23 outubro 2008

Queridos tios, queridas tias







Na segunda feira dessa semana, minha tia Sueli faleceu. Minha tia já havia casado com meu tio Antonio Carlos antes do meu nascimento, assim, para mim, ela sempre esteve na mimnha família, ela sempre esteve por aqui.
Tia Sueli era o avesso da vovozinha convencional : ela era muito engraçada, falavra milhões de palavrões, brincava com todo mundo. E era, sem dúvida, uma eterna apaixonada pelo marido, que aliás, ela chamava assim mesmo, de "Marido". A ponto do Daniel, quando pequeno, achar que o nome dele era "tio Marido".
Me lembro dela olhar para meu tio e dizer pra mim, sorrindo e brincando:
- Olha o meu marido, ele não está bonito?
Os dois ficaram juntos durante 45 anos, entre namoro e casamento. Juntos mesmo, com uma cumplicidade rara, única e feliz.
Na madrugada de segunda feira, estávamos lá com eles, dando o apoio que conseguíamos para ele, para minhas primas, para todos. Eu não saberia descrever a dor dele e o vi chorar pela primeira vez na minha vida. Me senti tão impotente, diante dos dois, que gosto tanto, que foram meus padrinhos de casamento, que sempre estiveram perto de nós.
Eu nem tinha como chegar lá, estava à pé e liguei pra Frou. Como amizade de verdade não tem hora, minha amiga me levou até o velóro às duas da manhã, sem pestanejar.
Valeu, Frou.
Com todos lá, calados e acabrunhados, vi meu tio ao celular.
- Os "meninos" estão chegando.
"Os Meninos" são os irmãos dele e de minha mãe, que ao todo formam oito : sete "meninos" e uma "menina".
E realmente, eles vieram do Rio, em cinco horas, enfiando o pé no acelerador.
Difícil descrever para vocês o que senti quando meus tios sairam do carro. Eram meus tios, duas primas, duas tias ( uma tão jovem que chamamos de "tiazinha"). Eram "os meninos".
A sensação de proteção foi imediata, foi como se uma força sobre humana tivesse chegado e tudo iria dar certo.
Eles e minha mãe ficaram ao lado do meu tIo Antonio Carlos todo o tempo, literalmente. Simplesmente o seguiram para todo o lado, como se pudessem carregar um pedaço do seu fardo, tornando-o mais leve. Como se pudessem dividir sua dor, para que não fosse tão grande.
Não consigo descrever em palavras o que houve, mas foi uma prova de amor fraterno muito intensa e muito linda.
Meu tio falava sobre as pequenas coisas, as coisas ínfimas que deixamos que abalem as relações, as besteiras pelo que discutimos, como tudo isso é pequeno, como ele se arrpendia de não ter dito mais vezes que a amava. Eu acho que ele disse, de deiversas formas, mil vezes que a amava: ao ser atencioso ao extremo, ao fazer suas vontades, ao ser companheiro, ao estar presente, ao amar de verdade.
Perder a minha tia me fez olhar pras pessoas com outra perspectiva, me fez ver como preciso aproveitar o tempo que estamos juntos.
Tenho certeza que tia Sueli está em paz, está em um lugar melhor, divertindo os anjos com suas histórias, seu jeito e seus c**** inevitáveis e deliciosamente peculiares. Só quero que meu querido tio, minhas primas, todos eles, encontrem tranquilidade apesar da saudade.


19 outubro 2008

Renildes, a Estranha












Eu já falei várias vezes sobre minha cadelinha vira-latas, a Renildes. O nome Daniel tirou de uma piada, eu detestei de cara, mas ela tem tanto jeito de Renildes que pegou.
Meu amigo Valter escreveu o texto anterior a esse,baseado nela. Mas vamos falar sobre as peculiaridades de Nildes.
Nildes me ama, escuta o barulho do carro e uiva, pula no meu colo, vê tv comigo, deitada, me olhando com os olhos compridos. Cara, eu jurava que a Nildes tinha cílios.. e balançava os cílios femininamente, mas acho que isso é resultado de anos de desenho animado. Ela não tem, mas eu vejo, sacumé?
Renildes é alegrinha e adora os gatos de casa. Esqueceu sua grande paixão por Malcolm X, meu gato preto maravilhoso. Hoje meio que convive com ele amistosamente. Foi um bom divórcio.
Mas o fato é que Nildes destruiu coisas lá em casa, mas são coisas específicas: meus queridos e variados tamancos (destruiu TODOS) e parte dos meus livros.
Ela come os livros. Mas veja,não é uma cadela qualquer, come clássicos, come Shakespeare, come literatura. Chiquérrima. Vocês podem achar que é coisa de blogueira, mas gente, a cachorra foi sorrateiramente no meu quarto, e ESCOLHEU os livros de cabeceira. Estou falando sério: ignorou Vovelle, ignorou Ariés, ou seja, ela não quer saber de História. Pegou um Allan Poe de jeito e não sobrou nada. Acho que ela está em uma fase lúgubre e preferiu o "corvo". Mas já foram vários.
Minha linda e vira-latíssima Renildes é, literalmente, uma devoradora de livros.


**** Post originalmente publicado em janeiro deste ano. Como a Nildes acabou com mais um livro...decidi republicar.

12 outubro 2008

O livro da Paula







A Paula Lee fez a gentileza de me mandar seu livro através do Branco Leone.
Li em dois dias mais ou menos, o livro é ágil, claro, objetivo e interessante. Narra a trajetória de Paula ainda no Brasil e seu ingresso na prostituição, já em Portugal. Baseado em duas frentes de flash back diferentes, a narrativa tem um tom cinematográfico, onde o leitor pode acompanhar concomitantemente a vida de Paula no Brasil e sua chegada em Portugal, sem uma linearidade simples, abusando da ação, das cores e da vivacidade da história.
Durante a leitura, me lembrei muito de dois livros: A Romana, de Alberto Moravia, onde o escritor italiano retrata o ingresso de uma linda jovem na prostituição e seu olhar modificado sobre a vida e sobre as pessoas e Os prazeres da noite, prostituição e códigos da sexualidade feminina em São Paulo (1890-1930), da historiadora Margareth Rago, que resgata as relações sociais existentes nos bordéis brasileiros.
A pesquisa de Margareth, cuja defesa de tese tive a alegria de assistir, aponta para o caráter cultural e social que havia na relação entre as "francesinhas" e os ricos coronéis brasileiros, sedentos de compania e conversa, além dos serviços habituais das cortesãs.
O livro de Paula Lee mostra várias facetas masculinas, pessoas gentis, pessoas deprimentes, pessoas alegres, pessoas agressivas. A relação da autora com os homens que passaram a ser personagens é descrita de forma tão natural que é impossível continuar com a mesma visão sobre as meninas de "vida fácil"(!), seu texto límpido, inteligente, articulado, descarta qualquer papel de vítima, ainda que a pobreza tenha sido árdua no seu caminho.
Paula não se define por seu sofrimento, tampouco se define por sua sedução, para além disso, o texto apresenta uma jovem franca e firme, que vê o mundo de forma sagaz e contundente.
Paula preserva a privacidade de seus clientes, não mencionando nomes, mas substituindo por apelidos divertidos como o Maracujá Fardado e outros, que vocês vão conhecer lendo o livro.
O interessante também é bater de frente com nossos preconceitos e o texto da Paula faz isso de forma brilhante.
Quer um bom programa? Leia a Paula Lee.

04 outubro 2008

Sob os olhos de Fernando







Fernando Meirelles acertou em cheio. Ensaio Sobre a Cegueira teve a adaptação que merece, nas mãos desse diretor. O filme com cores apagadas, mortas, foi uma alegria para mim. Muitas vezes aqui, comentei sobre as violências cometidas contra algumas obras, em adaptações tacanhas, obtusas e - em grande parte das vezes - tão distante da obra original que dizer que era "baseado na obra de.." praticamente ofendia.
Não é o caso desse filme. No texto de Saramago, pessoas são acometidas por uma cegueira branca e inesperada, que acaba se alastrando como uma furiosa epidemia. As pessoas contaminadas são colocadas em reclusão, debaixo de regras espartanas e abandonadas à sua própria sorte.
O caos criado beira a loucura. Não é à toa que o autor escolheu um manicômio abandonado para servir de prisão momentãnea para os contaminados.
A nossa cegueira cotidiana em relação a vida, em relação tanto aos minúsculos prazeres quanto aos problemas mais gritantes, fica explícito. Somos cegos, enfim.
Na reclusão, alguns laços de solidariedade são criados e se mantém fortes, entretanto, dentro do caos surgem também os déspotas, como ficou claro com o outro grupo de cego, opressor, violento.
No texto de Saramago, ainda me pareciam mais aterrorizantes, arrastando as barras de ferro no chão.
Li no blog sobre o filme que a cena do estupro coletivo foi mal recebida por grupos de mulheres. A cena é horrível, é suja, é amedrontadora. Por isso é crucial para o filme.
Julianne Moore está perfeita, sendo a Mulher do Médico, uma personagem de uma grandeza ímpar. Rúfalo está aquele fofo de sempre. Os outros estão pefeitos, gostei do toque fashion de se colocar o Primeiro Cego e sua mulher como japoneses.
A apresentação sem nomes, como A Moça dos Óculos Escuros ou os outros, ficou um pouco vaga: pareciam que se apresentavam mencionando as profissões. Em minha leitura, mais do que localizar sua profissão, penso que o autor apresenta personagens que se definem pelo que fazem, se localizam enquanto indivíduo dentro do seu espaço no capitalismo.
Como se o indivíduo fosse, enfim, reduzido e definido pelo que ele faz.
Mas não imagino como transportar isso da literatura para outra linguagem. Assim como o Cão das Lágrimas, comovente no livro, superficial no filme.
De qualquer forma, ainda que algumas sutilezas sejam praticamente intraduzíveis, achei um belíssimo trabalho. Com algumas cenas particularmente bonitas, como o grupo de mulheres limpando o corpo na mulher morta pela violência dos cegos que formaram uma gangue, com aquela solidariedade feminina que é tão impressionante quanto nobre.
E o fim do filme, onde a Cegueira, em todos os seus aspectos, parece ter sido vencida.
Isso fica claro no livro posterior, Ensaio Sobre a Lucidez. Mas isso é conversa pra outro post.

01 outubro 2008

O nosso amor


Romantismo é bom. Mas bom humor é melhor.
(E ainda bem que existe o humor e a possibilidade de rir de si mesmo e do outro)

Para meu último amor, com muito carinho.








****** post originalmente publicado em março de 2007.
Hoje, conversando com um amigo sobre os amores que vão e vem, me lembrei dessa música divertidíssima da Tati.
Clique no link e ria comigo.

12 setembro 2008

A plebe rude






Não é difícil dizer porque me fascinei tão rapidamente pelo movimento Anarquista.
Porque esses militantes, ainda no início do século passado, já compreendiam as mulheres como cidadãs, como pessoas que podiam estudar e produzir.
Havia espaço pra intelectuais como Berta Luz ou Maria Lacerda de Moura ( essa última, escrevendo livros com títulos como "Amai-vos e não vos multipliqueis" ou "Fascismo – filho dileto da Igreja e do Capital ") usando pedagogia Ferrer e se destacando como professora e anarquista.
O incrível nesses caras é que dentro de uma estrutura escolar violenta, autoritária, dogmática e cerceadora, eles criaram escolas mistas, onde os alunos podiam frequentar laboratórios, debater e - maravilha das maravilhas - eliminaram as avaliações com notas.
As avaliações deveriam servir para que o aluno percebesse suas falhas, seus limites, não para que fossem excluídos e/ou que houvesse uma competição feroz, ou pior ainda, que fossem vítimas de vinganças de professores hostis.
Claro que agora, com todos os alunos enlatados na concepção de que é necessário haver nota, fica difícil nadar contra a maré. Estudar sem esse tipo de avaliação requer uma autonomia, uma independência que os alunos poucas vezes são estimulados a ter.
Meu primo, professor da faculdade de medicina em uma univerdidade federal concorridíssima, diz que tem ímpetos de matar a criatura, quando um aluno pergunta:
" isso cai na prova?"
Preferia queimar todas as provas, buscando um aluno que estudasse por outros motivos, como queriam meus anarquistas.
Há alguns anos, pensei em escrever um trabalho comparando a concepção de imprensa que eles tinham, com a veiculada na chamada imprensa burguesa. Porque os libertários tinham a certeza de que a imprensa era um meio de divulgação de idéias, que era uma ferramenta. Nunca tentaram entrar no teatrinho da "imparcialidade".
Não escrevi esse trabalho, mas participei de duas pesquisas que incluiam os ácratas e isso me deu a oportunidade de ficar horas no Arquivo Edgard Leuenroth, lendo sofregamente jornais como A Plebe, O amigo do Povo, A Batalha, entre tantos outros.
Melhor do que isso, impossível.
Bom, há algo melhor sim. melhor seria se essa perspectiva anarquista, esse estímulo a autonomia, a cooperação, a ação do coletivo, fosse desenvolvida por todos. Mas eu confesso que já não espero mais isso.

09 setembro 2008

Anos Dourados

















Anos dourados
Chico Buarque
Composição: Tom Jobim/Chico Buarque

Parece que dizes
Te amo, Maria
Na fotografia
Estamos felizes
Te ligo afobada
E deixo confissões
No gravador
Vai ser engraçado
Se tens um novo amor
Me vejo a teu lado
Te amo?
Não lembro
Parece dezembro
De um ano dourado
Parece bolero
Te quero, te quero
Dizer que não quero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais

Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
Te ligo ofegante
E digo confusões no gravador
E desconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos, dezembros
Mas quando me lembro
São anos dourados
Ainda te quero
Bolero, nossos versos são banais
Mas como eu espero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais



06 setembro 2008

Ser ou não ser? Eis a questão.
















Batman é um filme tremendo. Se você ainda não assistiu, vá correndo ao cinema mais próximo, porque está perdendo um filme incrível.
Eu tentei não ler nada sobre ele, porque não queria nenhum spoiler estragando minha leitura do filme, mas a trágica morte de Heath Ledger acabou me fazendo ler sobre ele e sua atuação. Então, o que vou dizer não me surpreendeu e nem vai surpreender vocês: Ledger está absolutamente impressionante como Coringa. Aterrorizante, irônico, "senhor do caos" como ele mesmo se apresenta, um legítimo morador do Arkan.
E é exatamente isso que me seduz como leitora, a loucura presente nos inimigos do Cavaleiro das Trevas, loucura essa que os faz ser encerrados no Asilo Arkan, e não presos, porque mais do que meros ladrões, eles são psicóticos.
Talvez tanto quando o próprio Batman, na dualidade tão bem comentada pelo Rafael: Batman como um duplo em relação ao Coringa, ambos sendo lados equivalentes de uma mesma moeda.
Essa dualidade parece ser expressa novamente em Duas Caras, a maior expressão do maniqueísmo em termos de HQ, em minha opinião.
A transformação de Bruce em Batman, a forma como ele se refere ao Morcego, como Outro, como Entidade, é incrivelmente interessante. A mudança da voz - que fica roucamente sexy - é um dos passos da caracterização que me lembra o método stanislavski. Nesse caso, Bruce Wayne, o "ator" se apropria de um personagem "Batman", e se envolve com ele, em um mergulho frenético. Uma vez dentro desse personagem, tomado por ele, paulatinamente se torna o próprio morcego e Bruce Wayne se torna cada vez mais o "personagem": o mauricinho babaca e mulherengo.
Então...quem seria real? Batman ou Bruce?

11 agosto 2008

Volto já





Queridos leitores e amigos, vou dar uma saidinha daqui, mas volto em breve.
Não se trata de nenhuma crise com a blogosfera, continuo adorando postar, mas tenho que colocar uns projetos em ordem.
Beijocas e todos.

04 agosto 2008

Deus é poliglota







Já comentei aqui com vocês que sempre tive uma relação tranquila com minha fé, nunca entrei em elocubrações teóricas, nunca filosofei, nunca questionei. Por um simples e prosaico motivo: eu gosto de ter fé. Ponto.
Confesso que também tenho pouquíssima paciência com quem acaba por questionar, porque vamos e venhamos, quem leu um ou dois livros de Nietzsche, umas beiradas de Marx e vem pagar de intelectual, hum, não, não, nem escuto. Meneio a cabeça com um sorriso paralizado, pensando como posso correr dali.
Claro que inúmeras pessoas questionam, de forma sistemática e profunda, a existência de Deus. O bacana é que, em minha experiência, quanto mais intelectualizado, mais tolerante é o indivíduo e menos propenso a vomitar regras e dogmas.
E eu continuo com minha prática: topo discutir religião, claro, que é a relação humana com qualquer concepção de divindade, mas não topo discutir a existência de uma divindade.
Porque acho idiota, gente. Acho totalmente impossível de provar cientificamente.
Impossível, totalmente impossível.
E tô pouco me lixando, porque de positivista, não tenho nada, nada mesmo.
Afinal, ainda que a importância da Ciência seja inquestionável, atribuir a ela um suposto poder absoluto é um tremendo equívoco. Afimar, meramente, que algo é ou não "científico" não termina uma discussão.
Porque as teorias de Lombroso eram aceitas como científicas e inquestionáveis, teorias racistas que chegaram a subsidiar o nazismo, por exemplo. As estratégias de normatização social que procuravam exterminar com toda "degenerescência"- nem que para isso, os asilos ficassem abarrotados de pessoas que fugiam aos padrões sociais vingentes - tudo isso era assinalado como científico. Atitudes autoritárias com essas e outras, provocaram rebeliões populares como a Revolta da Vacina.
O fato é que o autoritarismo que reside em berrar verdades absolutas é tão tacanho em um cientista quanto em um religioso.
Nós da História já abandonamos o conceito de verdade absoluta há tempos, se alguém quiser ficar com ele, beleza.
Desde o ano passado, estou indo em uma igreja Presbiteriana. Gente, adoro. Fui com uma amiga da Unicamp e foi amor à primeira vista. Gostei da comunidade, gostei da profundidade das reflexões do pastor, gostei da tolerância.
Apesar de, enquanto professora, saber da tradição cultural dos protestantes históricos, a imagem dos pentecostais estava muito forte em minha mente.
O que é um grave erro conceitual, certo? Confundir os Históricos com os Pentecostais, enfiar tudo na mesma gamela.
Mas a imagem dos pentecostais está impressa na mídia, com o eterno trinômio: terno barato + leitura canhestra da Bíblia + voz rouca aos berros.
Nessa igreja que frequento, presbiteriana, fui conhecer pastores cultos, que foram professores, conversando sobre seu doutorado e utilizando a literatura como interface nas pregações.
E, é claro, a tolerância.
Vocês sabem, tolerância, relativização dos conceitos, isso é condição sine qua non para que eu efetivamente participe de algo.
A despeito de um querido amigo blogueiro que tirou um sarro camarada dessa minha nova tendência, acho que realmente achei um canto pra mim.
Agradeço a outro amigo, o Bruno, por ter me levado em uma maneiríssima festa de candomblé, agradeço a Cláudia por me explicar as minúcias do catolicismo, aos amigos de outras orientações, aos amigos budistas, aos espíritas e é claro, as amigas bruxas, né, Tati?
Todo mundo me explicou um pouco, me ensinou um pouco e eu gostei de todos.
Um amigo me contou que João XXIII disse, em relação a multiplicidade de religiões:
" o que nos une é maior do que o que nos separa." Escolhi outro caminho não por ser o melhor, muito menos o único. Escolhi porque foi a língua que preferi falar.
Mas tenho certeza que seria feliz em qualquer outra, porque estou convencida de que Deus é poliglota.

01 agosto 2008

O Tempo não pára



Assisti "Cazuza" ontem. Já tinha visto no cinema, já tinha gostado e já tinha me desmilinguido de chorar.

(Não sou crítica de cinema, não tenho nem saco pra papos muito profundos, quando a pessoa começa a falar sobre a fotografia,

hummmm...durmo. Confesso: se a pessoa diz que o filme é "bárbaro" , eu tendo a não assistir, porque quem fala "bárrrrbaro" é sempre chato pra burro. E se gostar de Tarkowiski então.....zzzzzzzzzzzzzzz.................................)

Voltando ao filme: vou pelo óbvio, o Cazuza baixou no Daniel de Oliveira, só tem essa explicação. O garoto estava incorporado, a expressão, o tom de voz , o gestual, Cazuza, Cazuza puro.

Eu ainda acho que o Cazuza era um filhinho de papai chato pra diabo, mas gente, um artista com poucos. Gosto incrivelmente de praticamente tudo que ele escreveu e/ou cantou, me toca horrores. Já postei Exagerado outro dia, provavelmente eu coloque outras ainda, porque todo mundo merece Cazuza.

A angústia do tempo passado e perdido, o medo constante e irremediável da morte estão presentes de forma tão intensa no filme, que dói. Com isso, não posso e nem consigo negar, me identifico muito. Uma amiga uma vez me disse que tenho pressa de viver, acho que tenho mesmo. Acho que esse medo impulsiona essa pressa exagerada.


O Tempo Não Pára

Composição: Cazuza / Arnaldo Brandão


Disparo contra o sol

Sou forte, sou por acaso

Minha metralhadora cheia de mágoas

Eu sou um cara

Cansado de correr

Na direção contrária

Sem pódio de chegada ou beijo de namorada

Eu sou mais um cara

Mas se você achar

Que eu tô derrotado

Saiba que ainda estão rolando os dados

Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não

Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas idéias não correspondem aos fatos

O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não pára

Não pára, não, não pára

Eu não tenho data pra comemorar

Às vezes os meus dias são de par em par

Procurando uma agulha num palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer

Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer

E assim nos tornamos brasileiros

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro

Transformam o país inteiro num puteiro

Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas idéias não correspondem aos fatos

O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não pára

Não pára, não, não pára

Dias sim, dias não

Eu vou sobrevivendo sem um arranhão

Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos

Tuas idéias não correspondem aos fatos

O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não pára

Não pára, não, não pára







Post publicado originalmente em novembro de 2006.

29 julho 2008

Na terça

Hoje me lembrei dessa música. Houve um ano em que a ouvi todos os dias, buscando algo que eu acredita não ter.
Tola, tola.



28 julho 2008

"Entre todos os amores e amigos, de você..me lembro mais"

Para você, que já foi meu melhor amigo e vai ser sempre de quem me lembro mais.



24 julho 2008

"Baseado na obra de..."








Eu entendo que as versões cinematográficas devam ser o que se denominam: versões.
Ok. O que me incomoda - e incomoda muito - é ver como se destrói o sistema nervoso central de uma trama, como se joga fora todas as características principais de uma personagem para transforma-la em outra coisa, não raro, diametralmente oposta a criada pelo autor.
Pô, se é para criar outra personagem, não coloca a porcaria do "baseado na obra de...", troque isso por "detonando totalmente a obra de..."
Foi isso que vi outro dia na tv: na tentativa de filmar Moll Flanders, o diretor - sei lá quem é, nem procurei de tão irritada - praticamente queimou em uma fogueira o interessante romance de Daniel Defoe.
Em comum com o livro apenas o nome - que a personagem assume em um momento de sua vida, usando algumas vezes - e a ida para a Virgínia. O resto pode apagar.
Ela prostituta, bêbada ou casando sem interesse com um nobre, por amor? Apaga, filho.
Moll casou cinco vezes, teve vários amantes, foi ladra por 12 anos, teve levas de filhos que abandonou como ninhada de gatos. Tudo isso no iníco do século XVIII.
A Moll do filme faz das tripas coração para reencontrar a única filha, que perdeu por acidente, e quem ama com loucura.
Gente, a personagem larga os filhos - dos quais diz o nome de apenas um, apenas uma vez, o resto deles é chamado de crianças, filhos, claramente estorvos - o que é descrito por Defoe, que elabora uma narrativa com um final moralizante, baseado no perdão, redenção, essas paradas totas.
Mas me diz, se o diretor do tal filme queria uma história de uma mãe amorosa que buscava o perdão da filha, por que escolher Moll Flanders?
Construir uma Moll amorosa acaba com toda a elaboração de Defoe, suas reflexões sobre os pecados e a tal redenção da personagem, após a expiação das sacanagens que ela aprontou em uma vida abarrotada de "jeitinhos".
Mesmo no final, ainda carrega em si mentiras, segredos e uma boa dose de manipulação, ou seja, completamente diferente, antagônica mesmo, da homônima do filme.
Arre, odeio quando descaracterizam a obra, odeio.

20 julho 2008

Os cafés













Tem uma coisa que adoro fazer nessa vida: conversar. Claro que adoro outras, como ler, viajar, cozinhar e outras não-blogáveis. Mas se a gente pensar bem, todas está amarradas pela conversa. De uma maneira ou de outra.
Se a conversa for regada a um café bem quente, tanto melhor.
Acho que o que mais fiz nessa semana - de férias, com filho na casa do pai - foi conversar e tomar café.
Com a Ju no Galleria, um papo delicioso e muitas risadas, com o Dimas na Cultura, colocando a fofoca em dia, com a Frou, Valéria, Avelino, Maurício e Débora, em memoráveis cafés e papos pela madrugada, onde a conversa variou tanto que até o passado Rosa Cruz da Valéria apareceu...pois é, todo mundo tem um dark side....risos.
De qualquer forma, acho que essas oportunidades de ter tantas pessoas diferentes no meu rol de amigos é um grande privilégio.
E fico muito feliz por isso.
Vai um café aí?

17 julho 2008

Dançando na chuva

















Muito raramente saio para dançar aqui em Campinas. Primeiro, porque tenho aflição de lugar cheio, depois porque simplesmente deteeeesto música eletrônica, que com raras exceções, predominam na noite. Gosto do Barril da Máfia, por exemplo, onde sempre tem uma boa banda com black music e o clima é bem bacana. Mas o outro problema é que acabo me sentindo a tia do lugar, praticamente tenho vontade de sentar todo mundo e começar a dar aulas. Eu sei, um horror.
O caso é que alguns amigos descobriram um lugar ótimo, onde há um dia de flash back - sim ,queridos, a tia aqui curte um flash back, fazer o quê..- e por esses dias, fomos experimentar.
Eu gostei. Me diverti horrores, dancei, fofoquei, encontrei outros amigos por lá - os tios de Campinas agora tem endereço certo, pelo visto.
O engraçado é que quando eu era adolescente não saia pra esse tipo de lugar, não por desgostar da música ou implicar com multidões, mas simplesmente porque eu era um esboço de revolucionária com tênis furado e unhas sem esmalte. Já disse e repito, a perua que habita em mim não conhece essa garota anos 80...
Mas como dizem que as células se renovam a cada sete anos, creio que os anos que me separam da antiga Vivinha construiram uma outra, que ainda olha com carinho pra essa garota do passado, mas definitivamente, ama a mulher do presente.
Beijocas, queridos e vamos dançar.

16 julho 2008

Conjuração na quarta feira


Eu vi isso aqui no Zander e resolvi copiar. São Jorge, pra quem não sabe, é o protetor dos rpgistas e um pouco de proteção contra dragões é sempre bom ter.
Desejo a todos que passarem por aqui que recebam em dobro tudo o que desejarem pra mim.
Tá desejado e tá conjurado.

"Chagas abertas, Sagrado Coração todo amor e bondade, o sangue do meu Senhor Jesus Cristo, no meu corpo se derrame, hoje e sempre.
Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge.
Para que meus inimigos tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me enxerguem e nem pensamentos eles possam ter, para me fazerem mal.
Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem ao meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrarem.
Jesus Cristo me proteja e me defenda com o poder da sua Santa e Divina graça, a Virgem Maria de Nazaré, me cubra com o seu sagrado e divino manto, me protegendo em todas as minhas dores e aflições, e Deus com a sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos e o glorioso São Jorge, em nome de Deus, em nome de Maria de Nazaré, em nome da falange do divino Espírito Santo, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, do poder dos meus inimigos carnais e espirituais e de todas as suas más influências e que debaixo das patas do fiel ginete, meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós, sem se atreverem a ter um olhar sequer, que me possa prejudicar.
Assim seja com o poder de Deus e de Jesus e da falange do divino Espírito Santo. "
Tá desejado e tá conjurado.
Um beijo cheio de poder pra todos que passarem por aqui.

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@@@@@@ texto publicado originalmente em julho de 2007, mas como os stalkers e as malucas continuam tentando ( só tentando, coitados) me atingir, mando de novo.
Sorte e fé para vocês.

13 julho 2008

Paixão antiga sempre mexe com a gente

Eu sempre digo que se eu fosse uma daquelas adolescentes, ia gritar, ia pular, ia me descabelar. Porque é assim, gente, sou uma fâ louca do Rei, não tem jeito.
Quando ele morreu eu tinha nove ou dez anos, mas senti tanto, senti tão profundamente, que chorei por muito tempo.
Essa mistura de gospel com sei lá o quê, aquela coisa meio over, meio kitsch das roupas exageradas dos anos 70 ( com capa e tudo mais), eu adoro tudo.
Pra mim, nada melhor pra homenagear o dia do rock.




06 julho 2008

A Plebe Rude






Não é difícil dizer porque me fascinei tão rapidamente pelo movimento anarquista.
Porque esses militantes, ainda no início do século passado, já compreendiam as mulheres como cidadãs, como pessoas que podiam estudar e produzir.
A experiência de ler os vários jornais anarquistas foi uma porta aberta logo no primeiro ano da graduação, onde não só aprendi as delícias de me perder horas em arquivos antigos, como as delícias de um movimento revolucionário até a última gota, como foi o dos libertários.
O incrível nesses caras é que dentro de uma estrutura escolar violenta, autoritária, dogmática e cerceadora, eles criaram escolas mistas, onde os alunos podiam frequentar laboratórios, debater e - maravilha das maravilhas - não havia avaliações, não havia classificações com notas.
As avaliações deveriam servir para que o aluno percebesse suas falhas, seus limites, não para que fossem excluídos ou que houvesse competição feroz, ou pior ainda, que fossem vítimas de vinganças de professores hostis.
Claro que agora, com todos os alunos enlatados na concepção de que é necessário haver nota, fica praticamente impossível nadar contra a maré. Estudar sem esse tipo de avaliação requer uma autonomia, uma independência, elementos que os alunos poucas vezes são estimulados a ter atualmente.
Há alguns anos, pensei em escrever um trabaho comparando a concepção de imprensa que eles tinham, com a veiculada na chamada imprensa burguesa.
Não escrevi esse trabalho, mas participei de duas pesquisas que incluiam os ácratas e isso me deu a oportunidade de ficar horas no Arquivo Edgard Leuenroth, lendo sofregamente jornais como A Plebe, O Amigo do Povo, A Barricada, A Luta Livre, entre tantos outros.
Fiquei familiarizada com eles, um círculo não tão grande, mas incrivelmente ativo, que usava a imprensa como arma, mas não se limitava a ela. Os anarquistas usavam os sindicatos e os centros culturais, demonstrando a compreensão do poder que a cultura tem sobre o coletivo.
Talvez eu tenha me convencido, naquela época, que uma sociedade sem Estado seria possível. Hoje, certamente, essa idéia não me toma. Mas penso como esse ideário pode ser modificador dentro da sociedade, no sentido de perceber o indivíduo como autônomo, como sujeito de sua própria História ( me perdoem pelo clichê necessário..)
Mas só posso dizer que toda a influência deles, em minha vida, foi enorme. E estar com eles, durante aquele tempo, ali no Arquivo, foi deliciosamente inesquecível.
Melhor do que isso, impossível.

30 junho 2008

A Avó de cabelos azuis








Por mais que o título pareça uma referência ao realismo fantástico, não é.
Eu tive uma avó com cabelos azuis e isso foi a primeira coisa que vi no livro novo do Lord: os cabelos de sua avó. Graças a um produto chamado Shampoo Cinza, as vovós ficavam com os cabelos azulados. Eu sempre achei lindo.
No meu casamento, minha avó errou o ponto e foi com o cabelo lilás.
O livro, narrado do ponto de vista de um menino, conta com ilustrações deliciosas e com aquelas cores vbrantes que seduzem qualquer criança.
E é sempre delicioso ver o mundo a partir dos olhos de uma criança.
O texto apresenta com delicadeza a relação entre neto "Tatá" ( que apesar de ser o mesmo apelido do pai, era diferente, porque era um "Tatá de neto") e sua avó, uma relação tão calorosa e especial que faz com que qualquer um que tenha tido a sorte de conviver com sua avó -
como eu - fique morrendo de saudades.
Eu tive a alegria de participar do lançamento do livro: fui com meus amigos Clélia e Arnaldo que me apresentaram ao Bap, um ilustrador pra lá de divertido.
Foi delicioso ver Jayme, Walter e Aninha, que gosto tanto, rever - ainda que rapidamente - Guga.
Conhecer pessoalmente a Vivina de Assis Vianna, foi uma honra pra mim, eu nunca ia imaginar isso há vinte e três anos, adorei.
Uma personagem digna de nota foi a ex-professora do Lord Caco, uma velhinha "composta" ( o que no dialeto da minha avó, significava ser muito elegante ), que ficou ao lado do ex-aluno, evidentemente cheia de orgulho.
Uma noite com livros de avós, antigas professoras e blogueiros?
Delícia.

26 junho 2008

Viajantes no Brasil








Eu estava pensando na tal maldição Langsdorff outro dia. Eustáquio me garantiu que ela acabou, está encerrrada.
Gosto de ler os viajantes do século XVIII, Gosto de ver as pinturas descritivas, cheia de detalhes do cotidiano ( como em Debret) ou da flora ( como em Rugendas), qualquer um que leia meu blog sabe o quanto eu gosto da força das imagens e esses dois, ora bolas, já foram tema de mil teses e vão continuar sendo.
Ler viajantes tem aquele apelo irresistível de perceber o novo pelos olhos de outros, de perceber a dificuldade da compreensão da alteridade. E tem seus momentos de humor, ora pipocas,como Spix e Martius acreditando que caranguejo era uma espécie de de inseto ( um piolho gigante? que nojo) e coisas do gênero.
No caso de Langsdorff, minha preferência é clara: além dele ser de uma inteligência ímpar e uma história que beira ao realismo fantástico ( enlouquecer, à pé, no meio do Brasil é um exemplo disso), tive o provilégio de trabalhar com microfilmes de papéis escritos de próprio punho por esse alemão genial.
O fato de ler um material desses, ver a letra do fulano, perceber peculiaridades dessa aventura, me faz pensar que a realidade é - muitas vezes - tão ou mais incrível do que a fantasia.

21 junho 2008

O Acidente







Adoro Souzas, adoro mesmo e meu filho também . A gente sempre aparece nessa cidade linda, pequena, bucólica e meio hippie pra almoçar aos domingos.
Mas aquele dia a gente tinha ido tomar café em um lugar super charmoso, com quintal enorme, árvores, uma delícia.
Bom, tô voltando pra Campinas, cantando no voltante, toda felizinha,quando vejo um garoto de bicicleta ,segurando a traseira de um ônibus.
Claro que o instinto "tia" fala mais alto que qualquer coisa e tentei resolver o erro do idiota: se o tal besta pensasse sozinho, não seguraria na porcaria do ônibus....buzinei e de uma maneira não muito delicada, disse que ele ia se ferrar se continuasse com a tal brincadeira arriscada.
Bom, dito e feito.O ônibus acelerou, o garoto soltou e foi garoto-bicicleta-garoto-bicicleta-garoto-bicicleta...transformado em uma bola vermelha que foi bater na mureta da estrada.
Parei o carro com o instinto "tia" apitando, chutei os indefectíveis tamancos e saí correndo no meio da estrada, a própria mulher maravilha campineira, só faltando a musiquinha de fundo ...oidiotadogarotovaimorreraimeudesesse babacavaimorrerpáraalguém...não precisei nem acenar ou parar carro nenhum, uma viatura da polícia já vinha atrás do fulano - na verdade, nem era garoto, um galalau de 30 anos , filhinho de papai que tinha roubado a bicileta pra poder cheirar o resultado.
Sobreviveu e nunca mais ouvi falar dele.

***** Post publicado originalmente em 23/09/06

19 junho 2008

Jocasta e Édipo - I




Encontro a criatura que eu chamo de filho no msn - ele estava na casa da avó - vejo o nick "Toddy" e pergunto:
- filho?
- não.
-??
- mula sem cabeça....
- o que vc está fazendo ai?
- batendo um bolo de banana.
- hahahahah...palhaço.
- seu filho.


*******
_Hoje você não me escapa, mãe, vai aprender a jogar xadrez, larga esse livro.
- ah, não...eu tenho preguiça...xadrez é muito chato...
- você já jogou?
- não, é chato, ué.
- ??????
- vai, vem cá, depois eu faço massagem por meia hora.
- bom, se é assim....
- olha só, aqui é o rei e ele anda assim, tá vendo...? e a rainha e....mãe! você não está prestando atenção...!
- tô sim, tô sim. Mó sacanagem esse jogo, todo mundo quer comer a rainha....rs
- que comer a rainha o quê!....quer capturar o rei..
- ah, tá...
- vai prestar atenção??? olha só, o que você faz quando um aluno não está estimulado? Me ajuda aí, mãe.....
- pô, filho, você sabe que tenho o maior preconceito com esse jogo....imagino um velho chato com cachimbo na boca e cara de intelectual.....
- mãe, vamos fazer assim....a gente podia comprar outros bonequinhos...sabe?
- ( interessada) por exemplo?
- ah, o Homem Aranha podia ser o bispo, o Wolverine o rei....e a rainha podia ser... o Shun.....ahahah
- hahahahahh..
- Ou a gente podia fazer um combate DC contra Marvel...
- Você joga baixo comigo, Daniel....rsr...tá bom....como é que eu movo essa torre aqui????


****** texto pulicado originalmente em 18/12/2006

18 junho 2008

Imperdível








Olá, povo. Recebi um convite delicioso e quero dividir com vocês, veio do talentoso desenhista Maurílio DNA.
Quem for aqui da região de Campinas está convidado para ir.


"No dia 18 de junho a chegada do navio Kasato Maru ao Brasil trazendo os primeiros imigrantes japoneses completa 100 anos.

"Nagai Tabi" quer dizer "longa Jornada" em japonês e nesta exposição os professores e alunos da escola expoem sua visão sobre as várias facetas da cultura japonesa e do centenário da vinda dos primeiros imigrantes para o Brasil.

"Tabi Wa Mithizure" - As pessoas que você encontra na sua jornada ficam com você para sempre.

Quando: 20 de junho (sexta-feira) a partir das 20:00h
Onde: Hotel Vitoria NewPort - R. Santos Dumont, 291 - Cambuí

Ainda na abertura da exposição haverá lançamento/venda/noite de autógrafos das revistas em quadrinhos "FRONT Especial 1 - Centenário da Imigração Japonesa" e "ITO Samurai".



Nos vemos por lá.


**********

Eu leio o convite e caio sempre nessa parte, que adorei:
"Tabi Wa Mithizure" - As pessoas que você encontra na sua jornada ficam com você para sempre".
Uau.

17 junho 2008

Ensaio Sobre a Preguiça


Faz mais de vinte anos, eu tinha dezesseis anos e trabalhava em uma empresa que funcionava 24 h por dia. Literalmente. Meu turno era das seis ao meio dia, tinha conseguido essa pseudo-promoção aprendendo a digitar na hora do almoço: passei então a trabalhar como digitadora e em turnos de seis horas.

Nosso grupo era formado por meia dúzia de pessoas, o mais velho, o meu "chefe" - eles adoravam distribuir carguinhos porcaria pra ver se conseguiam controlar a turba assassina de funcionários - deveria ter pouco mais de vinte anos.

Os outros funcionários chegavam às oito: tínhamos , então, duas horas sem vigilância.

Começamos comprando coisa na padaria e fazendo um café da manhã coletivo. Mas isso começou a ficar cada dia mais longo, cada dia, enrolávamos mais.

A estratégia era a seguinte: ligávamos os pcs e ficávamos vagabundeando, até quase oito horas.

A nossa média de produtividade caia a cada dia, e "ninguém" sabia o motivo....

Digitadores tão rápidos perdendo produtividade...um mistério.

O mistério foi descoberto um dia. Estávamos na recepção: todo mundo deitado pelos sofás, eu , sem sapatos, com a cabeça no colo do meu "chefe", que mexia no meu cabelo ( ô, delicia) e ainda cantava pra mim. Tempinho bom....

A porta fez um barulho, não dava tempo de correr, apesar de alguns terem tentado: um dos donos havia chegado.Foi aquela situação constrangedora em que ninguém sabe o que dizer.

Quem tentou correr, foi pego no meio, tipo desenho animado. Levantamos vermelhos, sem dar nem desculpa. Eu calcei meus tênis - porque nessa outra vida eu usada tênis e não pintava as unhas, era uma outra Eu - subi para trabalhar, morrendo de vergonha.

Subimos meio rindo, meio assustados. Nunca ninguém falou disso, mas nunca mais tomamos nosso super café da manhã de duas horas.



****** texto publicado originalmente em 19/03/07

06 junho 2008

Caminhando na terra dos Perpétuos


Volta e meia eu falo sobre sonhos aqui. Já cansei de dizer que tenho uma vida onírica muito rica, não raro, desejo me mudar pra lá.
Outro dia, sonhava com um longo corredor iluminhado por archotes, andava por lá, chamando:
- Morpheus..Morpheus..!
É isso que dá ser doida pelo Neil Gaiman.
Sonho com cores, cheiros, sonho de forma extremamente sensorial. Já sonhei em desenho, com música, com narrador, já sonhei livros e filmes. Sempre acho tudo lindo, mas nunca me lembro ao certo.
Só brumas, cara, só brumas.
Já até me apaixonei em sonho. Acordei, meio lerda ainda, ainda com um pouco de paixão em mim. Mas acordei. Claro, claro.
Agora sonho em paz, parece que meus filmes internos estão em uma fase zen, se desvencilhando de uma série de medos, de ansiedades.
Parece um bom processo.



04 junho 2008

Vivinha em São Paulo III ou O ônibus


Quem me conhece, sabe que eu faço promessas internas.Por exemplo, quando tinha onze anos jurei que nunca namoraria um homem que lavasse carro no domingo, assistisse futebol e tivesse barriga de cerveja.
Bem que eu preciso de uma dietinha, mas os homens que passaram por minha vida não precisam. Nem lavam carro. Muito menos assistem futebol com barrigão de fora.
Uma das juras é que eu evitaria até o último segundo a possibilidade de tomar ônibus. Mas nesse caso, diferentemente do hipotético barrigudo, eu estava cansada de conhecer.Tomei muito ônibus: vazio, cheio, limpo, sujo, hora vazia, hora do rush.Chega, sem essa de ônibus.
Mas aqui eu andei, quando fui pra casa da Lu Farias, onde conheci aquela família linda e atenciosa, onde passei uma tarde muito bacana, papeando, tomando café e vendo que existem outros fãs de Babylon 5 no mundo.Essa possibilidade de conhecer melhor os amigos blogueiros é algo que me deixa feliz.
No ponto de ônibus,rumando para a casa da Lu, uma menina pequena me olhava:
- Que cor "é" seus olhos?
- castanhos - respondi.
- tira o óculos "preu" ver?
Não é o máximo como criança simplesmente consegue se comunicar com todos?
Por mais que eu deteste tomar ôninus - e eu já disse que detesto - é bacana perceber como dá pra se conhecer mais das pessoas, pra trocar coisas, pra ver outras vidas que não a minha apenas.
Minutos depois sentou uma velha. Constrangida, me pediu um real. Dei três, ela riu sua risada sem dentes, disse que ia dar "até pra comprar leite".
Eu já estava com vontade de chorar ali, velhos me comovem, velhos solitários me cortam o coração.
Essa velhinha mora sozinha, as filhas moram no interior do Paraná, disse que morava em São Paulo há anos, ainda ficava aqui porque era mais fácil para se tratar, para pegar remédios no posto de saúde, essas coisas.
Tirou os remédios da sacola, me explicou pra que serviam, na ânsia de papear com alguém.Um toque escatológico aliviou tudo, ela dizia:
- esse aqui é pra eu urinar bem, por causa do rim, sabe? ah, mas eu urino...urino que é uma beleza.
Eu ri da história de xixi da velhinha e continuamos conversando. Ela contando, eu escutando e pensando em um clichê que me pareceu doloroso: em uma cidade tão imensa, quantas pessoas seriam solitárias como aquela velha que andava sozinha, morava sozinha e conversava com uma estranha, após pedir um real.
A solidão dela me cravou nos ossos, doeu, assustou.
Ao entrar na casa da Lu, momentos depois, recebi uma golfada de felicidade: uma família amorosa, alegre, unida. Fiquei pensando na nossa sorte e fiquei pensando na velhinha.


**** texto publicado originalmente em julho de 2007.

27 maio 2008

Vivien e Viviens


Eu estava lendo o Zander quando pulei da cadeira: na última frase, o personagem responde "não sei, Vivien."
Pensei no ato: o que estou fazendo aqui?
Depois, saída do surto egocêntrico, percebi que existem outras Viviens no mundo.
Mas eu tenho uma boa desculpa pra isso. Nunca, nunquinha estudei com nenhuma Vivien, trabalhei , conheci. Nunca gostei ou desgostei.
Durante anos fui só eu e a maluca de E o Vento Levou.
Ah, claro, teve a personagem de Uma Linda Mulher.....aquele "clássico".
Vocês aí podem não ter notado, mas eu notei cada vez que o Richard Gere dizia "Vivien".
Uma hora, ele fala meio bravo, saca homem sexy meio bravo? Coisa de doido.
Uma hora , no final, quando ele finalmente escolhe ficar com ela,grita o meu nome, com flores e todo amor pra dar. Vida pra dar, destino, opção, escolha, tudo o que ela desejava.Ai, ai.
E eu confesso: parava o filme e repetia a cena, uma, duas, infinitas e deliciosas vezes.
"Viiiiivieeeennn......."
Um amigo me disse que é de origem celta e significa vida. Não sei se é, mas achei bonito e repito por ai, vendo o peixe pelo preço que comprei.
Mas o pior de tudo é que minha mãe leu um daqueles açucarados romances onde as heroínas tem nomes duplos e .....bom, vamos lá, confesso: é Vivien Christina.
Assim, com esse h no meio, assim mesmo. Pode sacanear.
Mas tem um quê de personagem de novela mexicana, certo?
- Você não pode me deixar Vivien Christina...!!!!
- Ah, vá pro inferno Luiz Eduardo...!
( sobe a música)
Faz alguns anos, tive uma aluna com esse nome. Ele parece ser meio comum nas novas gerações. Mas na minha geração ainda sou rara.
Era engraçado falar:
- oi, Vivian.
- oi, Vivien.
E duas bobocas riam, porque eu juro, foi engraçado chamar alguém com o meu nome, pela primeira vez na minha vida.



**** esse texto foi publicado originalmente em dezembro de 2006.

22 maio 2008

Samba à paulista


Então, foi mais ou menos assim: eu estava na casa da minha mãe, blogando feliz da vida, quando Tati me convidou pra ver um
show delicioso, a gravação do dvd do pessoal do Cupinzeiro, fazendo samba paulista.
Fomos, claro. Ando enfiada em casa, lendo e vendo filmes, sair pra ver Cupinzeiro era realmente um convite irrecusável.
O show foi em cima: como eu comentei na comunidade deles, um tom melancólico, aquela aura nostálgica bacana que só quem pesquisa sabe dar às composições. Edu de Maria ensaiou uns passos de Exu que combinaram perfeitamente com as músicas, Anabela, com voz incrivelmente límpida, emocionou mesmo, eu gostei horrores.
Até tentamos dar parabéns pro Bruno, porque sua parceria na composição foi realmente incrível, mas o fulano saiu rápido, nem deu pra falar um oi direito.
Preciso achar no youtube pra vocês ouvirem: tem um clamor de senzala, uma coisa que dói ao ouvir. Imperdível.
Tati é um inferno, vocês sabem: cismou que ia cheirar o cabelo rasta de um fulano, porque queria saber que cheiro tinha. Claro que eu tentei correr, mas a despeito de tudo que eu implorei, foi lá e cheirou.
Foi categórica:
- Cheira sofá. No máximo uma cortina velha.
De lá, após o show e o cabelo-cortina, fomos pro Mexicano ( ex-Caicó) ver Ugo e outros músicos.
Destaque para Preman : uma neo Elis com uma voz deliciosa.
Eu sempre digo por aqui que a Tati é minha gurua e funciona assim mesmo: gosto da forma aberta e profunda com que ela vê a vida e as relações. Obviamente isso temperou nosso papo-mulherzinha, onde falamos de relações, perdas, filhos e esses homens, desjáveis, incríveis e - quase sempre - incompreensíveis.
Pois é, queridos, samba `a paulista, iguaria da boa.

**** atualização *****

Comprei o cd do Cupinzeiro agorinha mesmo, quem quiser um, passe na Livraria Cultura.
E bom apetite.

21 maio 2008

O Vôo da Vaca








Eu tenho uma jovem amiga que adoro, trabalhamos juntas em uma escola, fizemos amizade em pouco tempo. Sempre gostei dela.
Há uns poucos anos, sentadas em um bar da cidade, ouvíamos seu namorado tocando. Jovem, bonito, músico...estava cercado por uma manada de mulheres enlouquecidas pra quem a noção do ridículo era um conceito pra lá de abstrato.Ela olhava, olhos vidrados, mão crispada e só tinha uma palavra pra todas elas:
- Vacas.
Eu ria, tentava relativizar, dizendo - o que era verdade - que eles tinham um relacionamento legal, que se gostavam, etc e tal.Não adiantava eu repetir que sempre haverá uma fulana sem noção pra atrapalhar,afinal, é a lei da selva.
Em dado momento, eu tentava apelar pra sua auto estima, pois ela era efetivamente não apenas mais bonita como, provavelmente, mais inteligente que aquele séquito patético.
Mas ela olhava pra turba e repetia.
- Vacas.
Tempos depois, trabalhando em lugares diferentes, nos encontramos e papeamos. Perguntei como ia o assédio sobre o namorado músico e ela me contou uma história, aliás, A história.
Em uma noite, irritada com aquilo tudo, ela bateu boca com o namorado.
Uma das donas das calcinhas em promoção tentou interferir, entrar na briga do casal.
Nem imagino como alguém pretente sair ileso entrando em uma briga de casal, mas a fulana foi lá, toda amiguinha.
Minha amiga, percebendo o nível do cinismo da amiguinha, sugeriu amigavelmente que ela " tirasse o traseiro gordo dali".
Ante a insistência da fulana, minha amiga, tomada por forças maiores, com as quais me identifico, JOGOU a criatura de onde eles estavam, sendo que a criatura se estabacou na calçada, poucos metros abaixo.
Eu juro pra vocês que eu sou uma boa pessoa, sério, juro mesmo. Mas que eu pagava pr ver essa vaca voando, ah, gente, pagava.


****Esse texto foi escrito para A., a autora do feito e foi publicado originalmente em 2007.
Algumas conversas com uma amiga muito querida sobre ciúmes e mulheres loucas me lembraram dessa história.

20 maio 2008

O banho


Já disse aqui que esse ano não começou bem pra mim, problemas profissionais sérios que me fizeram ser meio estúpida com uma amiga que estava com crises balzaquianas, disse que não queria ouvir papinho sex and city porque tinha coisas muito mais drásticas pra pensar. Como contas, por exemplo. É real, mas eu não precisava ser grossa.Pedi desculpas, mas já tinha falado, é fogo isso.
Mas a angústia dos problemas práticos fazem a gente tomar umas atitudes meio patéticas. Exemplo: eu vou em uma igreja católica eventualmente. Nunca pra missa, porque o povo lá é da Renovação carismática e se uma missa já é algo com o qual eu não me identifico, esse povo doido me afasta ainda mais.
Não quero elocubrações teológicas, minha necessidade de fé é visceral e gosto disso. Não estou nem aí pra discutir a real existência de uma divindade, não me interessam questões filosóficas, minhá fé é reconfortante e chega. Evidentemente a relação homem-religião me interessa e quero discutir, mas a relação homem-fé é muito íntima, ancestral. Durmo se esse papo vem a tona.
Enfim, eu dizia que... eu curto a tal igreja, ela é meio estranha, tem uns rituais: escrever pedido em papel , amarrar fitinha, coisas assim. Um primo da minha mãe, que é me conhece bem e é muito meu amigo foi peremptório:
- Você gosta porque é meio macumba, fala a verdade....
Tai, tem um climinha meio ritualistico, meio pagão-cristão, meio macumba, que eu me amarro.
Outro dia fui lá: tem uma fonte de água benta (eu sei, nem me venham com argumentos racionais porque sei que vcs estarão certos, mas não tô nem ai..) e eu fui lá, com garrafinha, pegar a tal água. Aí decidi molhar a testa, aí...molhei testa pra abrir a mente...decidi molhar o coração,prá ver se esse desgraçado não me sacaneia mais.... rins, por motivos que já contei aqui.....e comecei a praticamente tomar banho na tal torneira-benta.
Minutos depois, durante meu banho-bento, chega um fulano: cabelo comprido, todo tatuado, carregando uma garrafa de dois litros. Sério, uma garrafa vazia de coca-cola pra encher de "água benta" da torneira. Pior do que eu, vocês já viram tudo.
Rapaz, o cara toca a jogar água também. Dois retardados tomando banho de água benta: a perua aqui, com salto alto e unhas vermelhas e o porra-louca lá, tatuado e cabeludo. Só alegria. Ou melhor, só desespero mesmo, surto em dupla.
Merecia uma foto.



******Esse texto foi postado no ano passado, hoje, além das minhas opções religiosas terem mudado - tema pra outro post - minha vida profissional também mudou.
Decidi republicar porque o tema "causos" foi citado no post anterior e porque esse post é um dos que R., um leitor fiel, gosta muito.

16 maio 2008

Escrever, escrever e escrever









Momento "faça você mesmo": me digam, queridos, que assuntos vocês gostam de ver nesse blog?

15 maio 2008

Convite








Queridos leitores, o assunto "blogs" sempre me interessou, desde que descobri esse universo, há cinco anos, primeiro como leitora, depois como blogueira.
O bacana é ver como existem inúmeros pesquisadores - alguns linkados aqui ao lado - que desenvolvem trabalhos sobre esse tema.
Como eu já disse várias vezes, concordo com quem acha que essa democratização da informação e da criação é uma revolução sem igual.
Para quem, como eu, se interessa por esse tema, tenho um convite.
Meu querido amigo, professor, blogueiro e "pai" desse blog, Tarcísio Torres, vai defender sua dissertação de mestrado no mês que vem. Eu não vou perder, e você, vai?

Título do trabalho: "Blogs e as ferramentas de publicação pessoal no processo de construção de subjetividades" (mestrado). Candidato: Tarcisio Torres Silva. Orientador: professor Hermes Renato Hildebrand. Dia 20 de junho de 2008, às 14 horas, na sala 3 do prédio de pós-graduação do Instituto de Artes - UNICAMP

12 maio 2008

A volta do "Cansei"?


Salva pela tv a cabo, desisti de assistir novela.
Eu gosto de novela, gosto mesmo. Não gosto é de novela chata ou que me irrite demais.
Essa que passa às oito eu até gostava, apesar de tudo.
Tinha uma simpatia pelo personagem ambíguo e idiossincrático da Marília Pêra. Mas o que houve por esses dias? Cenas de perua enlouquecida, gritando "cheeeeega!!!" histericamente. Tô pouco me lixando pras peruas desse país. Estou pouco me importanto com elas e suas necessidades, tendo em vista as necessidades gritantes que tem a maior parcela da população.
As alfinetadas de quinta categoria - simplistas, reducionistas, tolas - que o autor faz para o governo são patéticas. Mas essa personagem revisitando o já totalmente ridicularizado movimento(???) "Cansei", me deu engulhos.E é um desperdício com uma atriz do gabarito inquestionável de Marília Pêra, sempre fantástica..um desperdício de talento.Ver uma de minhas atrizes favoritas com cenas dessas me deixa irritada mesmo.

Me salva, Gilberto Braga!

30 abril 2008

Ah,não,Maristela....

A minha querida Maristela criou um blog só pra sacanear 1968,vejam só vocês.
E eu estou correndo aqui um minuto,só pra defender o ano das barricadas da França, o início dos anos de chumbo, uma moda deliciosamente chique, o ano que nasci, ora, bolas...
Mas com o rei aqui, defendo o meu ano.
Pois é, meus queridos, continuo uma romântica incorrigível, a despeito do meu discurso atual, falsamente blasé.




Universo feminino

Daniel "decidiu" ser publicitário com dez anos. Desde essa época, há cinco anos, as propagandas são assistidas e discutidas lá em casa. Ele me surpreende com críticas como "essa perdeu o foco" ou essa "está muito poluída visualmente".
Rimos e sacaneamos algumas,tiramos o chapéu para tantas outras.
Eu gosto, em especial, desses dois filmes. O primeiro, de 1987, já faz parte do imaginário de grande parte da população brasileira, sendo citado em diferentes momentos. Assinado pela W/Brasil, obviamente. Delicado e poético, acho que é um dos melhores que já assisti.
O segundo eu não me canso de ver, morro de rir. Não sei de quem é a criação, mas sei que é alguém que saca tudo sobre mulheres.
Vejam.







25 abril 2008

O fim de uma era






Ontem passei no Cambuí e vi que o Caicó não existe mais.O Caicó era o último bar de uma outra era,um período onde os jovens da cidade iam pro "setor",um lugar onde os bares se agrupavam e "todo mundo" ia.Porque em um determinado momento da vida,seus amigos são "todo mundo",são um mundo.
Naquele pedaço,meu bar predileto era o Ilustrada.Era lá que,há vinte anos,eu ia ver a Tati e a Carô cantarem seu delicioso repertório.Era pra lá que eu ia sem combinar,porque sabia que ia encontrar meus amigos.Mas isso era em outro século.Literalmente.O Ilustrada era uma casa antiga,com muita mpb,visitada por qualquer pessoa bacana que viesse na cidade.Virou um estacionamento.Por uma questão de princípios,nunca parei ali.Seria uma heresia.
O Olhar 43 era um outro bar que eu gostava,o Natural eu detestava,só ia quando R.vinha pra Campinas...ele fazia questão de ir naquele criadouro de porra-loucas e eu o acompanhava.Esse bar também fechou.
O Caicó mudou de estilo,ficou sem cara,sem identidade,seu fim foi morrer mesmo.
Mas eu fiquei triste.Tinha visto a reportagem do Bruno falando sobre o outro bar,mas por algum motivo,apesar de ler que era no lugar do Caicó,ainda não tinha sentido a ficha cair.Achei que ele sempre estaria ali,eu acho.
Para muita gente,pode ser apenas um bar que fechou.Pra mim e pra outros...é o fim de uma era.Foi lá que fui papear com Tar e outros amigos professores,contando pra eles como era o bar há anos.Foi lá que minha amiga jogou uma idiota escada abaixo.Foi lá que comecei a namorar meu ex-marido.Era pra lá que eu,Dri,R. e nossos amigos,íamos nas sextas feiras,filosofar sobre a vida,planejar um futuro que parecia tão longínquo.Impossível pensar no Caicó sem pensar nas pessoas importantes pra mim,sejam eles amigos,namorados - mesmo os que deram mancada,mesmo aqueles que nem entraram efetivamente na minha vida.Mas me lembra principalmente aqueles com quem tive longos e intensos relacionamentos.Todos os namorados realmente importantes,foram comigo no Caicó.Se nunca pisou ali comigo,foi um ninguém na minha história.
Ver que não sobrou nenhum bar do setor - apenas o clássico city bar,que eu não vou - ver que todos os lugares onde coisa bacanas aconteceram,me deixou estranha.
Já disse para os amigos que fazer 40 anos está pirando minha cabeça.Realmente gostei de fazer trinta,mas quarenta,hum,sei não.Aquela coisa clássica de fazer um balanço na vida pode ser algo bem estranho a essa altura do campeonato.
Me despedir do setor,me despedir de espaços nessa cidade,fazem parte de um ritual de passagem difícil,como são todos os rituais de passagem.
Não se iludam,não sou saudosista.Sério.Mas acabar com parte da minha história foi demais pra mim.

23 abril 2008

Eu,uma bata e a ausência de dieta














Ontem estava no supermercado,senha na mão,esperando minha vez no açougue.Um dos atendentes me chama,faço o pedido,um outro,bonitinho,franguinho,diz pra ele:
- Eu acho que mulher grávida fica tão bonita...você não acha?
O outro não respondeu,continuou fatiando os bifes.O rapaz insistiu:
- Eu gosto,sempre achei que mulher grávida fica bonita.
Eu ouvi,achei bacana a frase,mesmo porque eu também acho.Sorri pra mim mesma.Ele repetiu a frase, olhando pra mim.
Aí saquei.
Sim,queridos.Era um elogio.
A "grávida" era eu.Tô começando o regime agora.Socorro.

21 abril 2008

Coisas novas













Meus amigos sabem que esse ano que passou não foi moleza.Confuso,cheio de problemas.2008,apesar de ter começado mal,foi salvo a tempo pelo Bia e Karen,que ao me resgatarem na minha casa,salvaram minha entrada nesse novo ano.E as coisas estão melhorando.
Coisas boas tem acontecido e estou animada,muito animada.
No meio dessas coisas,essa dissertação encantada,que ficou esquecida em um canto,volta a ter sentido e volta a ser feita.
Ufa.

14 abril 2008

Entrevista


















Sem tempo pra blogar,deixo uma entrevista para vocês ouvirem.
Juro que minha voz não é nojentinha assim todo dia....
Escutem.

10 abril 2008

A água









Quando eu lavo o quintal,sempre me lembro daquele delicioso romance de Marguerite Duras,O Amante.
Me lembro de como ela descreve sua casa sendo lavada,a alegria não cotidiana que se instalava na mãe,nos empregados,nela,no irmão menor.O minuto em que a água lavava os problemas,de forma ritualística,mágica.
Esse livro foi objeto de uma das (raras) boas adaptações,uma das versões que não me fizeram sair xingando do cinema .Além de ter um toque delicioso: o texto de Marguerite Duras sendo lido para o espectador,que participa de seus pensamentos mais íntimos.Adoro narradores em filmes,me sinto cúmplice deles.
Sempre me lembro disso e lavo feliz o quintal,jogando os problemas fora,lavando todos eles.
Gostaria de fazer isso mais vezes,mas em um planeta sem água,seria irresponsabilidade.
É delicioso,refrescante,divertido.Eu gosto.
Agora,para fazer isso,fico ouvindo um áudio-livro que comprei,o Caçador de Pipas.Tenho o horrível hábito de lavar louça,arrumar a casa,e os demais serviços caseiros, com a tv ligada.Parece que é impossível viver sem barulho.Horrível,eu sei.Me acostumar e explorar o silêncio é um desafio,que ainda não estou pronta para assumir.
Comprei esse áudio-livro e foi uma grande aquisição: fico limpando,lavando,cozinhando e ouvindo a história,como eu gostava de fazer quando era criança.
O Caçador de Pipas se revelou uma bela e triste história,ainda não terminei,uma cena chocante me fez parar de ouvir,até me restabelecer.
Confesso meu preconceito contra os mais vendidos,nunca os compro.Mas dessa vez comprei,pois já que a Clélia indicou,achei que seria uma boa compra.
Sobre o livro,falo no próximo post.

07 abril 2008

Todo mundo conhece uma Zelda







Eu conheço uma Zelda,uma azeda que reclama de tudo.Ninguém tem saco pras Zeldas,certo?
Porque uma Zelda sempre está desanimada, o que nem chega a ser mau humor real,porque isso demanda alguma forma de paixão.Zelda não tem paixões.
Seus olhos baços não se animam,nem tampouco se irritam.Zelda tem desânimo,tem aquela preguiça existencial que faz com que os ombros se curvem.
Talvez a única reação de Zelda seja o deboche.Porque por meio de seus risinhos maus,muxoxos e troca de olhares com as pessoas(que podem vir a ser suas vítimas,também,basta que virem as costas),ela se comunica com o mundo.
Não trabalha,não lê,não se posiciona.Mas sabe o dia-a-dia da vizinha,da sogra,da cunhada,que comenta,baixinho,quase "defendendo-os"...porque talvez ela se considere uma pessoa boa.Não há como saber.
Zelda prefere morar em uma cidade feia,com gente feia e desanimada,porque seu olhar limitado nem percebe onde vive.Zelda não vê nada ao seu redor,seu mundo se reduziu a pequenas intrigas cotidianas,aos velhos laços frouxos com vizinhos que,assim como os servos medievais,parecem estar ligados de forma vitalícia ao lugar onde cresceram,mesmo que ele seja um lugar sem opções,horrível,deprimente.Não há janelas para Zelda,porque seu horizonte termina na pequena área de serviço onde ela se enfia e reclama.
Talvez eu tenha pena de Zelda,ainda não sei.
Porque deve ser duro viver uma vida em preto-e-branco,sem paixões,sem horizontes,se satisfazendo com seus muxoxos e com a inveja da vida alheia.
Toc,toc na madeira,é melhor se manter longe de Zelda.
E vocês,conhecem alguma Zelda?Contem pra mim.


*****No post abaixo,o resultado do "concurso".

05 abril 2008

A gatinha sem nome ( agora,com o resultado)






















Preciso de uma ajudinha de vocês aí.Quem vem sempre,quem vem às vezes,quem comenta,quem prefere ficar quieto,todo mundo.
É o seguinte:Daniel tem cinco gatos pretos.Malcolm X e Chiquinha são a terceira geração de uma gata de rua que adotei.Cresceram,esqueceram que são irmãos e brincando aqui e ali,acabaram sendo pais de uma nova cria...mais três gatos pretos.
Como não conseguimos doar e somos radicalmente contra abandono de animais:existem cinco gatos pretos lindos na minha casa.
Os meninos,filhos de Malcolm,se chamam Mandela e Martim (Luther King,claro),mas a menina ainda não tem nome.
Eu sugeri Josephine( a Backer),mas Daniel não gostou.Pensei em Urura ( Star trek,essas paradas),mas o pai humano deles também não aprovou.Resultado,a coitada da gata virou...gata,e só.
Parece aquele western do John Wayne,onde o cão se chamava cão.Frou sugeriu Toni Morrison,mas ela ia virar Toni só,e não ia dar certo.
Então me ajudem:preciso de um nome interessante de uma mulher negra bacana.
Quem começa?
O ganhador passa a ser o padrinho/madrinha da gata sem nome.

***** Trotta já deu sua sugestão: Billie Holiday,mas Daniel ainda acha que não é esse.Então,continuamos a busca do nome da gata preta.

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Queridos,o nome escolhido foi Tina,portanto,Valter,o homem-que-não-gosta-de-gatos...é o "padrinho" da gata...ahhaah
Valter,Daniel falou pra eu te dizer que você tem que vir no casamento,aniversário,essas coisas.;0)
beijos a todos e obrigada.

04 abril 2008

Circo de horrores ou a festa sobre Isabella
















Não é novidade para ninguém que parte da humanidade tem uma necessidade de conviver com o horror,com a violência,em um êxtase sádico asqueroso.Não foram poucos os que berraram para gladiadores no Coliseu,nem tampouco os que foram assistir aos espetáculos de decapitação do período do terror francês.Muitos outros elementos estão envolvidos nisso,claro,eu sei.Mas uma boa dose de curiosidade mórbida também.
Basta ver onde se formam filas quilométricas quando a Unicamp abre suas portas...o quê? você ainda tem dúvida?Sim,formam-se filas mastrodônticas na anatomia,isso mesmo,pra ver corpos.
Também não é novidade para ninguém que parte da imprensa vive dessa curiosidade,alimentando-a calorosamente.
Mas os fatos recentes,ainda que eu saiba de tudo isso,me chocaram.
Estou falando da menina Isabella,que morreu na queda de seis andares,na cidade de São Paulo.
Eu não sei quem foi,a polícia também não,a investigação ainda está aberta.
Mas parte da imprensa já julgou,já condenou e faz um circo aterrorizante,incitando as pessoas ao ódio.
Ontem eu vi uma emissora que ficou HORAS discutindo esse assunto,ou melhor,concluindo com uma autoridade dada sei lá por quem,que o pai seria o assassino.
Pode ser,não sei.Mas o fato é que a condenação dessa pessoa de forma precipitada pode fazer reviver - como lembrou a Frou ontem - o caso da Escola Base,onde os donos foram acusados e perseguidos pela imprensa por uma suposta agressão sexual dos alunos.
Apesar de provada sua incocência,hoje em dia estão arrasados,sem dinheiro,sem respeito,sem saúde.Sua vida foi para o lixo.
A polícia,querendo mostrar serviço a população,já acusava o pai nas primeiras horas:acharam um fulano dentro de uma situação realmente confusa e parecem querer provar sua competência.
Fiquei pasma,eles deduziram que o corte da rede protetora foi feito com uma tesoura e - pasme,leitor - acharam uma tesoura na casa.Oh!!! algo absolutamente fora do normal,certo? afinal ninguém tem tesoura em casa? você tem??? que horror,pode ter sido você.
Por algum motivo que não entendi,os jornalistas chamam a mãe de "mãe biológica".
OU eu fiquei louca ou não entendo nada:"mãe biológica" não é a forma de tratamento da mãe que apenas pariu enquanto outra criou?
Esse não é o caso,a menina era criada e morava com a mãe.
As mães leitoras daqui da Casa já deixaram recado na escola dos filhos dizendo "olá,aqui é a mãe biológica do fulano"?Ora,pipocas.
Alguém ouviu uma criança falar "pára,pai" e isso virou manchete.Eu estou falando sério.Um vizinho pode localizar com tanta perfeição de onde veio essa frase?
Uma vizinha do prédio da frente viu o casal chegando juntos.Ela usava binóculos?
Um jornalista(!) com cara de "saquei tudo,crianças,me ouçam e aprendam",ficou horas ontem,instigando a população a ver o pai como assassino.
Vários desocupados deixaram seus - aparentemente poucos - afazeres para ficarem do lado de fora da delegacia,fofocando.
Que medo dessa gente.
Nos primeiros momentos,a mãe da menina disse que duvidava de uma suposta culpa do pai,por perceber o carinho e amor com que ele sempre tratou a menina.
Essa mãe ficou três horas e meia trancada com uma delegada,na saída,disse que queria que a "justiça fosse feita".
Uma mãe que acabou de perder a filha de forma brutal,seria alguém perfeitamente influenciável,não seria?
Presos e separados,a madrasta e o pai estão na mira dessa imprensa mórbida,onde poucos dão sinal de lucidez - como fez Alexandre Machado,hoje de manhã,lembrando inclusive,da Escola Base - e outros prometem a população sedenta de sangue:"separados,eles entram em contradição..."
Claro que sim,podem até se acusar,inclusive.Essa técnica já colocou mãe contra filho,avô contra neto.
Torquemada que o diga.