28 novembro 2006

O conto da Raquel ou O Belo Adormecido Da Engenharia


Esse pequeno conto foi escrito por minha querida amiga Raquel Stoiani como presente de dia dos namorados para seu marido Cristiano. Na verdade, me senti identificada com ela em vários momentos e como gosto muito de uma boa história de amor com final feliz, aqui vai.
Com vocês, Raquel.

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"Era uma vez...
“Era uma vez”? Sim,“Era uma vez”! Afinal, essa não é a expressão usual pela qual começam os tradicionais contos de fada, aqueles com direito a príncipe e tudo o mais? Pois então, “Era uma vez, em um distante reino”... Mas, “péra aí”, era uma vez, mas não em um reino... Aliás, quando o Brasil era reino, lá pelos idos do século XIX, Campinas nem deveria existir direito, quanto mais a Unicamp! Continuando: “Era uma vez, na Unicamp...”. Hum... Até aqui, tudo bem, mas não havia uma princesa. Havia, sim, uma garota sonhadora que, na falta de alguém para amar, amava a História e que, na falta de príncipes encantados montados em um cavalo, se contentava em admirar a foto de algum príncipe de carne e osso que aparecia vestindo jeans nas páginas das revistas francesas que ela costumava comprar.
Havia pouco tempo que eu estava em Campinas, para onde tinha me mudado com minha família e onde cursava História. Ali fiz muitas amizades no primeiro ano de faculdade. Algumas delas foram ficando pelo meio do caminho ao longo do curso, outras se mostraram realmente verdadeiras e duram até hoje, passados dez anos. Costumo dizer que são mais que amigos, são irmãos e irmãs cujo sangue que nos une é a paixão pela História. E foi no meio desses amigos que descobri que também era gente: que sabia dançar, que sabia divertir os outros, que era até bonita! Foi no meio deles, entre a preparação de um seminário que virava um barulhento bate-papo e a falta a uma aula que era substituída por uma cerveja e amendoins na cantina da faculdade, que o “patinho feio” se tornou um cisne. Descobri até que era capaz de seduzir! Mas era uma perda de tempo: os príncipes sempre viravam sapo depois do primeiro beijo!
Os bailes, quer dizer, as festas na faculdade eram muitas. Foi então que um dia, esperando o início de uma dessas festas, já cansada de beijar sapos, conheci alguém. “Até que enfim”! Não, quer dizer, este era o nome da festa, assim sugestivamente chamada por ser a última festa do início do semestre no campus.
Fada madrinha? Ah, sim, não se pode deixar de dar o crédito a aquela que, na época, era minha melhor amiga. Afinal, foi ela, que estava comigo antes do início da festa, quem reconheceu e cumprimentou um rapaz que ela se lembrava ter conhecido no cursinho. Ele, por sua vez, apresentou um amigo. E, na hora, o que mais chamou minha atenção foi a diferença entre aqueles dois rapazes. Diferença não só física, porque um era loiro, de olhos claros e o outro moreno, de olhos bem escuros, mas a diferença de temperamento, de tom de voz, de gesticulação. Eram diferentes como água e vinho, mas amizade tem dessas coisas. Eles se juntaram à nossa turma na festa. A noite voou, a festa foi ótima! Nós ainda nos encontraríamos algumas vezes, pela universidade. Mas havia um pequeno probleminha: eles sempre estavam juntos, não se desgrudavam. Era praticamente impossível conversar com o mais quieto deles, o rapaz moreno, de olhos escuros e jeito calmo, que sempre era meio eclipsado pelo amigo, mais extrovertido e conversador do que ele. E hoje penso se não foi justamente seu silêncio o que mais me seduziu.
Algum tempo se passaria até eu reencontrar este rapaz moreno e ouvir sua voz calma. Novo semestre. Estava eu almoçando, em companhia de um amigo, no “bandeijão”, o refeitório da universidade, quando alguém tampou meus olhos. Desta vez ele estava sozinho! Eu, então pedi que ele me esperasse na cantina do meu instituto, pois assim que eu acabasse de almoçar iria encontrá-lo lá. Para minha surpresa ele disse que sim! Ele saiu e a primeira coisa que eu resmunguei para meu amigo foi: “Porque vocês, homens, adoram mentir, hein? Aposto que quando chegar na cantina não vou encontrar nem a sombra dele...”. Mas, para minha extrema surpresa, lá estava ele, com sombra e tudo, sentadinho me esperando. E foi aí que comecei a me apaixonar.
Uma pena que a Cinderela ou a Branca de Neve não contassem com a ajuda de um computador. Sim, porque para mim, ele foi fundamental! Corri à secretaria do meu instituto, onde conhecia os funcionários, e não sei com que desculpa consegui, com alguns dados dele, puxar seu histórico e sua grade de aulas. Além de descobrir as horas e os lugares de aula dele, eu ainda descobri que ele havia estudado no Colégio Militar de Brasília! Eu mal podia acreditar: tínhamos a mesma idade (ele era apenas vinte dias mais velho do que eu) e tínhamos vivido na mesma cidade durante a adolescência (e provavelmente tínhamos freqüentado os mesmos lugares). Além do mais, ele havia sido aquilo que eu considerava na minha adolescência a perfeita reencarnação do príncipe encantado: um “reco” do Colégio Militar (assim se costumava chamar os rapazes que estudavam ali e sempre tinham que ter o cabelo bem curto). Não, eu mal podia imaginá-lo de uniforme, usando aquela charmosa boina vermelha. E de farda de gala, então? Mas essa mesma imaginação que me deleitava se voltava contra mim: “Será que ele tinha uma namorada? Ela poderia ser de Brasília. Ou quem sabe ele gosta de alguém?”.
Criei coragem! Não, não é o que vocês estão pensando. Na realidade, antes de me declarar a ele, eu me declarei ao amigo dele. Quero dizer, disse ao amigo dele o que estava sentindo e pedi sua ajuda. Ele muito gentilmente disse que faria o impossível para que nós nos “esbarrássemos”, assim, por um acaso, pela faculdade. Fiquei sabendo até que ele era como o Garfield, adorava uma lasanha (posteriormente descobri que ele também detesta segundas-feiras, porque nelas, coincidentemente ou não, ele sente fortes dores de cabeça). Mas nunca vou me esquecer do que ouvi, por último, do amigo dele: “Por favor, esteja bem certa dos seus sentimentos. Eu não gostaria de ver meu amigo sofrer”. “Ai, que responsabilidade!”, pensei eu.
Deixei um pouco de lado os contos de fada e resolvi partir para leituras mais agressivas. Que tal Maquiavel? Não havia sido ele quem escrevera... O Príncipe?! Perfeito! Pois se, segundo a sua teoria, os fins justificam os meios, e se meu “fim” era um “happy end” com meu príncipe, porque não lançar mão de alguns truques? Aí deu de tudo, desde deduzir pelo horário dele que ele iria jantar no “bandeijão” (porque ele teria aula à noite) e ficar plantada na saída para simular um encontro casual, até planejar festa para ver se ele aparecia. Contudo, eu me esforçava e o máximo que recebia era o tratamento que ele dispensaria a qualquer amiga. Minhas táticas maquiavélicas pareciam não estar funcionando...
Como tudo isso terminou, ou melhor, como começou? Com um pedido de desculpas e uma caixa de “Ferrero Rocher”, que sempre que vejo na prateleira do supermercado me lembra do dia em que decidi ir a casa dele, em um sábado, próximo da hora do almoço. Confesso que minha intenção era apenas entregar a caixa de bombons e uma carta na qual me desculpava por, dias antes, ter sido “meio grossa”. Segundo meus planos, eu tinha certeza de que um dos rapazes que dividiam a casa com ele iria atender a porta, dizendo algo como “Ele não está” e eu apenas deixaria os bombons e a carta. Caso ele estivesse eu não pediria para chamá-lo porque estava tão envergonhada por ter sido grosseira que, na realidade, estava sem coragem de pedir desculpas ao vivo. Eu não queria encontrá-lo. Se a primeira parte do meu plano deu certo (sim, um dos rapazes havia atendido a porta), o resto foi por água abaixo. Quando o rapaz pediu um momento, antes de me responder se era a casa certa e se o fulano estava, e sem mais explicações saiu, me deixando ali plantada, com uma cara de boba segurando aquela caixa, eu pensei: “O que eu estou fazendo aqui?”. Mal tive tempo de concluir meu pensamento e surgiu diante de mim uma figura totalmente despenteada, com a cara toda amassada e jeito de que acabava de ser sacudido da cama. Até hoje ele se envergonha quando se lembra dessa aparição que para mim foi tão bela quanto uma obra de arte, não sei, como um Davi, de Michelangelo. Ele não sabe também dizer porque àquela hora ele ainda estava dormindo. Quem sabe não foi um conto de Bela Adormecida às avessas? Mas o “Belo Adormecido” estava bem acordado quando recebeu o beijo! Depois desse beijo, outros viriam, assim como também um pedido de namoro e depois um pedido de casamento. Ano que vem este beijo completará seu décimo aniversário...
Talvez, eu pudesse concluir dizendo “E eles se casaram e viveram felizes para sempre”, revisitando, mais uma vez, os jargões dos contos de fada. Mas, não. Porque esta é a frase que indica o fim do conto e, para mim, ele não acabou, pois se constrói a cada dia entre uma bruxa malvada e uma maçã envenenada que você tem que engolir, entre a perigosa tarefa de se matar um dragão e uma roca na qual se espeta o dedo, como também na simplicidade de acordar todos os dias ao lado de quem você escolheu para compartilhar sonhos e pesadelos e no feitiço inexplicável de dizer e ouvir um “Eu te amo”.

4 comentários:

  1. ah, eu adorei!
    Nem achava que gostava tanto de histórias de amor... Mas são tão boas, né?
    Um beijo

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  2. Patrícia, esse casal é uma graça! Bacana conhecer histórias com happy end...rs...beijo.

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  3. happy end virou fábula, né?
    Gostosa.... história.
    bj

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  4. Guga, o happy end virou realidade, essa é a parte mais gostosa da história.;0)

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