23 novembro 2006

Provas


Quando me divorciei, eu ainda corrigia vestibular.Agora já estou salva desse trabalho de preso, terrível, cansativo e estressante.
Claro que é uma honra participar desse evento,ainda mais sendo vestibular Unicamp, mas o preço pago é alto, não dá.
Nesse caso, eu tive a brilhante idéia de ler a A Peste.
(Agora me diz, quem, em sã consciência, no meio de uma separação, lê Camus e corrige vestibular? ah, fala sério.)
Era mais ou menos assim " espera ai um minuto que vou cortar os pulsos e já volto. Com faca cega, de pão."
A amiga que fazia dupla de correção comigo estava com o pai doente, por isso, também andava esquisita, como eu.
A gente tinha um bizarro ritual, todo dia, como quem pergunta "tomou café" ou algo assim, a gente perguntava " e ai, chorou hoje?"
E a outra respondia, natural, sem expressão nenhuma., amorfa: 'Ah, não...deixei pra chorar à noite" .ou..."sim, dei uma choradinha básica de manhã".
O stress era tão profundo que havia se trivializado: a gente falava dele como quem fala de batatas coradas.
As horas eram passadas na correção initerrupta da mesma, mesma, meeeessma questão. Caixas e mais caixas, com respostas maravilhosas, respostas idiotas, respostas engraçadas , respostas curiosas.
Hoje em dia existe toda uma estrutura, horário de almoço,de entrada, de saída.
Na época não. A gente entrava, sentava e ...mandava ver.
Quando estava verde de fome sai e comia algo. Voltava e continuava em uma pressão formidável.'Gente, olha o prazo...a gente não pode estourar o prazo...ainda faltam sei la quantas caixas!!!"
Nesse ano, em função disso, a gente parou o vestibular.
Só duas bancas - não me lembro as disciplinas - pelegamente continuaram. A gente parou, sentou e disse que não voltava nem a pau.
A gente conseguiu umas pequenas melhoras nas condições de trabalho, coisa que foi melhorada no decorrer dos anos.Mas que causou um auê...ih, causou.
Algumas coisas aconteciam sempre: o povo da Matemática cantava Ave Maria as seis da tarde, com direito a performance.
Lá pelas tantas alguém surtava, chorava, queria ir embora. Algumas vezes ia mesmo e os coordenadores encaixavam alguém da reserva.
Algumas vezes surgiam pelejas em torno dessa ou daquela resposta, a coisa demorava mais. Ainda que corrigindo a quatro mãos, às vezes era preciso chamar a coordenação. ( uma responsabilidade grande, lidar com o sonho daqueles garotos.)
Sobrevivi a essa e outras correções ( a essa e outras separações também) e fico pensando o que me fazia continuar, exatamente o que me motivava. A grana? O desafio?
Não sei ao certo, o fato é que hoje não faço mais isso.Não corrijo vestibular, muito menos lendo A Peste, claro.

15 comentários:

  1. Vivien então a gente pode até dizer, por exemplo, que um bando de médicos carniceiros que existem por aí foi graças a você? :)

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  2. Márcia, não mesmo.;0)

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  3. Ei Vivien,

    Perdão por invadir seu post assim com este comentário genérico mas é que por você ter participado do projeto "sonho possível" agora está automaticamente convidada para a nova onda, o projeto "mico publicável" lá no Indizível.

    Conto com sua participação!!!

    Beijo,

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  4. Deve ser mais fácil que corrigir provas com um peste do lado, né?

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  5. leo, mico é comigo mesma.;0)

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  6. Guga, peste do lado: nunca mais!...rs

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  7. Puxa, eu nunca tinha pensado que corrigir o vestibular poderia ser tão doloroso quanto prestar o vestibular... Mas eu ri mais do que chorei com seu texto... Imagina o povo cantando Ave Maria, ahaha. Beijos

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  8. Lou Salomé, e vc nem assistiu as comoventes performances...rs....uma vez me lembro que eles tinham uma questão apelidada de "onde está wally?"..porque os candidatos se embanavam e eles tinham que "caçar" a resposta. Tem que rezar ou não???.rs

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  9. Anônimo3:04 PM

    Depois que passa, a sensação trágica, tem situações que, na hora da descrição, viram mesmo uma comédia. Sem falar no quadro que você escolheu para ilustrar. Já comecei rindo de cara, quando vi o tema associado à imagem.
    Bj.

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  10. Anônimo3:23 PM

    Eu sei que não é mesmo uma boa hora para ler "A Peste", mas é uma obra que gosto. Não lembro quem foi o autor que comentou que é uma obra "que se recusa a aceitar a injustiça do universo".


    Beijo

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  11. Felipe, tentar dialogar as imagens com meus textos é uma das partes que mais gosto!

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  12. Aleksandra, eu tb gosto muito. Reli outras vezes e não "bateu" da mesma forma: acho apenas que não era o momento mais oportuno...;0)

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  13. Vc tem mesmo várias facetas ein... taí mais uma que eu não conhecia... Deve ser mesmo muito intenso... belo texto.

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  14. Tarcisio, eu sou uma versão feminina misturada do Pink e do Cérebro...rsrs....

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  15. Andrea Frou9:56 PM

    Cruzes! Eu nem me lembrava da 'greve'. Soh dos choros... Ui
    :o)

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