fazer um longa-metragem. Mas nosso objetivo são os filmes de meia hora. Tenho a impressão de que, de um jeito ou de outro, vamos acabar encontrando o tal guarda-chuva no caminho. E quero deixar bem claro que não vou criar nenhuma armadilha para forçar esse encontro... (...)

    [extraído das págs. 14 a 16]

    Depois dele, outro livro, da mesma Oficina de Roteiros, me atraiu pelo belo título: "Me alugo para sonhar" [Casa Jorge Editorial, 2ª edição, 1995], com prefácio & comentários de Doc Comparato, tradução de Eric Nepomuceno.

    Eis o trecho inicial:

    PREFÁCIO

    Em latim as palavras "inventar e "descobrir" são sinônimas. Aliás segundo Aristóteles a multiplicação destes dois verbos teria como resultado o ato de "recordar".
    Se não existem invenções ou descobertas, só recordações, o criar torna-se, com efeito, um admirável exercício da memória. Um incansável esforço do lembrar.
    Esta hipótese seria apenas curiosa se não fosse também verdadeira. Pois um dos efeitos mais perturbadores do ato de criar é aquele que nos dá a sensação de que não estamos descobrindo nada de novo, somente resgatando algo esquecido.
    O talento da criação estaria, portanto, na maneira que utilizamos para revelar aos outros este algo, esta estória, uma vida, saga ou percepção, que sempre existiu, mas que de alguma forma oculta foi esquecida pela humanidade. Ficou adormecida sem emocionar ninguém.
    E é exatamente o que você encontrará neste livro: uma jornada cuja missão é o ressuscitar da verdadeira estória de uma enigmática mulher, Alma.
    A investigação é realizada por vários profissionais da escrita, cada um deles levando a bagagem dos instintos, emoções e das sensibilidades, mas acima de tudo a capacidade de imaginar. (...)

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  2. Anônimo3:42 AM

    E é impressionante como o Gabo guarda histórias de sua infância, tornando seus romances tão autobiográficos!

    E esse é só o primeiro volume.


    Beijo grande.

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  3. Clélia Riquino4:38 PM

    Vivien,

    Onde fica o Café Maritaca, em Sousas? Não conhecemos...

    Ganhei de presente porque eu tinha olhado muito pro livro. Olha que motivo mais lindo pra se dar um presente. Lindo e atencioso.

    Tb achei...

    bjo,
    Clé

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  4. Anônimo5:46 PM

    Isso me parece um caso de amor...
    Beijão, Vi.

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  5. Clélia, maravilhoso!!!!!! Eu vou fazer uma campanha initerrupta pra vc fazer um blog!!!! Quero ler mais.;0)Os trechos dele que vc escolheu são fantásticos.

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  6. Aleksandra, tem volume dois??? ( tremendo)

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  7. Clélia, fica em Joaquim, levo vcs lá.;0)

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  8. Felipe, um caso de amor com final feliz...hahahh

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  9. Anônimo6:46 AM

    Querida,
    fiquei sabendo que será uma trilogia, isso é que é ter história para contar!

    Beijo

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  10. Aleksandra, tô tendo um troço....rs

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  11. Pois é. A Clélia tá com vontade de fazer um blog. Eu dou a maior força. Mas ela quer fazer um blog com citações e indicações. E ela é boa nisso. Todo dia, me brinda, no trabalho, com notícias pertinentes e informações interessantes e eu gosto muito. Mas tem um outro lado que o que ela escreve e esta é a parte que eu mais gosto. Quando recebo as coisas escritas por ela, aí sim é que eu vibro.

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  12. Arnaldoa, então vamos fazer campanha pra que ela escreva!!!!
    Eu tenho certeza que viraá ai um blog pra la de interessante.

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  13. Vivien,

    O blog da Clélia acaba de sair do forno. O endereço é http://www.achadoseguardados.blogspot.com/

    Um beijo.

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  14. Arnaldo, to indo lá!

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  15. Anônimo2:07 PM

    Vivien, Vivien

    Que surpresa agradável seu site, seus escritos.

    Mais micos desses e seria tudo muito mais facil.

    Beijão

    Pablo

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  16. Pablo, depois eu blogo esse mico...rs...

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  17. Oi, querida! De volta ao mundo, separei um tempinho para ler os blogs que sigo. Aí me deparo com você aqui toda derretida pelo Marquez. Então entrei só para dizer que Cem Anos é o livro da minha vida e Marquez meu favorito sem culpas por causa da sua escrita que tem o poder de me arrebatar como nenhum outro autor. Entendo cada linha do seu deslumbre. :-) Tenho Viver Para Contar e devorei cada página com prazer. Gula, gula. Beijão!

    Rita

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