12 dezembro 2006

Uma serenata para tia Nadir


Há alguns anos, quando li A Casa da água, do Antônio Olinto, achei muito tocante como eles se despediam dos mortos na Nigéria. Se a pessoa que tivesse morrido fosse velha, tivesse tido uma boa vida, eles faziam uma festa. Comiam, bebiam, enchiam o cabeção, contando histórias da pessoa, relembrando, homenageando com a memória de todas as aventuras que a vida manda.
Só choravam se a morte tivesse sido de um jovem, tivesse sido de forma violenta.
Se fosse o final da vida, inevitável final de uma vida frutífera, comemoravam com uma serenata.
Minha tia-avó Nadir, morreu. Depois de uma vida linda, com filhos, netos, bisnetos, amigos.
Absolutamente saudável, lúcida e brincalhona até o último segundo.
Eu não a via muito, ela morava em Presidente Venceslau e eu a via muito esporadicamente.Na última vez que conversamos, ela me disse que tinha ido ao médico, ver o coração que andava falhando. Ela disse que falou pro médico:
- Olha, doutor, se eu tiver que morrer, tudo bem, né? Tive mesmo uma boa vida. Mas se der pra eu continuar viva, ah, eu prefiro....
Lembro que eu rolei de rir com isso, mas achei fantástico.
Pra alguém como eu, com uma pressa horrível de viver, com medo patológico da morte, foi uma frase que bateu com força total.
Tia Nadir era irmã do meu avô Gabriel, ou Belo, como todos o chamavam. E era Belo mesmo, com seus olhos de Chico Buarque. Era meu avô filho de fazendeiro decadente, filho que de sinhozinho passou a ser pé de chinelo, íntegro como poucos, poeta, violeiro, pra quem eu não era Vivinha, era sempre filhinha.
Meu avô também não está aqui, parece que agora, quase ninguém está e isso dói.
Posso falar dele e contar suas histórias, mas não consigo ouvir nenhuma das músicas que ele tocava sem chorar. Simplesmente não consigo.
Quando Daniel era pequeno, estávamos vendo uma peça com personagens do Maurício de Souza. Em um determinado momento, o Chico Bento começou a entoar Luar do Sertão. O Chico Bento cantava no palco e eu chorava na platéia.
Meu vô Belo também mereceria uma serenata. Também teve uma vida linda, dura, mas linda. Lotado de filhos, netos e bisnetos que eram todos loucos por ele.
Eu quero fazer uma serenata pra eles, uma serenata de palavras, de amor e de saudades.

14 comentários:

  1. Adoro avós e suas histórias. Viverei várias nesse fim de semana no aniversário de 80 anos da vó da Clau e de suas irmãs (83 e 90)...

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  2. Tarcísio, eu também. Ouvir as histórias de meus avós era algo que eu simplesmente adorava. Vou contar algumas aqui.;0)

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  3. Anônimo5:50 AM

    Lindo, Vivien.
    Me deu uma saudade doída do meu avô.

    Lembro que quando era mais jovem, parecia que as pessoas não morriam, ou a gente tinha uma sede tão grande de viver que não se abalava com as notícias de morte.

    A primeira que me abalou foi perder um amigo, um pouco mais velho, que tinha um sorriso lindo e uma vida inteira pela frente, e morreu de forma tão besta. Nunca esqueci. Foi uma espécie de transição para mim, foi o lembrete que estamos aqui só de passagem, devemos fazer o melhor.

    Beijo.

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  4. Maravilha Vivien, vc conseguiu, através dessa post que é uma verdadeira serenata para os olhos vc homenageou os dois sua tia e seu voinho. Um cheiro.

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  5. Anônimo5:54 PM

    Lindinho, minha querida
    Fiquei aqui emocionada e feliz.
    por te evr assim, escrevendo tão lindamente.

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  6. Clélia Riquino11:56 PM

    Tocante, Vivien. Um lindo texto, uma linda sereneta!

    Ao lê-lo, me ocorreu esta canção:

    Se numa noite eu viesse ao clarão do luar
    Cantando
    E aos compassos de uma canção te acordar
    Talvez com saudade cantasses também
    Relembrando aventuras passadas
    Ou um passado feliz com alguém

    Cantar quase sempre nos faz recordar,
    Sem querer
    Um beijo, um sorriso
    Ou uma outra ventura qualquer
    Cantando aos acordes do meu violão
    É que mando depressa ir-se embora
    A saudade que mora no meu coração

    Na melodia expressiva de uma canção
    Há quase sempre uma bela história de amor
    Há sempre um doce queixume
    Um mistério, um ciúme
    Ou uma declaração musicada de amor

    Cantar
    Ricardo Milo & Godofredo Guedes

    (Beto Guedes a gravou, no disco "Amor de índio", 1978, lembra? Era a última faixa.)

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  7. Clélia Riquino11:58 PM

    errata: era pra ser "serenata", saiu "sereneta", sem querer. Mas cabe...

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  8. Aleksandra, essa idéia da fluidez da vida é angustiante.

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  9. Jan, eles vão ser sempre merecedores de homenagens.

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  10. Clélia, adooooro essa música: eu a ouvi com o Bons Tempos, é muito linda.
    Obrigada pela visita.

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  11. Clélia Riquino4:50 AM

    É verdade, Vivien, eles a gravaram, inclusive, no primeiro CD, "Na Mesa do Samba".

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  12. Clélia, eu tenho. Quando sou fã, sou fã "militante"..hahahah

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  13. Anônimo9:10 PM

    Minha mãe se chama Nadyr. Esqueci de comentar!

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