13 maio 2009

O dia que eu não estava na lista










Acho que eu já disse aqui, tenho um fraco por professor. R. foi um amálgama de professor, namorado e amigo. Atualmente é leitor eventual dessa Casa, apesar da distância.

Ele foi quem me apresentou a alguns autores que nunca tinha lido, quem me estimulou a discutir e -segundo ele -foi a motivação pra eu fazer História.
Mas isso é egocentrismo dele.
O fato é que eu adorava suas aulas, isso é verdade.

Na época do Colégio, eu, R., Dri, seu então namorado e atual marido , Pitty, e outros amigos saíamos da aula e fazíamos um pit stop no bar da frente. Estudávamos à noite e sexta feira era obrigatoriamente dia de beber e jogar conversa fora.

Olhando agora, mais velha e infinitamente mais careta, acho um absurdo grande parte das coisas. Bebíamos por lá e íamos a pé até uma parte do Cambuí, cheia de bares, apelidada carinhosamente de Setor. Isso em uma era pré diluviana em que se podia andar a pé em Campinas, durante a noite.

Na sexta feira, era dia de ver Tati e Carô no Ilustrada, o bar mais bacana da época.

Me lembro de uma noite , andando ao lado da prefeitura, quando um garoto de rua desceu correndo, disparado e apavorado, fugindo de dois jovens.

O garoto agarrou as pernas de R., talvez percebendo, de alguma forma, que poderia ser protegido por ele.

R.segurou o garoto, falou calmamente com os perseguidores - que haviam sido assaltados pelo menino - e resolveu tudo. Mas com uma firmeza, um olho no olho, que não deixava espaço pra discordar. Os caras foram embora, o garoto foi salvo. E eu só pensava : "uau..."

Acostumada aos colegas histriônicos, aquele controle todo da situação era cinematográfico pra mim.

Na época, me encontrava com meu amor eterno da época lá no Setor, ele saia da agência e ia direto pra lá. Tinha ciúmes de R., coisa que só fui entender mais tarde. Antes que eu mesma notasse, ele já tinha notado meu interesse. Se é que dá pra entender isso.
Após o fim do relacionamento com esse namorado, houve algo muito bacana com R.
Como eu estava saindo de um relacionamento que havia me ocupado toda a adolescência e eu estava muito "mudééérninha", vivemos uma coisa esquisita no melhor estilo "relacionamento aberto".Eu achava o máximo na época, mas de forma alguma repetiria a dose hoje em dia.
Já disse, sou infinitamente mais careta.
Quando eu decidi terminar com ele, continuamos muito amigos.Tínhamos um gostoso ritual, cada vez que ele vinha pra Campinas:sair pra almoçar, conversar o dia todo, se despedir sem angústia. Era bom.
Depois, ficamos muito tempo sem nos ver.

Há alguns anos, nos reencontramos em São Paulo, ele vinha pra cá e combinamos de nos ver por lá.Um final de semana pra matar a saudade.
Já fazia alguns anos que não nos víamos. Foi bom e foi ruim. Acho que eu fui esperando o professor e ele foi esperando a aluna e "eles" não foram.Confesso que foi estranho.

Em um determinado momento, desse final de semana de remember, R. começou a relembrar as mulheres que passaram por sua vida. Sei lá porque. Fulana, Beltrana...todas lindas e inteligentes, blablabla.E eu ouvindo.

Mas ele me pulou. Eu estava deitada no sofá e pensei: "porra, ele me pulou".

Não corrigi, nem brinquei com isso. Só pensei que não estava na lista.Foi tão frustrante, me senti como se ele tivesse roubado algo que era "direito" meu, direito a parte de sua história. Talvez eu devesse ter dado um pedala bem dado, exigindo meus direitos, "ô meu filho, você está na minha lista, c***!"

Um dia ainda escrevo pra ele e digo isso. Ou deixo ele ler aqui.



**** publicado originalmente em 13/04/07.

35 comentários:

  1. Adriana12:33 AM

    Vi, adorei...pude atraves das suas palavras...relembrar este tempo...eu continuo moderninha...fazer o que com 2 filhos adlescentes crescendo junto ou se moderniza ou esta fu.....
    De verdade adorei o post...somente voce poderia descrever esta relaçao. Tens o email ou contato dele...gostaria muito de falar com ele (se e que ele lembra de mim)..
    Beijinhos minha cheios de saudades do outro lado do oceano

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  2. Vivien, tuas histórias sao especiais. A forma como tu escreves é muito legal. Sou tua leitora assídua e aprecio muito a maneira como expressas teus sentimentos e contas tuas vivências. Parabéns, guria!

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  3. Vivien, não engula, cobre seus direitos.
    Ninguém merece ser roubado assim, mas talvez ele diga que vc está fora da lista, porque é superior à todas as outras, não pode estar no mesmo nível.
    Tudo bem, mas não deixe passar, esperneie, e mostre que isso não passou em branco prá você.
    Beijos.
    Depois nos conte o anadamento da história.

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  4. Putz! Que sacanagem! Ele te deixou de fora?!?!?!?
    Bom... talvez essa lista dele seja das que "passaram". Você... bem, você não passou, ainda continua lá com seu espaço garantido.

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  5. Adriana, eu me lembro de muita coisa daquela nossa época.;0)
    Mando o email dele pra vc. E ele se lembra de vcs, claro.beijos.

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  6. Thelma, fico muito feliz, gosto muito de te ver por aqui.;0)

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  7. Ana, esse tipo de coisa não se cobra. De mais a mais, um amigo psicanalista - que tb foi aluno dele - me deu uma interpretação muiiiiito interessante desse tipo de coisa.;0)

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  8. Cláudia, deixa pra lá...mas por que raios um homem lista suas ex pra uma mulher??? beijos.

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  9. Olha... esse foi o meu primeiro pensamento: que cara estranho, falando disso numa hora dessas. Só que, como não estava presente, não quis levantar essa lebre; sei lá, vai ver que tinha sentido na hora.
    Mas, pelo que você falou agora, pelo jeito não tinha nada a ver, né?

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  10. É engraçado esse negócio de encontrar uma pessoa querida, depois de muito tempo. Às vezes a coisa rola como se nunca tivesse existido nem um dia de separação. Em outros casos, parecem dois estranhos se encontrando.

    Conforme o tempo passa, a gente acha que cresceu, que melhorou, que evoluiu. E a gente espera que o mesmo aconteça com alguém que a gente gosta, ou que tenha gostado.

    Quando dá esse encontro torto, a gente desanda a pensar que, talvez, o outro não tenha crescido o suficiente, mas depois, a gente também questiona se não foi a gente mesmo que não evoluiu o quanto devia.

    Na maioria das vezes, não é nada disso. Cada pessoa cresce pra um lado. Nem sempre coincide.

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  11. Cláudia, poderia ter sentido pra ele. Homens são incompreensíveis.;0)

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  12. Arnaldo, acho que todos nós mudamos o tempo todo, isso é sempre bom. Ficar a mesma pessoa realmente é algo muito triste.
    Mas tb acho que eu era muito mais facilmente impressionável quando era mais jovem.beijos.

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  13. Viven...
    Vi seu comentário no meu blog... até tomei um susto porque eu nem lembrava mais que tinha blog hehehe
    Mas, vc me fez ter vontade de escrever de novo... quem sabe agora me animo... tenho um monte de blog... todos abandonados... afinal, não dava pra abandonar só um... geraria ciúmes nos outros rsrs Só não sei se ainda a lembro a senha pra postar... será que terei que criar outro blog? Mais um?
    Tava esquecida de como era gostoso esse mundo de blog... andei navegando pelo seu, lendo uns textos... entrando em links...
    bjs

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  14. Tell, espero que vc volte a ativa! grande beijo.

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  15. Vivien,
    É difícil entender por que se enumera conquistas. Acho que às vezes, na falta do que dizer, falamos bobagem. Você tinha dito que o reencontro não tinha sido legal. O mais natural seria o silêncio. Quando alguma experiência é frustrante o normal é ficarmos quietos. Só que o silêncio às vezes faz muito barulho. Desandamos a falar (para calá-lo) e inconscientemente nos vingamos do que esteve aquém do que desejávamos. O esquecimento, na minha opinião, foi inconscientemente proposital.
    Beijão

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  16. Professores têm charme e encantam pelo saber. Acho que todos nós já fomos apaixonados por um ou por uma.

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  17. Desencontro
    Chico Buarque/1965


    A sua lembrança me dói tanto
    Eu canto pra ver
    Se espanto esse mal
    Mas só sei dizer
    Um verso banal
    Fala em você
    Canta você
    É sempre igual

    Sobrou desse nosso desencontro
    Um conto de amor
    Sem ponto final
    Retrato sem cor
    Jogado aos meus pés
    E saudades fúteis
    Saudades frágeis
    Meros papéis

    Não sei se você ainda é a(o) mesma(o)
    Ou se cortou os cabelos
    Rasgou o que é meu
    Se ainda tem saudades
    E sofre como eu
    Ou tudo já passou
    Já tem um novo amor
    Já me esqueceu

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  18. Cadê você (Leila XIV)
    João Donato & Chico Buarque/1987

    Para o filme "Quando o carnaval chegar" de Cacá Diegues

    Me dê notícia de você
    Eu gosto um pouco de chorar
    A gente quase não se vê
    Me deu vontade de lembrar

    Me leve um pouco com você
    Eu gosto de qualquer lugar
    A gente pode se entender
    E não saber o que falar

    Seria um acontecimento
    Mas lógico que você some
    No dia em que o seu pensamento
    Me chamou

    Eu chamo o seu apartamento
    Não mora ninguém com esse nome
    Que linda a cantiga do vento
    Já passou

    A gente quase não se vê
    Eu só queria me lembrar
    Me dê notícia de você
    Me deu vontade de voltar

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  19. Já passou
    Chico Buarque/1980


    Já passou, já passou
    Se você quer saber
    Eu já sarei, já curou
    Me pegou de mal jeito
    Mas não foi nada, estancou

    Já passou, já passou
    Se isso lhe dá prazer
    Me machuquei, sim, supurou
    Mas afaguei meu peito
    E aliviou
    Já falei, já passou

    Faz-me rir, ha ha ha
    Você saracoteando daqui pra acolá
    Na Barra, na farra
    No Forró Forrado
    Na Praça Mauá, sei lá
    No Jardim de Alá
    Ou no Clube do Samba
    Faz-me rir, faz-me engasgar
    Me deixa catatônico
    Com a perna bamba

    Mas já passou, já passou
    Recolha o seu sorriso
    Meu amor, sua flor
    Nem gaste o seu perfume
    Por favor
    Que esse filme
    Já passou

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  20. Sibila4:50 AM

    Vivien, pode bem ser o q o Lord disse, e nesse caso é triste... Ou será q o cara queria dar de "fodão" pra cima de vc (ó como continuo irresistível?). Opinião muito particular: acho q forçar o outro a dizer o q esperávamos dele é mto cruel pra nós mesmos, a ñ ser q o tal outro esteja muito próximo, q possa mesmo nos ouvir. Não sei se é o caso dele, q ego não (aparente/te, pelo menos)? Mandar pra p.q.p. é um bom exorcismo. bj.
    pS: relações abertas já foram meu ideal. Vivi isso na tenra idade (17-22). Furada total!

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  21. Lord, essa foi a interpretação do meu amigo pscinalista. E acho que tem sentido, muitos silêncios e lacunas são mais significativos do que muitas palavras.Mas , como disse, na hora, foi muito frustrante pra mim.bj.

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  22. Lino, bingo.Por ai mesmo.;0)

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  23. Clélia, como sempre: nevrágica e perfeita.;0)

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  24. Sibila, acho que , de qq forma, aquela fala teve seus pontos de auto afirmação. Sei lá.
    Quanto ao tal "reacionamento aberto", foi a única vez que experimentei. Nesse ponto sou tradicional e possessiva, o que é "meu" ninguém tasca!!!beijão.

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  25. o mundo dá voltas e parece que nem tudo gira, escapa... estranho como estas histórias são sempre tão presentes na vida de professores e alunos...

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  26. Ricardo, pois é: impressionar aluno(as) é fácil, deve ser por isso...hahahah

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  27. Minhas sugestões:

    1 - ele ficou sem graça de colocar você na lista, nao sabia que cara fazer na hora de falar o seu nome, e pulou.
    2 - ele pulou pq era obvio que vc estava na lista
    3 - ele pulou para ver vc reclamar

    Sei lá, eu já tive esse tipinho de papo quando era mais nova e de vez em quando acontecia isso de excluir a pessoa, por pura falta de jeito. Se apoquente nao, mas se nao gostou reclame.

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  28. Baxt, gostei de suas opções. Talvez ele quisesse me ver reclamar, mas esse tipo de coisa, não se exige, né?
    Mas o bacana foi o email que recebi de um ex depois de ler o post..."na minha lista vc está!!"...rs..bj.

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  29. R: Adorei o texto e os comentários. Bjos

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  30. Se alguém quiser perguntar alguma coisa a R: fique a vontade.

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  31. O bonito de seu texto é que ele é escrito por quem viveu. E sabe viver bem. Um prazer ler essa história.

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  32. R, que bom que vc gostou.;0)
    Achou o blog da Adriana?
    ****

    E eu quero perguntar: por que eu não estava na lista?;0)

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  33. Ana Carmen, que prazer te ver por aqui.;0)
    Tenho curtido muito seu blog.
    Obrigada e volte sempre.bj.

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  34. Vivien, mulher, reli esse texto achando que já conhecia, mas sem muita certeza. Agora vi que, na época de sua publicação, cheguei a fazer dois comentários nele, hahahahhha... o mais engraçado é que meu último comentário revelou pra mim que, apesar do tempo passado, meu questionamento ainda foi o mesmo: Por que raios o sujeito foi listar nomes das mulheres que teve numa hora dessas?!??!?!? Mas, como você falou, homens são incompreensíveis mesmo... nhé!

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  35. ***Claudia, a lista foi mesmo uma coisa completamente esquisita...rs
    Mas só muito Freud mesmo, certo?
    ahahha
    beijos, querida.

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Queridinho, entre e fique à vontade: